Harvest
Sentir-se colhido inteiramente;
Separado para forragem;
Alguém conferindo seu uso;
Era nubilosa;
Ainda assim dezenas de olhares atentos;
Evitar a menor fuga e de sonho;
Portanto: Ceifa e pesadelo.
Sentir-se colhido inteiramente;
Separado para forragem;
Alguém conferindo seu uso;
Era nubilosa;
Ainda assim dezenas de olhares atentos;
Evitar a menor fuga e de sonho;
Portanto: Ceifa e pesadelo.
Graças ao Mundo dos Livros descobri um fotógrafo que tem uma visão inteiramente diferente dos demais que conheci até agora. As imagens que puxaram a sua atenção são de uma força incompreensível. Elas exigem uma reflexão que é quase inesgotável. Arte por dizer algo diferente daquilo que até então se disse.O menino sentado e lendo diante de um elefante. A primeira reflexão que nos vem é a da inteligência vencendo a força bruta. O ouvir atento de uma aparente oração por um ser que pesa cinco ou seis toneladas dita por um outro, ínfimo. Ele miudinho vindo provavelmente de uma escola corânica (maktab ou madris) tem sua vida espiritual totalmente voltada ao estudo do livro sagrado. E é dele que tira a sua força, sua inteligência e compreensão do mundo. Conseguirá através de sua crença e da experiência dos seus, ensinar aquele que será seu companheiro de uma vida inteira a trabalhar com madeira, transportando toras e mais toras somando toneladas e toneladas ao longo de sua jornada. Transporte que fez e nutriu a vida de milhares de indivíduos que habitavam o sul da Índia (Madras) e que migraram para o golfo de Bengala ou para a Birmânia, apenas para citar um exemplo concreto. Ele descobrirá que seu amigo tem muitas emoções parecidas com as suas: ciúmes, consideração, medo, respeito e a proteção contra tudo e todos. Soberano ensina ao menino muitas coisas da sua relação com o meio ambiente. Não é à toa: ele é o símbolo da África, por não haver nenhum animal que consiga vencê-lo numa disputa. O menino foi salvo do seu destino comum pela presença maciça desse belo animal, evitou uma vida de exilado da Natureza. As lições são verbais e não verbais, sendo mais importantes essas e não aquelas. Após muitos e muitos anos de convívio, o último ensinamento e o mais importante se dá na hora da morte. O elefante - de quem não se conhece o cemitério – ao sentir se aproximar o seu fim, simplesmente entra num lago, e se abandona dentro d’água. Sem nenhuma pompa ou circunstância. Ele se integra. Essa é a maior lição. Talvez algum anônimo antepassado tenha dado ao nosso renomado – Tamerlão – a idéia de colocar como seu epitáfio: “Feliz é aquele que renunciou ao mundo antes que o mundo renunciasse a ele”.
Quando Sócrates agonizava, um de seus discípulos lhe disse: “Mestre, depois de lavar e amortalhar teu corpo, onde devemos enterrar-te?”
- “Se me encontrares”, respondeu ele, “enterra-me onde quiseres, e até logo. Já que durante os longos anos que vivi não encontrei a mim mesmo, como poderá alguém encontrar-me quando eu estiver morto? Vivi de tal maneira que no momento de minha dissolução não conheço a mais mínima partícula de mim mesmo.”
Sentado, observando a natureza… (Será que um gato pediria à borboleta que ela se colocasse em seu lugar para resolver um problema, ou vice-versa? Para dar algum conselho? Será que apesar de não serem inimigos naturais, ou amigos cordiais, eles aprenderam com o decorrer dos tempos, que cada um tem interesses incomunicáveis? Incomunicáveis por impossíveis de serem descritos em todos os seus pontos. Aprenderam que ambos são leves, ligeiros e silenciosos, mas se um é diáfano outro é concreto. Se um é pólen transfigurado outro é peixe de bigode.) ….conclui que temos ainda muito a aprender com ela.
