Sumiço

scriptu em Penso? by Djabal Thursday March 29, 2007

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 Caminhou por aquela avenida ajardinada com um grande canteiro central, onde poderia por alguns momentos pensar em sua vida, preocupava-se cada vez mais com as notícias dos jornais, achava-as pessimistas, descrentes, e resolveu não mais tomar conhecimento delas, isso o afundava cada vez mais, não servia para nada, absolutamente nada de produtivo.

Se assim era a realidade, pois bem que se danasse a realidade.Sempre trabalhou, jamais deixou de ganhar o seu sustento com o suor do seu rosto - apesar de suor do rosto hoje significar muito mais desequilíbrio ecológico do que qualquer outra coisa - era um homem às antigas até nisso, portanto por pior que estivesse a situação teria que trabalhar, em síntese, nada se modificaria muito para ele.

Aprendeu com  o tempo que deveria se mostrar sempre melhor do que realmente estivesse, como isso não era possível pela expressão do rosto, que sempre o denunciava,  tratou com o tempo de se mostrar melhor pelo traje, o traje sempre correto, sempre bem cortado, limpo asseado e de bom gosto. Pelo menos dentro do gosto médio.E com isso sempre foi tomado como um bem sucedido, um vencedor.

 Andava pela cidade para poder conhecer algum cheiro que não fosse de gás carbônico, para tomar algum ar, para encontrar suas saídas, se é que poderia existir alguma.

Foi seguido durante algum tempo por um carro preto ocupado por duas meninas, novas, lindas e curiosas por ver  um executivo andando no canteiro central ajardinado de uma avenida numa grande cidade.

 Finalmente, após algum tempo passaram por ele olhando longamente, querendo estabelecer alguma conversa, querendo matar aquela curiosidade mórbida e inútil que toma conta de quase todo citadino. Sem sucesso, viraram a primeira à direita, sem ter tempo para se frustrar, logo em seguida encontraram outro objetivo e outro alvo, célere como toda cidade é célere.

Logo após, um cidadão desceu de outro carro, também novo, e se aproximou do passeador encostou algo pontiagudo em suas costelas e exigiu que o seguisse, sem nenhum tipo de brincadeira ou falseta, seria muito pior para ele.Obedeceu prontamente as instruções, afinal de contas já estava acostumado a isso, não fazia muita diferença se o argumento fosse a força ou o dinheiro.Recebeu uma pancada na cabeça que o deixou totalmente grogue, e sentiu algo encobrindo a sua cabeça.

Em outro canto da mesma cidade havia acabado de acordar seu melhor amigo.  Trabalhavam juntos há muito tempo haviam aprendido a se conhecer, dividiam tudo, preocupações alegrias, e por isso mesmo conviviam intensamente.Convívio que se restringia ao dia.Durante a noite tinham diversões diferentes. Talvez se pudesse dizer que justamente por ter se levantado no meio da manhã era um amante da noite.E essa era a única diferença entre ambos. Bem, falando em diferenças intrínsecas.Morava no melhor bairro da cidade. Vivia uma vida confortável e sem privações de qualquer espécie, exceto amor.

(Posso interferir diretamente na história, deixando de ser um ausente narrador, para fazer um comentário? Lembrei-me agora do João Antonio e posso dizer para esclarecer o eventual leitor: eram típicos representantes da classe mérdea.)

Saindo e em meio de suas ligações recebeu uma dizendo numa língua estranha quase um dialeto, que seria necessário que ele arranjasse uma grande soma em dinheiro, pois seu amigo estava em seu poder, e que se ele falasse com alguém ou colocasse a polícia na parada, os problemas só aumentariam.

-        Que ficasse de bico calado; malandro num berra; boca fechada num entra mosca.-        ?! 

Havia entrado numa grande avenida de grande tráfego e que beirava um rio fétido e pútrido que por sua vez delimitava todos os seus trajetos pela cidade. Olhou para aquele telefone, e refletiu o quanto de problemas ele lhe trazia todos os dias, todos os momentos, uma intensa sensação de tristeza, uma pressão insuportável,  o invadiu, e o tomou como refém de mais um seqüestro.Pegou do aparelho e o arremessou ao rio. 

