Onze

scriptu em Escrito pelas estrelas by Djabal Monday March 5, 2007

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Um cavalheiro vestido de cinza e que quando jovem estudou alemão - algo ainda lembre; sente-se orgulhoso em poder decifrar as manchetes dos jornais - está ao lado de um telefone cinza; na realidade, entre os dois não há nenhum parentesco. Alguém lhe disse para telefonar para um certo número, onde lhe será comunicada uma notícia importante, que lhe diz intimamente respeito. A voz que lhe transmitiu aquele comunicado era sem dúvida feminina ainda que um pouco rouca, não desatenciosa, mas talvez ligeiramente constrangida por uma tarefa que não considerava agradável. No entanto para ele está bem claro que nada nas palavras daquela senhora, aludia explicitamente a uma notícia triste, dramática e funesta, ou simplesmente deprimente. Ele nem mesmo tem certeza de que pessoa em questão estivesse a par da notícia, ao contrário, tudo leva-o a crer que a mulher, quem quer que ela fosse, ignorasse totalmente o conteúdo da comunicação. Além disso, se a mulher, ou alguém mais por perto dela, estivesse a par do fato, não faria sentido tê-lo endereçado a outro número. Discou o número, até o presente momento, quatro vezes, em dois tempos separados por um quarto de hora. Ninguém atendeu. Agora começou o segundo quarto de hora, e ele se pergunta, sem apreensão, que comunicação lhe estará reservada. Há um certo tempo não recebe correspondência, a não ser folhetos de propaganda de gente que lhe oferece lavadoras automáticas, ou livrinhos destinados a explicar-lhe as vantagens psicofísicas da fé no verdadeiro Deus. Ele não é hostil ao verdadeiro Deus, mas desconfia dele. Em geral desconfia de tudo o que é verdadeiro, e procurou fornecer de si uma imagem que seja difícil dizer-se verdadeira ou falsa. Não tem familiares, ou amigos de quem poderia lamentar a perda. Na realidade, pensa, enquanto o quarto de hora está se esgotando, nenhuma notícia lhe diz respeito, a não ser que diga respeito a ele próprio e a ninguém mais. Se a notícia diz respeito a ele e a outro homem, uma outra mulher, um animal,  uma coisa, pretende esclarecer que já há um engano, a notícia não lhe diz respeito. Aliás, é totalmente improvável que alguém, protegido por ou armado de um telefone possa lhe comunicar algo de tão pertinente e exclusivo. No entanto  ele é um homem disciplinado, obedecerá à voz feminina, e fará girar – inutilmente, supõe - o disco do telefone vestido como ele.

Giogio Manganelli, in Centuria, por Roberta Barni

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