“Seriam necessárias cerca de duas mil páginas para mostrar a cadeia básica de uma única célula E.coli e cerca de um milhão de páginas para mostrar a cadeia básica do ADN de uma única célula humana.” in Gödel, Escher, Bach, de Douglas Hofstader.
Como será possível descobrir o entrelaçamento do dialeto ladino com os retres romanos ou germânicos ou do Sacro Império Romano Germânico?Começo dizendo que a boa acolhida, a busca da tolerância entre todos os povos gera um florescimento indescritível da cultura, da economia, da técnica. Gera uma prosperidade imensa.O grotesco da história toda é apesar do descomunal desenvolvimento tecnológico que o homem alcançou, essa pequena verdade é impossível de ser colocada em prática, a não ser em determinados períodos. Pequenos períodos, frutíferos períodos, que logo, logo, se perdem nas noites dos tempos. Como se perdeu aquela presença, com a forma de um lugar, aquele buraco na poltrona em que nosso pai moldou ao se sentar para ler.Como se perdeu o ladino e se perdeu o iídiche.Idiomas ou dialetos próprios de um povo que num determinado momento, convivendo com outro se fundiu de uma maneira, que criou uma língua onde se expressou a fusão o seu passado com o presente.Devemos aos árabes o conhecimento sobre a civilização grego-romana. Após a queima da Biblioteca de Alexandria, tudo que nos restava de memória escrita foi destruído. Originais de Aristóteles, de Platão, de Plotino, e de muitos outros se perderam.Vários foram os motivos. Várias as circunstâncias. Nenhuma explicável.Felizmente os povos árabes conseguiram avaliar a importância daqueles pensadores. Conseguiram imaginar a sua importância e originalidade. Fizeram a tradução para o árabe de tudo isso. Com competência, regularidade e curiosidade.Curiosidade que, felizmente, também é humana. Muito humana.Por obra e graça do Mediterrâneo os árabes carregaram isso consigo até a Espanha.A península Ibérica acolheu integralmente esse povo e o entrelaçamento entre as culturas se tornou algo diferente, algo totalmente peculiar. O Magreb (Ocidente) passou a ter o seu lugar na civilização árabe, até então totalmente voltada e ensimesmada no Oriente Médio e seu cotidiano.Desse acolhimento e dessa bonomia floresceu a cultura árabe. Cultura que se extraiu de uma força econômica considerável. A abundância dos árabes sempre foi compartilhada por seus primos-irmãos os judeus. Esses povos sempre se respeitaram e trabalhavam ombro a ombro.A abundância gera o ócio.O ócio produtivo se dá na indagação dos problemas do homem. E nos problemas do homem, o melhor a se fazer é buscar a experiência dos antepassados, própria do ócio.Ócio que poupa o esforço de se chegar ao mesmo resultado pensando.E não foi por mágica que somente quem conhecia o árabe, o grego e o espanhol, poderia fazer a leitura e tentar uma tradução daquele tesouro cultural.E os primos judeus que sempre se dedicaram à leitura e à reflexão se incumbiram de assim o fazer.E devemos esse resgate a essa época. Época de bonomia.Época de congraçamento, que foi considerada por todos aqueles que li e freqüentei como o apogeu da cultura árabe, o apogeu da cultura judaica. Apogeu que ainda não foi toldado por nenhum outro período. Gerou Avicena, Averrois, Maimônides e outros grandes que a memória e a ignorância não me faz repetir, como se isso pudesse provar algo a mais.Com as traduções e as tradições se forjou um idioma próprio o Ladino. Língua que homenageava a sociedade em que se vive, e não permite esquecer as tradições que a sua cultura legou. Esse misto de hebraico, árabe e espanhol é, talvez, a maior prova da conciliação dos homens, do resultado de ser bem quisto, amado e respeitado. Os séculos forjaram comerciantes, cientistas, banqueiros, escritores, diplomatas, filósofos, árabes e judeus.Num determinado momento, momento de crise, de escassez, de expurgo, todos aqueles diferentes foram expulsos. Sem pão para repartir é muito difícil fazer prevalecer o