A folha

Deitado numa clareira, podia observar aquela árvore, de larga e protetora sombra, não tinha nada de excepcional, nem muito grande, nem muito pequena, demonstrava ser bastante antiga e bastante sólida, cumpria seu papel.
Do seu conjunto se destacou no galho mais alto uma folha isolada das demais. Aparentemente comandava todas as outras, e na direção em que se inclinava, inclinava-se todo o conjunto. Todos os dias cumpria o seu percurso do trabalho para casa, e sempre deitava para olhar, descansar, e não sei por que, sempre me chamava a atenção. As formigas, insetos, e pequenos animais, sempre percorriam seus galhos, passando por um roteiro imaginário, mas tudo sempre havia que passar por aquela folha.
Um pássaro - daqueles de catálogo - fazia parte do conjunto e passava todo o seu dia por ali, ora num galho, ora noutro, sempre se movimentando, sua ambientação era tão grande, que sua cor - que nada continha de verde - se metamorfoseava. Após certo tempo, passou a se dedicar àquele galho, àquela folha, e seu tempo se concentrava todo ali. Passou a cantar somente ali, além de não haver nenhum obstáculo acústico, naquela posição a música destacava; mais de tudo o intérprete. Tirava o brilho máximo, as folhas, galhos, liquens, brotos, insetos, parasitas, estarreciam sob sua voz, ou melhor, agiam conforme seu ritmo. Até a folha solitária agia dessa forma, se subordinando. Esqueceu do seu caráter fixo, enquanto é o da ave móvel.
Dentro daquela azáfama toda, cada vez mais chamava a atenção, a relação entre a folha e o pássaro. Hierática, solene uma e ágil, nervoso, agitado o outro. Colocando numa brutal evidência aqueles movimentos binários, próprio de quem vai à direita ou à esquerda, acima ou abaixo, numa incrível velocidade, num átimo de segundo decide e faz. Os galhos se transformam em trapézio, depois numa gaiola, ele não sai - quase - mais dali.
Ora, pensei, o pássaro vai se transformar numa folha. O pássaro desceu repentinamente para examinar uma folha abaixo, num galho em que fazia conjunto com outro e houve uma repentina alteração . Naquele brusco movimento, a sua asa ou corpo, não viu bem, bateu na antiga folha, nada de muito grave, imaginou. Mas natureza não se movimenta bruscamente, aos saltos, sempre age imperceptivelmente, alterando o panorama quadro a quadro, somente após algum tempo notamos grandes modificações.
A folha, deixava vazar sua seiva pelo caule danificado, e seu vigor já não era o mesmo, a solidez também ficou prejudicada, e o movimento da árvore, incluindo seus habitantes, já apresentava diferença. O pássaro, passou a visitar assiduamente aquele outro galho, não mais passava o dia como antes e não cantava. Aquele galho passou a ser mais solitário por metamorfose, já que sem a movimentação toda, a folha se tornou um totem. Numa sexta-feira, finalmente, a folha cedeu ao espaço, totalmente opaca, inclinou-se sobre si mesma até que o caule se desprendeu do tronco, acusando uma queda a princípio lenta, numa melodia própria de Satie, imitando o movimento complexo das aves, desenhando uma curva, ficou como que enlaçada no galho de duas folhas, que funcionou como um anteparo. Naquela altura dos acontecimentos, o peso da ave que ali pousara, de um tempo para cá , precipitou nova queda, desta vez definitiva, ora parando aqui, ou ali, mais a direção era uma só : o chão. Ali permaneceu a folha durante os dias, que passavam inexoravelmente. As suas nervuras e filamentos se tornaram nodosos, a sua cor se modificou até se tornar ocre, sem vida, ríspida, agressiva.
Certo dia, um anão - desses de contos fantásticos, ou de circo, [ com verruga no rosto],figura bizarra - desajeitado como sempre são os anões, passou por sob a árvore, pisou na folha, e o que restou foi apenas o ruído que produziu sob sua bota, assim como de um homem somente restará o lugar marcado numa cadeira.
Da árvore não teve mais notícia; mudou de caminho, assim como do pássaro. Cada vez que ouve qualquer cantar canoro, o invade a melancolia.
