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scriptu em Existo: talvez. by Djabal Wednesday February 28, 2007

                       

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“O escritor é aquele solitário. Eu não sei qual é meu leitor e não me submeto à posição de procurá-lo.” Autran Dourado.

Pelo que tenho observado a literatura é uma espécie de loucura. Assim como a leitura, uma loucura mansa.

Ela é que vai tomando conta do escritor de uma maneira, a princípio sub-reptícia, que vai num crescendo até uma dominação completa, absoluta e absurda. Talvez exista um escritor no fim do arco íris?

O escritor é uma pessoa que tem noção de que procura o impossível, mira o infinito por muitas e muitas horas e por conta disso vive num êxtase completo.

A indagação cuja resposta está oculta sob o  véu de Maya é tão avassaladora que nada mais tem importância, a não ser a resposta. Resta saber quanto tempo levará para encontrá-la. Mesmo sabendo que ela será superada por outra mais adiante. Mesmo sabendo que não existe uma única resposta.

Se observarmos a vida dos grandes tiraremos algumas conclusões que servirão para nos dar algum guia nessa noite escura.

F.Kafka trabalhava numa companhia seguradora e cuidava dos acidentes do trabalho, ou algo similar. Vivia num ambiente inóspito e encontrou as suas respostas graças ao aconchego de seu amigo, sua irmã, e sua noiva de longos anos. Todos eles cuidavam de Kafka; e cuidar significa dar conforto, incentivo e deixar o homem em paz para escrever.

James Joyce era professor de línguas em Trieste, achou no ensino da língua uma maneira de sobreviver. Mas a verdade é que a literatura tomou conta dele, encontrou alguém (sua esposa) que lhe deu conforto espiritual -  mas não muito, na justa medida -,  e incentivo para escrever e foi disso que ele viveu.

Marcel Proust, filho de um grande médico sanitarista, jamais teve problemas com a vida material, viveu sob o internato da literatura e sob as ordens de uma governanta que não sabia bem o que ele fazia, mas sabendo do prazer que ele encontrava nisso, ajudou-o como ninguém. Teve um grande suporte do seu motorista, e conviveu com muitos, mas poucos amigos. Queria a distância para poder encontrar a sua resposta. A proximidade não de conjugava bem com isso.

Machado de Assis, com a história que todos conhecemos encontrou em sua esposa a fartura de sentimentos que precisava para escrever. O apoio e o incentivo que cuidou dele durante toda uma vida. Adquiriu uma estabilidade emocional que permitiu que conseguisse mostrar as grandes verdades que o cercavam e que nós não teríamos condições de ver. Por isso é grande, até hoje. Não morreu e, segundo as últimas notícias, não morrerá tão cedo.

Não ficarei apontando outros mais, apenas finalizo com Thomas Mann, que foi citado como exceção. Eu ousaria dizer que é a regra, não a exceção.

Escrevo isso porque é em sua obra que o escritor diz a verdade, em qualquer outra situação ele finge. (Fernando Pessoa). E no seu “Fausto” ele mostra o que o escritor está disposto a fazer para encontrar suas respostas, e mais, do quanto ele precisa desse conforto espiritual para criar. O personagem (escritor de sucesso, expoente mesmo.) tem duas pessoas que cuidam dele em tempo integral. São admiradoras da sua obra que se privam de seus interesses para cuidar daquele ser.

Tentei acrescentar um outro ângulo para ser observada a questão. Mas a grande verdade é que a literatura precisa de pessoas que a sirvam. Para conseguirmos alguma coisa dela, para encontrar a nossa resposta,  temos que nos dedicar integralmente, e para conseguirmos isso, temos que ter um ambiente criativo, que é dado por aqueles que convivem com ele. Portanto quase poderíamos dizer que um grande escritor é uma fatalidade. Ah e a matéria? Ah a matéria… não existe.

 

 

 

A linguagem é como seda furta-cor

scriptu em Penso? by Djabal Wednesday February 28, 2007

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A linguagem é como seda furta-cor: tudo depende do ângulo em que é olhada.” John Fowles.

 

Será que podemos explicar as diversas sensações que um escritor nos causa por esse motivo?

Creio que é uma das melhores explicações. A escrita é uma das formas de comunicação do ser humano, talvez uma das menos exatas, pelo paradoxo de ser aparentemente explícita e deixar de lado uma amplitude infinita, ao circunscrever. Cada vez que escolhemos palavras, frases deixamos de lados outras incalculáveis possibilidades iguais ou melhores de explicar aquele sentimento, situação, caso.