bom senso.E os banqueiros, filósofos, comerciantes judeus foram expulsos para Milão, Florença, Veneza e Amsterdã. Levaram consigo sua língua. Levaram suas histórias e suas técnicas.E por mais que se tente ficar com o tesouro de alguém, não se consegue ficar com o ensinamento. E o cesteiro que faz um cesto fará um cento.Do norte da Europa e do norte da Itália, os judeus erraram até o Império Otomano. Encontraram casa e comida. Encontraram acolhimento.Contribuíram para o florescimento e crescimento daquele império. Tornaram-se além de tudo soldados, condes. E repetiram coletivamente a história de José e seus irmãos. Não tinham motivos para esquecer de sua língua e de suas histórias.Conheceram o café e o exportaram para o Ocidente. Lutaram para conquistar os Bálcãs para Selim, o Magnífico, para Suleiman e Saladino. Fundaram grandes comunidades na Romênia, Bulgária, Trácia e Romélia, assim afora. Falando o seu idioma. Conviveram intensamente com os restos do Grande Império Romano Germânico, que talvez existisse apenas num pedaço de papel. Para lembrança das glórias passadas e agora inexistentes.Império que gerou os retres. Retres que lutaram por cama e comida, para defender os príncipes germânicos contra os católicos espanhóis. Príncipes que adotaram Martinho Lutero como líder espiritual. Príncipes que descendiam dos godos e visigodos e que de sutil tinham apenas os cabelos e olhos claros, pouca experiência a vida havia dado. Experiência apenas como guerreiros.E quem sabe se esses guerreiros, retres, um dia tomaram conhecimento do ladino, falado por aqueles soldados? Quem sabe aqueles soldados descobriram por conta própria que a guerra não é natural do homem e é motivada por valores estranhos?Tomaram conhecimento duma nova língua, novos valores e nova cultura e passaram a dividi-la conjuntamente?Infelizmente só posso terminar a questão com perguntas.Por essas perguntas e esses entrelaçamentos é que fiz a epígrafe desse texto. Muito temos ainda que aprender para saber o quanto somos e sempre seremos ignorantes.O que vale e sempre valerá, indepentemente do conhecimento, é o otimismo.
“Eu acho que fiquei suspenso na árvore exposto ao vento,
Suspenso nela por nove noites inteiras;
Com a lança fui ferido e ofertado
A Odin, eu próprio para mim mesmo.
Na árvore que ninguém jamais saberá
Que tipo de raiz se estende por baixo dela.
Ninguém me fez feliz com pão ou bebida,
E lá para baixo olhei;
Peguei as runas, gritando eu as peguei,
E de imediato cai de costas.
Então comecei a prosperar e sabedoria obter,
Eu me fortalecera e bem eu estava;
Cada palavra levava-me a outra palavra,
Cada ação a outra ação.”
*De Eda, nome dado a duas compilações das tradições mitológicas e legendárias dos antigos povos escandinavos.Do Codex Regius, na Biblioteca Real de Copenhague (c. 1300 d.C), escrito in Joseph Campbell, Mitologia Ocidental.
Há vários anos li essa palavra, e não consegui, apesar de me socorrer, entender precisamente os significados do vocábulo. São coisas que as palavras não conseguem traduzir.
Ou será que o redator estava carecido de precisão?
A verdade é que o seu significado sempre me ficou nublado. Tinha que recorrer a um barbarismo, coisa absolutamente corriqueira no nosso pobre idioma. Corriqueira não, incentivada maciçamente por quase a unanimidade da nossa falta de própria estima.
Bem, mas estamos nos distanciando dele, dando asa à imaginação nem tão criativa, nem tão necessária, assim.
Foi proposital uso do verbo: socorrer. A utilidade da leitura, além do prazer está na busca daquilo que não se tem, e que tem muitos nomes e poucos exemplos.
Assim que, ao buscar a amizade dentro de uma página sempre se encontra - na pior das hipóteses - conselhos, experiências alheias e pessoas amigas, outras nem tanto, até completamente diferentes que, entretanto, se abrem a não mais poder. Pregam sua vida nela. É muito edificante e restaurador.
Quem busca amizade, buscará por que ?
Buscará a identidade.
