Milhares de flocos de neve.

scriptu em Acaso Sinto? by Djabal Wednesday February 21, 2007

new-lens-jac-howard.jpg

 

Esse que não se cansa de tentar. Esse que não se cansa de esconder, não por vergonha, mas por respeito ao sentimento do outro. Esse que esgrima, como se fosse um mosqueteiro do século vinte um, que deveria ter nascido no século dezenove, para ser personagem de um romance do século dezessete. Nasceu mais para ‘Artur’ num mundo onde se pensa somente em ‘Ronaldo’. Que descobriu qual o calcanhar de Aquiles do mamute de cristal, apenas para ver o alude se espatifando em milhares de flocos de neve. Esse é o da foto. Esse é o North do Louis Begley, que faz uma descrição muito melhor em Naufrágio.

scriptu em Acaso Sinto? by Djabal Wednesday February 21, 2007

356533469_ef8fe6554a_t.jpg

Foram colocados diante desta alternativa: tornarem-se reis ou mensageiros de reis. À maneira das crianças, todos quiseram ser mensageiros. É por isso que os mensageiros são legião, percorrendo o mundo, e como não há reis gritam-se uns aos outros as mensagens tornadas insensatas. De boa vontade poriam termo à sua miserável vida; mas não o ousam, em virtude do juramento que prestaram. Franz Kafka

scriptu em Acaso Sinto? by Djabal Friday February 16, 2007

zoo.jpg

Temos associado sempre à imagem um conceito. A majestade de um belo animal como esse é tão flagrante que não nos chama mais atenção. Porém a sua sublimidade está diminuida pelo enfado. Mesmo a força de um leão encontra seu fim após um longo período de combate. Aquele rugido que assusta a tudo e a todos, ficou humilhado pela potência de um Zoo. E naquele ambiente restou a inferioridade causada pela força do meio.

Ele é um leitor de e.e.cummings, querem ver ?

“Em todas as partes a  sociedade conspira contra a maturidade de cada um de seus membros. [...] A doutrina desprezível das vozes usurpa  o lugar da doutrina do espírito”.

Tina

scriptu em Existo: talvez. by Djabal Thursday February 15, 2007

                     

ethereal-dancer-pensiero.jpg

Cidade pequena. Casou por amor contra tudo e contra todos. Foi muito feliz por pouco tempo. Marido estudioso cuidava dos filhos enquanto ela ia ao cinema, sua diversão predileta. Presa da viuvez aos trinta anos. Quatro filhos. Miúdos. Uma quantidade insuportável de problemas de uma hora para outra. Escolheu ser pai. Essa foi sua carreira. Esqueceu de si própria a fim de conseguir criar as crias. Organizou sua vida de maneira formidável; todos ao trabalho exceto o menor. Sem juízo e idade para isso. Construiu ao longo de sua vida alguma coisa que lhe deu renda suficiente para viver sem nenhum luxo ou precisão. Do filho mais velho ao mais novo se notava uma espécie de escala decrescente. Não apenas cronológica. Uma escala sutil. Parece que toda energia se concentrou no mais velho. Tenaz. Duro. Econômico. No caçula – Aristides - sua força se diluiu. Resultou num  romântico. Sonhador. Mão-aberta. Decidiu não ser injusta com os demais. Controlou o quanto pode para este fosse como aquele. Mas o tempo passou muito tempo havia passado. Concluiu que deveria fazer um acordo com o destino. Não poderia ser injusta com os outros. Isso lhe era absolutamente impossível. Lutou o quanto pode contra o temperamento do Tido; esse era seu apelido. Essa luta, cada dia que passava, era mais e mais aparente. Salvava as aparências. Ele chegava de madrugada e lá estava ela sentada aguardando a última cria para fechar a casa e dormir. Ele levemente tocado e com algumas folhas de hortelã na boca, colhidas de uma horta salvadora; ela hostil com o comportamento lançava aqueles olhares furiosos sem precisar dizer uma palavra. Uma cena.A chegada do primeiro neto. Foi uma libertação. Bem, já não existia mais tanta energia em seu coração mesmo. E com tanta contenção, tanto aperto, toda aquela cachoeira de carinho represada  se desaguou. Ele foi o libertador involuntário. Ficavam juntos vendo pelas diversas janelas da vida tudo que era possível, comungavam de todos os momentos até tarde da noite. Eram dois companheiros. Nunca houve diferença visível de idade. Nem ele, nem ela perceberam nada disso.Mas o neto fumava. Sim, o neto apesar de não ter saído dos cueiros, fumava. Para seus padrões de comportamento que exigiam pelo menos hortelã como máscara; como ficaria isso ? O neto espontaneamente escolheu fumar perto dela. Atrás dela. Para não afrontar. Escolheu a estratégia do Tido. Imaginou que ela ralharia.Noite de terça feira gorda. Os dois estavam vendo um desfile de escola de samba. A diversão de ambos era ver a diversão alheia. Não se permitia a diversão própria nessa família. Era-lhe impossível. Talvez um sinal de fraqueza. Ele estava atrás, bem atrás, não queria descartar nem um nem outro. Passado um tempo, ela olha para trás. Com aquele mesmo olhar fulgurante, até incongruente com sua mirrada figura, voltou-se e, ao final olhou demoradamente e disse: - Vem pra cá. Senta aqui do meu lado e acende o meu cigarro também.