Nós somos complexos, temos milhares de explicações para tudo, não saberemos jamais qual é a certa. Avançamos rapidamente, principalmente hoje, para conhecermos mais e mais. Tenho a impressão de que não sabemos exatamente o que fazer com esse conhecimento. A dor e a miséria continuam a existir, e existirão sempre.  Confesso que dia, após dia, tenho mais convicção de tudo isso provém do nosso espírito. “Não há outro mundo além do espiritual; aquilo a que chamamos mundo sensível é o Mal no mundo espiritual, e aquilo a que chamamos Mal não passa da necessidade de um instante da nossa eterna evolução.” (K).

Assim sermos pessimistas ou otimistas não servirá de nada. A natureza parece que não dá muita bola pra gente.

Não divagarei mais. Todos devíamos divagar, divagar…. bem devagarzinho. Já cantou o Martinho, aquele lá da Vila.

Nautilus

scriptu em Penso? by Djabal Tuesday February 27, 2007

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Estamos acostumados a olhar para um Nautilus de uma determinada maneira. A imagem que ele forma em nossa mente é clássica. Elegante. Uma espécie de miniatura do mundo. Com suas linhas que tanto podem nos lembrar do eterno retorno; da eterna espiral ascendente do nosso conhecimento;do mistério indevassável da criação; ou ainda nos lembrar da via láctea. Em síntese, todas as lembranças são encantadoras. Sonhadoras.  Servem para aqueles que gostam de ouvir o barulho marinho mesmo estando nos lugares mais rústicos, insalubres e cosmopolitas, lembrando dos seus antepassados mais remotos.

O que dizer de alguém que além daquelas imagens nos diz que a arte é um pouco mais que isso ? A arte que desbrava novas fronteiras, que abre novas perspectivas e que acima de tudo nos tira do conforto habitual mostrando que sempre existirá uma nova forma de ver e de pensar. A vida não dá trégua. Mesmo a vida  representada numa foto. Nada poderia existir de mais realista que uma foto.

Depende. Depende dos olhos de quem vê. Uma imagem como essa é um tributo à inteligência e a beleza. O seu autor? Brett Weston. Genial.

A Cidade

scriptu em Escrito pelas estrelas by Djabal Monday February 26, 2007

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 Disseste “Irei à outra terra, irei a outro mar.

Uma outra cidade há de achar-se melhor que esta.

Cada esforço meu é uma condenação fatal;

e está meu coração - como morto - enterrado.

Meu espírito até quando ficará neste marasmo?

Para onde volte meu olhar, para qualquer lugar que atente

ruínas negras de minha vida vejo aqui,

onde tantos anos passei, e a destruí e arruinei.”

 

Novos lugares não encontrarás, não encontrarás outros mares.

A cidade te seguirá. Às mesmas ruas voltarás.

E nos mesmos bairros envelhecerás;

e nestas mesmas casas encanecerás.

Sempre a esta cidade chegarás. Quanto a outros lugares - não

[tenha esperança -

não há navio para ti, não há caminho.

Assim como destruíste tua vida aqui

neste pequeno recanto, em toda a terra arruinaste-a.

K. Kaváfis por Ísis Borges da Fonseca

You said, “I will go to another land, I will go to another sea.
Another city will be found, better than this.
Every effort of mine is condemned by fate;
and my heart is — like a corpse — buried.
How long in this wasteland will my mind remain.
Wherever I turn my eyes, wherever I may look
I see the black ruins of my life here,
where I spent so many years, and ruined and wasted.”

New lands you will not find, you will not find other seas.
The city will follow you. You will roam the same
streets. And you will age in the same neighborhoods;
in these same houses you will grow gray.
Always you will arrive in this city. To another land — do not hope –
there is no ship for you, there is no road.
As you have ruined your life here
in this little corner, you have destroyed it in the whole world.

Constantine P. Cavafy (1910)

O espelho que não podia dormir

scriptu em Escrito pelas estrelas by Djabal Monday February 26, 2007

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“Havia uma vez um espelho de mão que quando ficava sozinho e ninguém se via nele se sentia péssimo, como se não existisse, e talvez tivesse razão; porém os outros espelhos zombavam dele, e quando à noite os guardavam na mesma gaveta da penteadeira, dormiam profundamente, satisfeitos, indiferentes à preocupação do neurótico.

Augusto Monterroso, in A ovelha negra, por Millôr Fernandes

scriptu em Escrito pelas estrelas by Djabal Friday February 23, 2007

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“I should like to be alone

why not be alone together?”

