A folha

scriptu em Penso? by Djabal Tuesday March 6, 2007

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  Deitado numa clareira, podia observar aquela árvore, de larga e protetora  sombra,  não tinha nada de excepcional, nem muito grande, nem muito pequena, demonstrava ser bastante antiga e bastante sólida, cumpria seu papel.                                                                                

 Do seu conjunto se destacou no galho mais alto uma folha isolada das demais. Aparentemente comandava todas as outras, e  na direção em que se inclinava, inclinava-se todo o conjunto. Todos os dias cumpria o seu percurso do trabalho para casa, e sempre  deitava para olhar, descansar, e não sei por que, sempre  me chamava a atenção. As formigas, insetos, e pequenos animais, sempre percorriam seus galhos, passando  por um roteiro imaginário, mas tudo sempre havia que passar por aquela folha. 

Um pássaro - daqueles de catálogo - fazia parte do conjunto e passava todo o seu dia por ali, ora num galho, ora noutro, sempre se movimentando, sua ambientação era tão grande, que sua cor - que nada continha de verde - se metamorfoseava. Após certo tempo, passou a se dedicar àquele galho, àquela folha, e seu tempo se concentrava todo ali. Passou a cantar somente ali, além de não haver nenhum obstáculo acústico, naquela posição a música destacava;  mais de tudo o intérprete. Tirava o brilho máximo, as folhas, galhos, liquens, brotos, insetos, parasitas, estarreciam sob sua voz, ou melhor, agiam conforme seu ritmo. Até a folha solitária agia dessa forma, se subordinando. Esqueceu do seu caráter fixo, enquanto é o da ave móvel. 

 Dentro daquela azáfama toda, cada vez mais chamava a atenção, a relação entre a folha e o pássaro. Hierática, solene uma e ágil, nervoso, agitado o outro.  Colocando numa brutal evidência aqueles movimentos binários, próprio de quem  vai à direita ou à esquerda, acima ou abaixo, numa incrível velocidade, num átimo de segundo decide e faz. Os galhos se transformam em trapézio,  depois numa gaiola, ele não sai - quase - mais dali.

 Ora, pensei, o pássaro vai se transformar numa folha. O pássaro desceu repentinamente  para examinar uma  folha abaixo, num galho em que fazia conjunto com outro e houve uma repentina alteração . Naquele brusco movimento, a sua asa ou corpo, não viu bem, bateu na antiga folha, nada de muito  grave, imaginou. Mas natureza não se movimenta bruscamente, aos saltos,  sempre age  imperceptivelmente,  alterando o panorama quadro a quadro, somente após algum tempo notamos grandes modificações. 

 A folha, deixava vazar sua seiva pelo caule danificado, e seu vigor já não era o mesmo, a solidez também ficou prejudicada, e o movimento da árvore, incluindo seus habitantes, já apresentava diferença. O pássaro, passou a visitar assiduamente aquele outro galho, não mais passava o dia como antes e não cantava. Aquele galho passou a ser mais solitário por metamorfose, já que sem a movimentação toda, a folha se tornou um totem.  Numa sexta-feira, finalmente, a folha cedeu ao espaço, totalmente opaca, inclinou-se sobre si mesma até que o caule se desprendeu do tronco, acusando uma queda a princípio lenta, numa melodia própria de Satie, imitando  o movimento complexo das aves, desenhando uma curva, ficou como que enlaçada no galho de duas folhas, que funcionou como um anteparo. Naquela altura dos acontecimentos, o peso da ave que ali pousara, de um tempo para cá , precipitou nova queda, desta vez definitiva, ora parando aqui, ou ali, mais a direção era uma só : o chão.  Ali permaneceu a folha durante os dias, que passavam inexoravelmente. As suas nervuras e filamentos se tornaram nodosos, a sua cor se modificou até se tornar ocre, sem vida, ríspida, agressiva. 

 Certo dia, um anão - desses de contos fantásticos, ou de circo, [ com verruga no rosto],figura bizarra - desajeitado como sempre são os anões, passou por sob a árvore,  pisou na folha, e o que restou foi apenas o ruído que produziu sob sua bota, assim como de um homem  somente restará o lugar marcado numa cadeira. 

 Da árvore não teve mais notícia; mudou de caminho, assim como do pássaro. Cada vez que ouve qualquer cantar canoro, o invade a  melancolia. 

Espírito, matéria e tempo.

scriptu em Existo: talvez. by Djabal Tuesday March 6, 2007

escher-relativity.jpgHoje Com o avançar da ciência descobrimos que somos um acidente no universo. Com vida própria e curta. Existe uma imensa possibilidade de não existirmos apesar de escrevermos, pensarmos e julgarmos. Portanto, enquanto essa impossibilidade da existência não se faz imediata, deveríamos prestar mais atenção naqueles que se dedicam à matéria. Eles não existem duplamente. Já quando a balança pende para o espírito, alguma forma de existência poderá nascer através da matéria. Em nosso espírito se forma um embrião. Algo mais perene que a inócua concretude do corpo. Deixamos de ser fantasmas. Nessa era de intolerância, isolamento e desamor um broto poderá se salvar da radiação. Vivemos o fim do amor salvador. Encontramos o Graal. Matamos o Artur, prostituímos a Guinevere,  ignoramos a Isolda e conhecemos a Bovary. Aqueles cuja reação diante de tudo isso que vemos é de ausência e cinismo,  serão trucidados pelos intensos de cólera. Os pensamentos encontraram o meio de se perenizar. Tempo.

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