Humano, demasiadamente humano.

scriptu em Acaso Sinto? by Djabal Wednesday February 14, 2007

rose-vanity.jpg

É humano querer o que nos é preciso, e é humano desejar o que não nos é preciso, mas é para nós desejável. O que é doença é desejar com igual intensidade o que é preciso e o que é desejável, e sofrer por não ser perfeito como se se sofresse por não ter pão. O mal romântico é este: é querer a lua como se houvesse maneira de a obter.

“Não se pode comer um bolo sem o perder.”

Bernardo Soares

It’s human to want we need, and it’s human to desire what we don’t need but find desirable. Sickness occurs when we desire what we need and what’s desirable with equal intensity, suffering our lack of perfection as if we were suffering for lack of bread. The Romantic malady is to want the moon as if it could actually be obtained.“You can’t have your cake and eat it too.”Bernardo Soares by Richard Zenith

Peanha

scriptu em Existo: talvez. by Djabal Tuesday February 13, 2007

         no-portrait-3-js.jpg

 ”Vidi un vittoroso e sommo duce,

pur com’un di color che’n Campdoglio

trionfal carro gran gloria conduce.

Petrarca

e vi um vitorioso imperador

como um dos que levavam a grã glória

triunfando ao Capitólio vencedor.

Petrarca por Camões.”

Da posição em que me encontrava conseguia ver. Conseguia pensar. Conseguia ser uma cópia fiel do meu criador. Além. Além disso, mais recriação da cópia por uma capacidade infinita de reflexão. Cada gesto foi percebido como uma teoria completa. Cada canto de pássaro entendindo como um quarteto de cordas. Cada viajante me trouxe conhecimentos incalculáveis. Para minha sorte de muitas culturas e épocas eles vieram. Cada mão e olhar fizeram a minha alegria sensual. Sexual. Integral. Conheci os homens. Pela reflexão tornei-me outra. Encontrei o ponto imóvel da eternidade. Restou um paradoxo. A conquista do infinito.  Fausta é o meu nome. Peanha é o meu ponto.

scriptu em Penso? by Djabal Monday February 12, 2007

linda-schani.jpg

E a minha comunicação com o olhar é total, integral, infinita. Sempre busco o infinito e o infinito está no olhar. Consigo me antecipar aos fatos, eles sempre foram prenunciados pelos olhares, e passei maior parte desta vida esperando que as coisas acontecessem , como se fosse uma prova da verdade, uma espécie de profecia autorealizável. Um teste de confirmação - feliz ou infelizmente - o olhar sempre esteve certo, a minha compreensão dele sempre foi comprovada na prática. Olhar um objeto, um espelho, uma tela, olhar algo que seja você em outra dimensão, cor ou aspecto, cuja natureza seja diferente é na melhor hipótese, um prazer sem compromisso. Vemo-nos, apenas isso.