Marianne Moore

Sereia

scriptu em Existo: talvez. by Djabal Friday February 23, 2007

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Já havia visto tudo nesse continente, sentia uma inesgotável vontade de explorar um mar, esse Atlântico que pulsava nele sem nenhum aviso até então. Coisas intrigantes. Deixou o Tempo guardado numa valise sem uso.Voltou ao ancestral Norte, passou por estreitos caminhos, parou numa costa de um país chamado Nortúmbria, entrou por ali raptou uma Sabina e continuou a viagem até encontrar o silêncio do Báltico. Esperou um dia. Esperou. Perseverou. Ali se deitou com sua companheira de viagem – não trocavam palavras, apenas gestos e olhares - e sentiu que deveria se expor ao dia. Seus gestos foram seguidos e ambos mostraram seu corpo, a pele de permeio que os separava da Pedra Terra e do Sol. Sabiam -  conectavam-se - que haviam visto essa imagem antes e ali pulsavam no mesmo ritmo e descobriram que já se conheciam antes, vieram da Escandinávia muito atrás. Ouviram um canto. Não se preocuparam em se amarrar. Não havia caminho a percorrer. Todos eram inúteis. E conheceram uma parte do labirinto de uma breve vida e se esqueceram de tudo, sendo apenas eles, uma unidade que desconhecia o ser múltiplo, apenas o Único que ser perdeu nesse caminho. Paganus.

scriptu em Escrito pelas estrelas by Djabal Friday February 23, 2007

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“Assim sou. Quando quero pensar, vejo. Quando quero descer na minha alma, fico de repende parado, esquecido, no começo do espiral da escada profunda, vendo pela janela do andar alto o sol que molha de despedida fulva o aglomerado difuso dos telhados.” Bernardo Soares

Manhã de Carnaval

scriptu em Acaso Sinto? by Djabal Thursday February 22, 2007

O Macaco que quis ser escritor satírico

scriptu em Escrito pelas estrelas by Djabal Thursday February 22, 2007

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Na selva vivia uma vez um Macaco que quis ser escritor satírico.

Estudou muito, mas logo se deu conta de que para ser escritor satírico, lhe faltava conhecer as pessoas e se aplicou em visitar todo mundo e ir a todos os coquetéis e observá-las com o rabo do olho enquanto estavam distraídas com o copo na mão.

Como era verdadeiramente muito gracioso e as suas piruetas ágeis divertiam os outros animais, era bem recebido em toda parte e aperfeiçoou a arte de ser ainda mais bem recebido.

Não havia quem não se encantasse com suas conversa, e quando chegava era recebido com alegria tanto pelas Macacas como pelos esposos das Macacas e pelos outros habitantes da Selva, diante dos quais, por mais contrários que fosse a ele em política internacional, nacional ou municipal, se mostrava invariavelmente compreensivo; sempre, claro, com o intuito de investigar a fundo a natureza humana e poder retratá-la em suas sátiras.

E assim chegou o momento em que entre os animais ele era o mais profundo conhecedor da natureza humana, da qual não lhe escapava nada.

Então, um dia disse vou escrever contra os ladrões e se fixou na Gralha, e começou a escrever com entusiasmo e gozava e ria e se encarapitava de prazer nas árvores pelas coisas que lhe ocorriam a respeito da Gralha; porém e de repente refletiu que entre os animais de sociedade que o recebiam havia muitas Gralhas e especialmente uma, e que iam se ver retratadas na sua sátira por mais delicada que a escrevesse, e desistiu de fazê-lo.

Depois quis escrever sobre os oportunistas, e pôs o olho na Serpente, a qual por diferentes meios – auxiliares na verdade de sua arte adulatória – conseguia sempre conservar, ou substituir, por melhores, os cargos que ocupava; mas várias Serpentes amigas suas, e especialmente uma, se sentiriam aludidas, e  desistiu de fazê-lo.

Depois resolver satirizar os trabalhadores compulsivos e se deteve na Abelha, que trabalhava estupidamente sem saber para que nem para quem; porém com medo de que suas amigas dessa espécie, e especialmente uma se ofendessem terminou comparando-a favoravelmente com a Cigarra, que egoísta não fazia mais do que cantar bancando a poeta, e desistiu de fazê-lo.

Depois lhe ocorreu escrever contra a promiscuidade sexual e desenvolveu sua sátira contra as Galinhas adúlteras que andavam o dia inteiro inquietas procurando Frangotes; porém tantas dessas o tinham recebido que teve mede de ofendê-las, e desistiu de fazê-lo.

Finalmente elaborou uma lista completa das debilidades e defeitos humanos e não encontrou contra quem dirigir suas baterias, pois tudo estava nos amigos que sentava à sua mesa e nele próprio.

Nesse momento renunciou a ser escritor satírico e começou a se inclinar pela Mística e pelo Amor e coisas assim; porém a partir daí, e já se sabe como são as pessoas, todos disseram que ele tinha ficado maluco e já não o recebiam tão bem nem como tanto prazer.

Augusto Monterroso, in A Ovelha Negra e outras fábulas, por Millôr Fernandes.

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