Let me introduce myself

scriptu em Existo: talvez. by Djabal Tuesday December 12, 2006

correntes

Please allow me to introduce myself

Pleased to meet you hope you guess my name.

(Richards&Jagger)

Queridinha, tenho anos e anos de repressão. Repressão de sentimentos, repressão física, repressão intelectual, não sei qual o motivo pelo qual isso me batia dessa forma, me surrava. Possuía a mesma sensação que você me descreveu outro dia. Chegava a ter uma dor física, uma decepção com o autor ou autora da iniciativa, fiquei - como muito bem e argutamente você percebeu - durante muito tempo com uma mágoa terrível, arrastando correntes e mais correntes, todas elas superiores ao meu peso, e à minha própria possibilidade de suportar. Mas ainda assim, tal como o lutador, que tanto me impressionou, levantava e novamente saia a lutar. A cada pessoa que eu encontrava, já estava treinado para lutar contra ele, já sabia de antemão, que dele viria um golpe, e se não desse o meu primeiro, acabaria no chão.
Pois bem, assim vivi durante anos e anos. E com a própria idade, experiência, sabedoria, ignorância, falta de alternativa válida, fui buscando num mundo de sonhos, num mundo teoricamente perfeito, a solução para os meus problemas, num escapismo barato e que me deu uma nova alegria.
A de saber que outras pessoas existiam como eu, que sentiam o mesmo que sentia, e principalmente e aparentemente, sabiam lidar com tudo isso, e estavam vivas e com boa saúde. Coisa que pouco a pouco, não mais eu teria, ou vida ou saúde.
(Para poder escrever tudo isso assim, direto, sem censura, sem maiores pudores, coloquei um rock dos anos vinte, Rolling Stones, e o primeiro verso que me veio foi esse que dá o título a esse mail, que me lembrou tudo o que passei, e apenas para que entenda os meus sentidos, quase não consigo continuar, pois a lembrança de tudo isso é tão viva, tão dolorida, que tive que abrir um parêntese, para saber se consigo continuar ou não. E é por isso que fazia tantos anos que não mais ouvia rock, já que não consigo viver sem música e sem ler. Cometi uma injustiça com ela música, quando me preocupei apenas com “as moscas volantes”).
Bem, vamos lá…
De um determinado momento passei a ficar na moita. Apenas a beira do caminho, vendo as caravanas, num leito seco de rio, onde muita gente e muita água haviam passado, num lugar seguro, andando e nadando rio acima, e parando numa praia, via as moças arrumando suas roupas, de banho ou não, algumas me paravam para conversar, outras não, e eu sempre mudo, quieto. Fazendo uma espécie de mimese, uma espécie de mimetismo, para poder me aproximar sem espantar nada e ninguém, estava cansado de tanto lutar, sabedor que não contava com força suficiente para conseguir vencer tudo e todos, achei essa maneira a mais acessível para continuar vivendo, sem bater e sem apanhar.
E à medida que conseguia aprender com a experiência alheia, adquirida nas milhares de leituras que fiz, aprendi a desenvolver uma capacidade de análise, que não sei se é boa ou não, mas dá parâmetros para o meu sofrimento e capacidade de resistência. Consegui com relativa facilidade penetrar no âmago de cada pessoa com a qual convivi e dali deduzir o resultado final. Ao mesmo tempo em que por pequenos gestos, pequenas confissões, fui mostrando do que seria capaz. Da minha capacidade de acomodar as coisas, ou de não acomodá-las.
Adquiri com o tempo um ceticismo que até hoje me acompanha, de uma incredulidade da mudança do ser humano, causada por um agente externo. Essa mudança, quando existe é somente causada por ele mesmo. Quando aquele ser, conseguiu transformar a palavra em ação. A palavra em ato. Quando ele conseguiu eliminar a função tempo. Tempo que a palavra leva para se transformar em atitude.
E com esse ceticismo ao meu lado, procurei me tornar um agente anônimo, um não causador de nada, um simples replicante. Replicante que pensava, que de cada coisa apenas pensava, pensava, ligava fatos, pontos, e concluía, concluía.
E a conclusão sempre foi essa.
Quando agi sempre pareceu ser uma atitude explosiva, impensada, mas ela sempre foi , pelo contrário, resultado de um grande iceberg de sensações que não foram percebidas pela menina que estava à beira da praia, preocupada com seu sol, com seu corpo, sua areia e seu sal. Quando notou que existia foi de surpresa a reação, e imediatamente de rejeição. Rejeição daquele ser que pensava e tinha determinadas conclusões tiradas diferentes das dela. E por isso sempre fui rejeitado. Sempre se preferiu abolir.
Com a ressalva de que eu sempre dei o direito de iniciativa, para purgar a culpa do outro assumi a minha e a do outro.
Perdoe-me sou obrigado a fazer outro parêntese.
E se coloquei R.Stones, foi por isso mesmo. Compreenda que é muito dolorido tudo isso pra mim, tenho que fazer isso para ganhar algum tempo comigo mesmo. Se não, não vai.

