Epifania
Há vários anos li essa palavra, e não consegui, apesar de me socorrer, entender precisamente os significados do vocábulo. São coisas que as palavras não conseguem traduzir.
Ou será que o redator estava carecido de precisão?
A verdade é que o seu significado sempre me ficou nublado. Tinha que recorrer a um barbarismo, coisa absolutamente corriqueira no nosso pobre idioma. Corriqueira não, incentivada maciçamente por quase a unanimidade da nossa falta de própria estima.
Bem, mas estamos nos distanciando dele, dando asa à imaginação nem tão criativa, nem tão necessária, assim.
Foi proposital uso do verbo: socorrer. A utilidade da leitura, além do prazer está na busca daquilo que não se tem, e que tem muitos nomes e poucos exemplos.
Assim que, ao buscar a amizade dentro de uma página sempre se encontra - na pior das hipóteses - conselhos, experiências alheias e pessoas amigas, outras nem tanto, até completamente diferentes que, entretanto, se abrem a não mais poder. Pregam sua vida nela. É muito edificante e restaurador.
Quem busca amizade, buscará por que ?
Buscará a identidade.
Identidade que não significará o sofrimento cotidiano, o esmagamento do indivíduo, apesar de um absurdo personalismo; mas o cultivo da verdade, quando a mentira é a prática praticada, a caridade como norma, se afastando a prático do egoísmo.
O ambiente parece cada vez mais causticante, calcinante, duro, cortante, e que vai lhe abrindo as carnes, até o osso, verificando que ele se calcificou fora do lugar, e quebrando-o novamente, para que fique na postura correta. Imobiliza para que com o tempo, possa novamente se deslocar, agora com a posição equilibrada.
Qual o quê.
A sensação de se andar ou manejar manquitolando, fora do número de série, de incompreendido, mesmo nas suas declarações de incompreensão é pior que a anterior, acrescida da dilaceração da dor.
Várias vezes ao dia nos vemos chibatados por alguém que não distinguimos no segurar do cabo, mas que as dá com tanto gosto: rendemo-nos ao mal.
Tornamo-nos companheiros do mal, aprendemos a conviver com ele, tornamo-nos amistosos, por medo. Medo de apanhar novamente.
E no escuro da maldade, na esfera do cotidiano, sempre existe um ponto de luz, um minúsculo ponto de luz.
Senta-se nele em alguns momentos do dia, abre seu espaço, sonha, delira, consegue imaginar que tudo, absolutamente tudo, depende apenas da alma. O bom e o ruim são apenas obras de sua imaginação. Nem um nem outro existe.
Ah, é por isso que Dom Quixote, Gargantua, Pantagruel, Tristram Shandy, são tão queridos por todos. A verdade sempre é simples. Ela freqüenta os melhores ambientes, aqueles despojados.
Parece tão fácil, seguir-lhes os conselhos.
As coisas não giram, jamais girarão ao seu redor.
Mas para que as coisas funcionem assim; os seus amigos, os seus conselhos, os melhores personagens não bastam.
Quando falece a vontade?
Quando falece a força?
Quando falece o ânimo?
Apesar de tudo as sombras se avolumam, tomam conta de todo o espaço e obrigam-no a sair do seu lugar. A hesitação a dúvida não se conjugam com a pressa. A hesitação é o imobilismo, a dúvida é a ignorância. O respeito pelo próximo não hesita, atropela-o; não existe o benefício da dúvida, o benefício é que é a dúvida.
Pressa, que tem pressa de imobilizá-lo, descobrir tudo o que se sente para mais fácil, rápida e integralmente lhe dominar. A mesma pressa que descobre o amor , para logo o tornar intangível.
Pressa que tantaliza o homem.
Deus meu do Céu, como é que eu posso encarar – simplesmente - a vida? Como posso tornar-me – simplesmente - simples ?
A fuga para os astros é antiquíssima, cada vez que se oprime o indivíduo ele busca ajuda numa estrela, no longínquo, no alucinante. Busca a sua força, a sua vontade, num empréstimo maluco, porém, ele não cobra juros.
Entretanto, a soma que ele – arco, astro, estrela – despende é sempre igual, e a sua carência é cada vez maior.
Jamais podemos ver, ler, ou presenciar conversas sobre desertos. A secura que lhe vai na alma, se potencializa, se avoluma como as sombras e tornam sua secura real, irascível.
A busca desesperada por um córrego, por um fiozinho de água, por qualquer lenitivo para sua sede, para lhe preservar o pontinho de luz, para afastar as sombras que as estrelas não conseguem mais, acabará num beco ?
Não; ela acabará na epifania.
Ela acabará numa manhã como outra qualquer onde atua a lei dos determinados indeterminantes, a lei do acaso, a lei dos círculos concêntricos, e uma mão invisível vêm lhe retirar tudo de perto.
Torna você leve como uma pluma, tira com a mão alva e sutil, tudo que lhe cerca, e transtorna. Levitamos no curto espaço de tempo que leva para se ouvir uma cantata que diz : “Dissipai-vos ó sombras tristes”.
A voz desumana - adquire a forma absoluta e dança por sobre o pentagrama, e você ouve duas melodias separadas uma que foi humana e outra que percute um fio metálico e que se faz humana; ambas passeiam por dentro de você, atiram-no para acima e para além da sombra, musicalmente sobem e descem, criam expectativas e as cumprem. Dão-lhe de beber , saciam-no. Uma gota tão diáfana quanto a mão aplaca sua sede de trinta anos.
Como é possível fazer isso ?
Só assim se descobrirá que não é, e nunca foi com palavras que se conseguirá desvendar o sentido da epifania.
Ela tem um significado complexo, indizível e inefável. Correrá sempre paralela às duas vozes que se embaraçam para mostrar como se formam aquelas sombras, se separarão numa velocidade constante e num ângulo bem aberto, subindo, deslocando e dissipando-as; e voltam a se unir lá em cima numa alegria contida, serena, delicada e firme, absolutamente firme, para lhe mostrar que ela é possível, e que só o gênio da raça pode descrever uma epifania, e não será, nunca o foi, e não é com as palavras. Simples palavras, ainda que Verbo. Talvez número: 202. (Não, não é o 202 dos Campos Elíseos, Conselheiro Acácio.)