Vinte e seis de março

scriptu em Escrito pelas estrelas by Djabal Thursday March 29, 2007

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Sem mesmo levar em conta a situação da minha família, não poderia viver apenas da literatura, em virtude da lenta progressão das minhas obras e do meu carácter particular; além disso a minha saúde e o meu carácter impedem-me de me abandonar a uma vida que seria incerta, mesmo no caso mais favorável. Eis por que me tornei funcionário de um instituto de seguros sociais. Ora estas duas profissões não poderiam conciliar-se e permitir uma idêntica felicidade. A mais pequena felicidade numa torna-se a maior infelicidade na outra.

Franz Kafka in Antogia de Páginas Íntimas, através de Alfredo Margarido

Caracóis

scriptu em Escrito pelas estrelas by Djabal Tuesday March 27, 2007

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Ao contrário das fagulhas, que são os hóspedes das cinzas quentes, os caracóis gostam da terra úmida. Go on, avançam colados a ela com todo o seu corpo. Carregam-na, comem-na, excrementam-na. Ela os atravessa. Eles a atravessam. É uma interpenetração do melhor bom gosto, pois por assim dizer de uma mesma tonalidade matizada - com um elemento passivo, um elemento ativo, onde o passivo banha a um tempo só e nutre o ativo - que se desloca enquanto come.

Nada é tão belo como esse modo de avançar tão lento e tão seguro e tão discreto, à custa de que esforços esse deslizar perfeito com que honram a terra! Tal qual um longo navio, de esteira prateada.Esse modo de proceder é majestoso, sobretudo se se leva em conta uma vez mais essa vulnerabilidade, esses globos de olhos tão sensíveis.

Mas é aqui que toco num dos pontos principais de sua lição, que, aliás, não lhes é exclusiva, mas que possuem em comum com todos os seres providos de conchas: essa concha, parte de seu ser é ao mesmo tempo obra de arte, monumento. ela perdura mais tempo que eles.

E é este o exemplo que nos dão. Santos, fazem obra de arte de sua vida, - obra de arte de seu aperfeiçoamento. Sua própria secreção se produz de modo a se enformar. Nada de exterior a eles, a sua necessidade, a sua precisão, é obra sua. Nada de desproporcional - por outro lado - a seu ser físico. Nada que não lhe seja necessário, obrigatório.

Assim traçam aos homens seu dever. Os grandes pensamentos vêm do coração. Aperfeiçoa-te moralmente e farás belos versos.

A moral e a retórica se encontram na ambição e no desejodo sábio.

Mas santos em quê: obedecendo precisamente à sua natureza. Conhece-te, pois, primeiro a ti mesmo. E aceita-te tal qual és. Em consonância com teus vícios. Em proporção com tua medida.

Mas qual é a noção própria do homem: a palavra e a moral. O humanismo.

Francis Ponge em O Partido das Coisas, através de Adalberto Müller Jr., Carlos Loria, Ignacio Antonio Neis, Júlio Castañon Guimarães, Michel Peterson.

G.K. Chesterton

scriptu em Escrito pelas estrelas by Djabal Monday March 26, 2007

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A força moderada se manifesta pela violência, enquanto a força suprema está na leveza.

Equilíbrio

scriptu em Penso? by Djabal Monday March 26, 2007

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Alguém disse que o bom senso é a qualidade mais bem distribuída entre os humanos; sim, porque todos têm a crença de o possuír na quantidade exata para viver, tomar decisões, criticar e julgar as opiniões alheias, e tudo o mais que é indispensável para viver.

Tomando o mesmo critério para avaliação – nossa própria opinião – será que existe uma distribuição equânime do equilíbrio?

Creio que a resposta mais honesta é não. Um belo, redondo e conclusivo não.  Ao nosso redor tudo se coloca numa ordem aparente. Que ao observarmos com cuidado veremos que está precariamente equilibrada, com aqueles pequenos desvios que a tornam uma miniatura da Torre de Pisa, ou até uma de tamanho natural, depende de sua situação nesse momento.

O mais leve e sutil movimento, mesmo que seja de um pincel de pêlos  de marta,  com uma força dosada levará tudo ao desmanche. Esse movimento é o que chamamos de equilíbrio. Tudo que encontramos pela frente tem um equilíbrio precário, todos nós temos um equilíbrio precário, a beleza se encontrará no resultado harmônico e ritmado dos dois desequilíbrios, num momento sagrado.

Existe um ritmo e uma contradição entre o bom senso e o equilíbrio ?