Ruby Tuesday (Jagger/Richards)

She would never say where she came from
Yesterady don’t matter if it’s gone
While the sun is bright or
In the darkest night
No one knows
She comes and go
Goodbye Ruby Tuesday, who could hang a name on you?
When you change with ev’ry new day
Still I’m gonna miss you
Don’t question why she needs to be so free
She’ll tell you it’s the only way to be
She just can’t be chained to a
Life where nothing’s gained and nothing’s lost at such a cost
Goodbye Ruby Tuesday, who could hang a name on you?
When you change…
“There’s no time to lose”
I heard her say
Catch your dreams before they slip away
Dying all the time
Lose your dreams and you will lose your mind
Ain’t life unkind?
Goodbye Ruby Tuesday, who could hang a name on you?
When you change…

Vamos lá…
Para encerrar esse episódio. O uso do cachimbo faz a boca torta, portanto não suporto qualquer tipo de pressão, principalmente aquela que diz respeito a fazer assim ou assado, de exigir comportamentos, de cobrar condutas, de curar inseguranças alheias. Essas discussões me remetem aqueloutras que já tive e que não pretendo ter mais.
Todos que testam minha capacidade de resistência se surpreendem com ela, eu é que não quero mais surpreender ninguém, recuso-me terminantemente a mudar de posição sem convencimento. O que cansa e muito qualquer pessoa normal. Normalmente situada. E com isso adquiri uma capacidade de argumentação razoável, segundo dizem.
Felizmente aprendi a não guardar mágoas, eliminá-las. Tenho uma grande capacidade de amar, e creio absolutamente que somente através do amor é que se consegue alguma coisa nesse mundo. Apesar de não ser religioso de forma alguma, isso não quer dizer que não tenho espírito, e ele me diz que amando, de qualquer forma, de qualquer maneira, você conseguirá sobreviver. Infelizmente para mim é esse um artigo como o mico leão dourado, em vias de extinção, e sem nenhum grupo de pressão que chame a atenção para isso. E o resultado é o embrutecimento do homem. O egoísmo elevado a enésima potência, as agruras financeiras levando tudo e todos a reduzirem suas necessidades a uns punhados de dinheiro para que possam satisfazer suas necessidades materiais mais importantes, e que funciona - ele o dinheiro querido - como uma droga, droga química que elimina neurônios a cada dia que se utiliza dela, de uma maneira que poucos conseguem perceber.
Ninguém consegue ver a beleza da palavra, da vela, do sol, do mar, do sal, da ave, da árvore, da amizade ou do amor. O que se há de fazer, querida?
E é por isso que gosto tanto de você. Creia…
Não, não consigo mais continuar, foi demais pra mim.
Tenho que parar, agora.
Saiba que sou muito bom em abstinência e péssimo em moderação. Assim como Ítalo Svevo, não o Calvino.


Como conseguimos almoçar? Fazendo uma confissão!
Sem que você soubesse. A palavra é libertadora.
E o texto é pensamento. Leia.