Identidade que não significará o sofrimento cotidiano, o esmagamento do indivíduo, apesar de um absurdo personalismo; mas o cultivo da verdade, quando a mentira é a prática praticada, a caridade como norma, se afastando a prático do egoísmo.
O ambiente parece cada vez mais causticante, calcinante, duro, cortante, e que vai lhe abrindo as carnes, até o osso, verificando que ele se calcificou fora do lugar, e quebrando-o novamente, para que fique na postura correta. Imobiliza para que com o tempo, possa novamente se deslocar, agora com a posição equilibrada.
Qual o quê.
A sensação de se andar ou manejar manquitolando, fora do número de série, de incompreendido, mesmo nas suas declarações de incompreensão é pior que a anterior, acrescida da dilaceração da dor.
Várias vezes ao dia nos vemos chibatados por alguém que não distinguimos no segurar do cabo, mas que as dá com tanto gosto: rendemo-nos ao mal.
Tornamo-nos companheiros do mal, aprendemos a conviver com ele, tornamo-nos amistosos, por medo. Medo de apanhar novamente.
E no escuro da maldade, na esfera do cotidiano, sempre existe um ponto de luz, um minúsculo ponto de luz.
Senta-se nele em alguns momentos do dia, abre seu espaço, sonha, delira, consegue imaginar que tudo, absolutamente tudo, depende apenas da alma. O bom e o ruim são apenas obras de sua imaginação. Nem um nem outro existe.
Ah, é por isso que Dom Quixote, Gargantua, Pantagruel, Tristram Shandy, são tão queridos por todos. A verdade sempre é simples. Ela freqüenta os melhores ambientes, aqueles despojados.
Parece tão fácil, seguir-lhes os conselhos.
As coisas não giram, jamais girarão ao seu redor.
Mas para que as coisas funcionem assim; os seus amigos, os seus conselhos, os melhores personagens não bastam.
Quando falece a vontade?
Quando falece a força?
Quando falece o ânimo?
Apesar de tudo as sombras se avolumam, tomam conta de todo o espaço e obrigam-no a sair do seu lugar. A hesitação a dúvida não se conjugam com a pressa. A hesitação é o imobilismo, a dúvida é a ignorância. O respeito pelo próximo não hesita, atropela-o; não existe o benefício da dúvida, o benefício é que é a dúvida.
Pressa, que tem pressa de imobilizá-lo, descobrir tudo o que se sente para mais fácil, rápida e integralmente lhe dominar. A mesma pressa que descobre o amor , para logo o tornar intangível.
Pressa que tantaliza o homem.
Deus meu do Céu, como é que eu posso encarar – simplesmente - a vida? Como posso tornar-me – simplesmente - simples ?
A fuga para os astros é antiquíssima, cada vez que se oprime o indivíduo ele busca ajuda numa estrela, no longínquo, no alucinante. Busca a sua força, a sua vontade, num empréstimo maluco, porém, ele não cobra juros.
Entretanto, a soma que ele – arco, astro, estrela – despende é sempre igual, e a sua carência é cada vez maior.
Jamais podemos ver, ler, ou presenciar conversas sobre desertos. A secura que lhe vai na alma, se potencializa, se avoluma como as sombras e tornam sua secura real, irascível.
A busca desesperada por um córrego, por um fiozinho de água, por qualquer lenitivo para sua sede, para lhe preservar o pontinho de luz, para afastar as sombras que as estrelas não conseguem mais, acabará num beco ?
Não; ela acabará na epifania.
Ela acabará numa manhã como outra qualquer onde atua a lei dos determinados indeterminantes, a lei do acaso, a lei dos círculos concêntricos, e uma mão invisível vêm lhe retirar tudo de perto.
Torna você leve como uma pluma, tira com a mão alva e sutil, tudo que lhe cerca, e transtorna. Levitamos no curto espaço de tempo que leva para se ouvir uma cantata que diz : “Dissipai-vos ó sombras tristes”.
