Mefistófeles
“Só deixei no cais a multidão,a terra dos mortais,a confusão,
Navego sem farol, sem agonia…distante;
E vou nesta corrente,na maré, no escuro da menor consolação
Acordo a meio do mar que me arrepia,e foge….
A minha paixão é a loucura.
Ando…Numa viagem perdida,o navio anda à deriva,
Sozinho.
Não é grande o mal, bem pouco dura; e quando…
Afundar a minha vida,se calhar sou prometida…do Mundo.”
Pedro Ayres Magalhães
Todas as descrições que já fiz relataram o que me aconteceu.Sou uma pessoa diferente, muito diferente.Infelizmente, sou obrigado a dizer.“O melhor do mundo é não ser enganado.Já não há pessoas.Mas onde é que estão…”Escrevo para viver mais um pouco.Não creio que consiga desenvolver um sentimento como esse que esperam de mim. Algo romântico , puro, simples, encantador e inexistente.Parece que fui feito para a distância.A distância me dá segurança, paz, harmonia que não consigo encontrar em lugar algum. Não posso dizer o que se passa dentro de mim, não consigo mesmo, não seiNuma das cenas de Thomas Mann, creio que o Doutor Fausto, o protagonista dizia que em torno dele reinava a frieza.Sou tão diferente que não me reconheço em outras pessoas. As sensações que tenho e que perpassam os meus escritos são as coisas mais genuínas que poderiam provir de mim.Preciso, desesperadamente, escrever.Esse mundo dos sentimentos genuínos é o meu mundo.Genuínos por existirem ainda que apenas naquele minúsculo momento que se leva do pensamento ao dedo e à letra.São concretos como uma poesia moderna, na sua pior acepção, apenas deturpadora do significado da palavra, pelo seu significante.A vida e o cotidiano é: circo e tigre e espelho em demasiada quantia para uma pessoa como eu.Compreende?Não espere nada de mim além disso que compartilhamos.Tenho um medo incrível de estar semeando esperanças.Cada um de nós olha o que quer olhar.“ Assim é se lhe parece.”Procure ver um balão em que resta um pouco de gás. Ele luta desesperadamente para subir.Nem sabe porque sobe.Talvez por ser da sua natureza, talvez pelo resto de gás de que ele é depositário.Ele é reflexo, ele é condicionado, ele é autômato.Segue e seguirá seguindo.Dentro de suas voltas com o circo, imagine aquela ciranda com cavalinhos de cabelo de palha desbotado que gira e gira, sem nunca parar, sem saber o porquê, até que alguém se lembre de interromper a energia, por ser sem sentido o carrossel, e somente naquele momento perceberá que nele havia um ser, anônimo que se divertia com aquela mesmice , fazendo um esforço enorme para se divertir com as voltas que ele dava. Talvez aquele que apagou somente nesse momento se dê conta do que fez.Mas não se iluda - meu caro, minha cara - não se dará conta nunca.Poderia ainda para ser mais didático contar a história da terceira margem.Contar a história do leito seco, ambas do mesmo rio.Aquele leito que nos remete às lembranças longínquas da época da água e sentimentos fartos.Conhece a história daquele rojão de São João que não explodiu?Pois bem.É ele.Cada vez que você se oprime sinto-me o opressor. Sou o sujeito que vive à espera. Talvez seja a minha sensibilidade que acusa a minha transgressão.Talvez seja melhor…Sei lá.O melhor é ficar quietinho.Incentivar aos seus sentimentos mas para que se exteriorizem nos escritos encontrando ali a solução. A catarse. A maneira mais eficaz de se posicionar no mundo.Um mundo que é feito de nascer, crescer e morrer.Ontem vi uma pintura de Tiziano do papa Paulo III, e descobri que ele era meu antepassado.Talvez por ser devasso, talvez por ter o mesmo nariz partido, talvez por ter sido autoritário, mas certamente por ter sido mais que tudo incompreendido.E também não conseguiria jamais, aquele filho da puta colocar para fora tudo o que tinha dentro de si. A não ser pela forma da religião e da sacanagem.Não sei qual foi a que prevaleceu.Sei apenas que escreveu e muito bem. Conseguiu fazer-me melhor.Cada um de nós carrega os seus pesos.O palhaço do circo sempre ri quando quer exatamente o contrário.Ainda que o choro tenha sido causado por um simples dedo no rabo..Mefisto[feles].(Com acento ou sem acento.)
