Recepção

scriptu em Existo: talvez. by Djabal Thursday March 1, 2007

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“I’m an old man now, and a lonesome man in

Kansas but not afraid to speak

my lonesomeness in a car, because not only my lonesomeness.It’s Ours, all over

America…” Allen Ginsberg. 

Sentados numa bela sala de jantar, decorada com esmero, numa discreta mistura de estilos e épocas. A cena favorecia um clima ameno, amoroso até.Conversavam sobre os diversos assuntos que são tépidos para um jantar.Pessoas bonitas, cuidadas, lavadas, penteadas. Formavam casais. Parecia uma ocasião solene. Estavam comemorando algo.Somente acompanhando a conversa não se conseguiria distinguir o quê. O objetivo era fazer uma música com as palavras, sussurradas quase, sem alterações, sem demonstrações excessivas de entusiasmo.Morno.Isso. Essa é a palavra que poderia descrever integralmente o clima.Pelo ambiente percebia-se quem recebia, qual era o casal dominante.Um homem alto, claro, com as sobrancelhas claras em contraste com o castanho dos cabelos. Poderia se dizer que era um belo exemplar, não fosse alguma coisa que o distinguisse dos demais. Talvez uma  melancolia exagerada.Sua companheira não ficava nada atrás. Alta, loira, olhos oceanicamente azuis. Profundos. Não diziam nada. Apenas observadores atentos da situação, preocupados com que nada faltasse. Afinal de contas, pareciam participar de um concurso. Uma etapa decisiva. Vestuário colado ao corpo demonstrava claramente a preocupação com ele, visto que não se poderia achar sequer algum ponto percentual de gordura.No total se contavam seis pessoas. Os dois casais remanescentes eram completamente diferentes e pareciam umas molduras daquele quadro. Faziam um papel secundário sem o perceber. Algo como parte da decoração.Um homem baixo, de testa excessivamente alta, com poucos cabelos e uma boca carnuda, um misto de sensual e repulsivo. Aparentava ter uma alta cultura, falava por citações, jamais dizia algo de seu. Tinha uma trava no cérebro que o ensinou a colher, jamais transformar. Sua acompanhante o olhava embevecida, terna, um olhar plácido, parado: bovino, se assim posso descrever.O último casal  formava um belo par. Cuidadoso com a aparência. Apenas quem olhasse atentamente para o homem percebia que suas unhas não estavam integralmente limpas. Já sua mulher, impecável não fosse aquele desleixo nas axilas.Parecia que falavam apenas por falar. Davam a perceber que seu dinheiro havia chegado correndo enquanto a educação vinha caminhando a passos muito langorosos.O intelectual do grupo rumou a conversa para Allen Ginberg e sua época: movimento beat. O olhar foi de interrogação. Geral.Ele pediu licença para recitar o poema que serviu de inspiração para Philip Glass compor música incidental. E assim o fez.Pairou no ar algo como uma descarga elétrica. Algo perpassou o ambiente.O casal descuidado perguntou se poderia haver uma tradução disponível, não haviam compreendido integralmente o que foi declamado. Os donos da casa entreolharam-se. Ele viu o olhar azul, frio, se tornando cinzento.Aproveitou a ocasião que estava preparada por muito tempo. Faltava-lhe a coragem, a beleza do trágico e o momento acertado. Levantou-se, foi até seu gabinete, voltou com um pequeno envelope, despejou-o no Bordeaux safra 99, tomando integralmente o conteúdo de um só gole.Vale a pena estragar o sabor do vinho ?- Claro que não. Misturei cicuta. 

O sábio e o oceano.

scriptu em Escrito pelas estrelas by Djabal Thursday March 1, 2007

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Um sábio que tinha o hábito de meditar sobre o significado das coisas espirituais foi até o oceano e lhe perguntou: “Por que vestes este manto azul da cor do luto? E por que pareces ferver sem fogo?”

O oceano respondeu ao homem de espírito atento: “Estou agitado por estar separado do meu amigo. Por causa da minha insuficiência não sou digno d’Ele, e visto azul como sinal do pesar que sinto. Em minha dor secou-se a orla de meus lábios, e é por causa do fogo de meu amor que experimento esta turbação parecida à ebulição. O amor faz minhas ondas enfurecerem-se; é o fogo que ninguém pode apagar. Meus lábios salgados têm sede da corrente límpida do Kauçar. Pudesse eu encontrar uma gota dessa água celestial e , à porta do Amigo, gozaria de vida eterna. Sem essa gota morreria de desejo com os milhares de outros que dia e noite perecem no Caminho”.

 

Farid ud-Din Attar, in A línguagem dos pássaros (Mantic Uttair), por  Álvaro de Souza Machado e Sérgio Rizek

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