Esse será o motivo de encontrarmos tanta beleza numa foto como essa ?

Metamorfoses

scriptu em Escrito pelas estrelas by Djabal Friday March 23, 2007

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O universal Factor também dissera:

“Descei, ó vales, estendei-vos, campos,

Surgi, montanhas, enramai-vos, selvas!”

Por Ovídio, através de Bocage 

Os poemas suspensos

scriptu em Escrito pelas estrelas by Djabal Friday March 23, 2007

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Mas tudo está deserto; as pessoas se foram; e o que tudo destruiu foi o que destruiu Lubad.

Deixa, então, a imensidão do que tu vês, já que não há retorno, e sobe na sela de uma camela forte e resistente como um asno!

 Ela é uma flecha com recheio de carne, e o jovem macho que a acompanha chia como um eixo de roldana.

Quando a claridade declinava, no dia de Jalil, era como se a minha sela estivesse sobre um farejador de homens, único

dentre os touros selvagens de Wajra, pernas pintadas, tripas famintas como um sabre excepcionalmente bem polido.

Ele se assustou com a voz de um caçador chamando os cães,e passou a noite obedecendo às patas, de pavor e frio.

Nábigha de Dhubiyan, in Os Poemas suspensos, através de  Alberto Mussa.

Muros

scriptu em Acaso Sinto? by Djabal Thursday March 22, 2007

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Por que construímos muros?

Construir muros é uma fixação ancestral.

 Os chineses construiram um número incontável de quilometros de muros uns dizem 3.000 quilômetros outros dizem dez mil. Muros que possuíam no topo um ‘passeio’ para dez homens ombro a ombro. Conversavam sobre o muro! Cercaram o seu país de forma descontínua e sistemática. Sangraram o país.

Berlim foi cercada por um muro, chamado da vergonha que durou até o final do século passado.

Israel construiu ou constrói um para separar alhos de bugalhos, primos e irmãos. Conselheiros e Aconselhados.

Entre Ceuta e Melilla a Espanha nos deu à mostra sua tradição indigna de Cervantes e fez o seu muro divisório.

Os Estados Unidos e sua tradição democrática também nos deram como presente o projeto ou a construção de muro entre a sua fronteira e a do México.

Finalmente o triste e trigueiro Brasil de tradição de bom humor e hospitalidade também prepara o terreno para a construção da nossa muralha digna da ancestral; separaremo-nos do Paraguai.

Talvez consigamos ver da Lua a linha que esses muros constroém em nosso imaginário. Quem sabe?

Matrix

scriptu em Escrito pelas estrelas by Djabal Thursday March 22, 2007

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“Certa vez, Chuang-Tsé sonhou que era uma borboleta feliz e despreocupada, que voava livremente e sem saber que era Chuang-Tsé. De repente, ele acordou e se deu conta de que era Chuang-Tsé. E então ficou a dúvida se a borboleta fora um sonho de Chuang-Tsé, ou se Chuang-Tsé fora um sonho da borboleta. No entanto, Chuang-Tsé e a borboleta eram definitivamente diferentes um do outro. A isso se dá a denominação de permutação do ser.”

in Ryszard Kapuscinski, Minhas Viagens com Heródoto

Os sonhos

scriptu em Escrito pelas estrelas by Djabal Tuesday March 20, 2007

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Talvez se descubra que aquilo a que chamamos Deus, e que tão patentemente está em outro plano que não a lógica e a realidade espacial e temporal, é um nosso modo de existência, uma sensação de nós em outra dimensão do ser. Isto não me parece impossível.Os sonhos também serão talvez ou ainda outra dimensão em que vivemos, ou um cruzamento de duas dimensões; como um corpo vive na altura, na largura e no comprimento, os nossos sonhos, quem sabe, viverão  no ideal, no eu e no espaço. No espaço pela sua representação visível; no ideal pela sua apresentação de outro gênero que a da matéria; no eu pela sua íntima dimensão de nossos. O próprio Eu, o de cada de nós, é talvez uma dimensão divina. Tudo isto é complexo e a seu tempo, sem dúvida será determinado. Os sonhadores actuais são talvez os grandes precursores da ciência final do futuro. Mas isso nada tem para o caso.

Livro do Dessassosego, por Bernardo Soares, através de Fernando Pessoa.

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