Areia Movediça

scriptu em Existo: talvez. by Djabal Friday December 8, 2006

Tive uma vontade incrível de acordar cedo, apenas para escrever. Tenho várias coisas para fazer, e fiquei preso de uma ansiedade terrível. Ansiedade pela incompreensão, pela chatice do dia-a-dia, pela burrice e estupidez da selva. Já devíamos estar acostumados. O costume vem da repetição cotidiana? Ou a repetição cotidiana servirá para torná-lo indolor? Sei lá.
Ao raiar da rua…
Hoje pela madrugada a lua me perseguiu desde a saída de uma cova até a chegada à outra. Parecia que perguntava alguma coisa. Nem ela sabia bem qual era a pergunta, e nem eu, se por acaso a ouvisse, saberia dar a resposta. Por mais clara que fosse a pergunta, a resposta seria inexistente. Será que também fui acometido do mal da Lua?
Na Sicília, houve um tempo que se jogava futebol com a cabeça de seus inimigos, hoje se joga com as cabeças dos amigos e o time é formado pelos inimigos, esse foi o caminho percorrido pela nossa evolução.
Houve uma lua cheia, amarela, brilhante como estrela, provocava uma sensação nos homens que a fitavam continuamente; e creio que era a mesma que me foi causada hoje. A hipnose. Algo estranho me aconteceu.
Tanto é que cheguei louco de vontade de escrever e não consegui. Acordei para escrever. Escrever para tirar de dentro o que me faz mal. E nessa luta estou. Estou faz mais de uma hora na frente da minha interrogação, ouvindo uma música que normalmente me acalma, acalenta, competentíssima no serenar da alma inquieta, e por mais que eu ouça, essa sensação não me abandona.
Revi toda a minha existência, desde há alguns anos, e posso dizer o quanto é sorrateira a busca do tempo que se perdeu.
Lua companheira de noitadas e madrugadas só faz indicar: estamos de estarmos fazendo tudo errado. Tenho poeta aliado e peço: Ajuda-me. Já que você é tão acessível como a luz, mais que tudo: legível.
Ele mostra quanto água, lua e a busca são manifestações da mesma coisa. Da gravidade. A gravidade que sempre nos puxa para baixo. Sempre mais abaixo.
Posso me valer de outras presenças. A flagrante diferença reside nas Ruínas Circulares. Circulam muito mais rapidamente que a velocidade do sangue que corre em minhas veias. Com muito mais ardor e fragrância, competência e sensibilidade. Porém circulam sempre numa espiral ascendente (descendente?). Comento as ruínas que nos tornamos a cada lua que passa.
Se tiver memória se lembrará que essas minhas divagações são constantes e que acabam me fazendo tão bem quanto uma descarga elétrica. Que pune a sua ousadia com um choque tão grande, que de cabelo em pé, voltamos a pensar no cotidiano.
Cotidiano terrível que tem me feito pular da cama cedo, e só me lembrar dela tarde, muito tarde, trôpego de cansaço. Cansaço que me faz ter um sono profundo, sem sonhos ou lembranças.
Escuro como o meu destino. Escuro como a Idade Média, escuro como as trevas do apagão na qual coloquei meu coração. Trevas que fizeram milhões de letras andarem pelo mundo.
Lembro-me ainda das canções, do mal, que nos atrai, como atrai para a selva aquele caçador, que sabe que encontrará a morte como recompensa. Mesmo com medo penetra-a masculinamente, pela simples possibilidade de possuí-la, vencer o seu destino e quem sabe sair com uma foto e a fera pendurada ao seu lado.
Que belo filho!
Quem sabe ele ganhará o prêmio que foi negado ao lutador?
Quem sabe ainda, se ele simplesmente viverá. Viverá sem fatos e sem fotos, como aquela antiga revista.
Viverá para ensinar que nada aprendeu em seus longos dias.
Que todas as vezes que se esgotou gostaria de ouvir um sabiá, gostaria de alimentar um preá, de ouvir uma outra canção; que a mesma selva que existe para aquele caçador, física, escura, tomada de árvores, cipós, tramas, intrigas e moitas é a mesma que ele, um mero espectador, assiste e penetra todos os dias. Sem nenhuma esperança. Sem nenhuma honra, fantasia, expectativa e ardor. Apenas a enfrenta todos os dias. Dia que não o vê.
Ele se esconde do dia, como todo animal noturno o faz. Porém não trabalha à noite como fera noturna. Dorme em seu período de atividade, e se esconde - acordado - durante o seu período de descanso.
Que estranho animal. Que inação. Que areia movediça.
Ah, se eu fosse comum como uma galinha, tão comum, inócua e corriqueira. Tão comum como um ser humano, porém sem qualquer preocupação que não fosse o tic-tac da procura do seu milho, tic-tac que a tornou tão viciosa que o faz mesmo quando está de papo cheio.
Transfigurada no seu parente em madeira que se mexe para marcar cada hora que passa.
Falando em papo e devaneio, lembrei-me de que posso ser uma galinha apenas no instintivo e contínuo movimento do pescoço.
Foi a única lição dos tempos que a natureza me deu.
A lua não, ah lua companheira, perfumada, feminina como uma camareira de hotel, dela me vem um claro; ela não quer compactuar com a natureza, não faz parte dela, apenas observa-a, serena, em paz, tranqüilizadora, inspiradora de tremendas paixões inúteis e impossíveis; até que seja brutalmente afastada.
Creio que de lobisomem, me tornei lentamente um vampiro.
Aquele que tem a fera dentro de si, armazenada e canta feito para a desventrada penumbra da noite.
Quem sabe tudo isso seja apenas um roteiro de leitura? Um roteiro de quanto tudo sabemos sobre o nada.

22 queries. 0.402 seconds.
Powered by Wordpress
theme by evil.bert
modificado por DaniCast