O avesso de Felisberto Hernández e Bruno Schulz

scriptu em Acaso Sinto? by Djabal Friday February 9, 2007

avesso.jpg 

Existem em minha alma uma grande diversidade de vozes, cada uma delas, fala de uma determinada maneira, tem um tom, um som e um momento determinado. Não conheço todas.  Não conseguirei explicar qual delas os olhares despertam. Despertam uma voz extraordinária. Única. Exepcionalmente só. Um grito impulsionador de uma busca frenética da paz, que o olhar despertou da serenidade. Cada forma que utilizamos para nos comunicar é expressão de uma voz daquela alma; e a cada uma delas consigo entender, compreender, saber qual a finalidade, e ao entender me correspondo, encontro o equivalente dela em mim.  E o olhar ? Que totalidade fascinante e incrível que ele possui. Ele desnuda inteiramente o ser. Consigo captar o significado de tudo que passa pelo outro ser. A clareza que o olhar proporciona é tanta que ofusca. Dizer que o olhar desperta em mim uma voz diferente, isolada e própria é dizer pouco e explicar nada. O olhar exige uma correspondência total, algo como a soma de todas as artes, a busca individual do belo, e o resumo de tudo que se passou e passará pelo meio daqueles seres num único instante; momento do entrecruzar dos olhares.O significado transcende em muito qualquer tipo de palavra ou expressão. 

O isolamento que busco sempre, aberta ou veladamente, falando e brincando, é apenas a fuga constante daquele olhar reprovador projetado sobre mim. Aquele olhar de condenação, por alguma coisa que fiz, farei ou estou fazendo é tão pernicioso, que preciso fugir, deixar daquela simbiose que se torna parasitária e suga minha energia.

Penso que tanto Felisberto quando Bruno tiveram o talento necessário para fugir. Fugindo criaram uma conexão belíssima com seus seres inanimados.

E com essa fuga criaram algo que pode nos ajudar a entender melhor esse mundo. Mundo de regras inextrincáveis.

Fugiram para o alto. Um mais pessimista outro mais otimista. Mas muito alto subiram.

Sinais

scriptu em Escrito pelas estrelas by Djabal Friday February 9, 2007

sinais.jpg

 O perigo está espalhado por todos os lados, não apenas diante dele. O perigo é até mesmo maior às suas costas, onde ele não o poderá perceber de maneira suficientemente rápida. Por este motivo ele volve os olhos para todos os lados, e nem mesmo o ruído imperceptível pode deixar de ser notado, pois poderia ser sinal de alguma intenção inimiga e hostil. … Este é o selo do seu poder; seu poder somente é absoluto enquanto o direito de impor a morte seja indiscutível.

Elias Canetti

Compatíveis.

scriptu em Existo: talvez. by Djabal Thursday February 8, 2007

sea-greating-jac-howard.jpg

Bernardo e Fernanda. Conheceram-se por acaso. Estudiosos: um da civilização Suméria outra do idioma Hebraico. Compatíveis era a palavra - insalubre, inodora e incolor - mas a que mais próxima chegava do sentimento que os inundou, se derramando até aonde não se podia ver. A atração foi imediata. Completa de completitudes. Passaram meses e meses numa história de amor. Fundindo-se e refundindo-se. As fusões líquidas do amor eram as afluentes daquele rio de sentimento e tudo, além dos braços e pernas, se abria numa foz jamais imaginada ou vista. Vivendo numa extrema  felicidade, sentaram e conversaram, sobre o futuro, a vida e as suas possibilidades. Concluíram que jamais se veriam novamente.

down-there-i-jac.jpg

22 queries. 0.398 seconds.
Powered by Wordpress
theme by evil.bert
modificado por DaniCast