A voz desumana - adquire a forma absoluta e dança por sobre o pentagrama, e você ouve duas melodias separadas uma que foi humana e outra que percute um fio metálico e que se faz humana; ambas passeiam por dentro de você, atiram-no para acima e para além da sombra, musicalmente sobem e descem, criam expectativas e as cumprem. Dão-lhe de beber , saciam-no. Uma gota tão diáfana quanto a mão aplaca sua sede de trinta anos.
Como é possível fazer isso ?
Só assim se descobrirá que não é, e nunca foi com palavras que se conseguirá desvendar o sentido da epifania.
Ela tem um significado complexo, indizível e inefável. Correrá sempre paralela às duas vozes que se embaraçam para mostrar como se formam aquelas sombras, se separarão numa velocidade constante e num ângulo bem aberto, subindo, deslocando e dissipando-as; e voltam a se unir lá em cima numa alegria contida, serena, delicada e firme, absolutamente firme, para lhe mostrar que ela é possível, e que só o gênio da raça pode descrever uma epifania, e não será, nunca o foi, e não é com as palavras. Simples palavras, ainda que Verbo. Talvez número: 202. (Não, não é o 202 dos Campos Elíseos, Conselheiro Acácio.)
Imagine que você tem o indispensável para alguém.
Imagine que alguém tem o indispensável para você.
Imagine que uma simples troca resolverá tudo.
Procure dar uma fechada em alguém pela manhã.
Receba a ofensa e responda com um sorriso.
Imagine-se amada(o) loucamente por várias muitas(os).
Saiba que eles viveram em séculos passados e vindouros.
Afaste-se dos amigos.
Eles não existem.
Cerque-se de inimigos.
Eles também.
Saiba que tudo que é absolutamente certo é igualmente inútil.
Saiba que tudo que é útil é absolutamente incerto.
Não adianta o cavaleiro matar o dragão.
Ninguém reconhece o cavaleiro.
Ninguém dá valor para um dragão morto.
Tudo que é indispensável é o obra do acaso.
O dinheiro é um meio de adquirir e satisfazer seus desejos.
Diminua-os e seu caminho será mais fácil.
As teias serão mais tênues e transparentes.
Você não será mais uma aranha.
Ouça uma melodia sem letra.
Acompanhe uma letra sem melodia.
Conheça o sorriso do cão.
Quando um problema não tiver solução:
a) Mude de posição, ou;
b) Seja um cão: sorria.
Exercite seu pensamento todos os dias antes da porta se abrir para o mundo; ele será menor que você.
Extraído do lugar onde o camelo se ajoelha in ‘Pílulas de vida de Dr.Toss’.

Deitado numa clareira, podia observar aquela árvore, de larga e protetora sombra, não tinha nada de excepcional, nem muito grande, nem muito pequena, demonstrava ser bastante antiga e bastante sólida, cumpria seu papel.
Do seu conjunto se destacou no galho mais alto uma folha isolada das demais. Aparentemente comandava todas as outras, e na direção em que se inclinava, inclinava-se todo o conjunto. Todos os dias cumpria o seu percurso do trabalho para casa, e sempre deitava para olhar, descansar, e não sei por que, sempre me chamava a atenção. As formigas, insetos, e pequenos animais, sempre percorriam seus galhos, passando por um roteiro imaginário, mas tudo sempre havia que passar por aquela folha.
Um pássaro - daqueles de catálogo - fazia parte do conjunto e passava todo o seu dia por ali, ora num galho, ora noutro, sempre se movimentando, sua ambientação era tão grande, que sua cor - que nada continha de verde - se metamorfoseava. Após certo tempo, passou a se dedicar àquele galho, àquela folha, e seu tempo se concentrava todo ali. Passou a cantar somente ali, além de não haver nenhum obstáculo acústico, naquela posição a música destacava; mais de tudo o intérprete. Tirava o brilho máximo, as folhas, galhos, liquens, brotos, insetos, parasitas, estarreciam sob sua voz, ou melhor, agiam conforme seu ritmo. Até a folha solitária agia dessa forma, se subordinando. Esqueceu do seu caráter fixo, enquanto é o da ave móvel.
Dentro daquela azáfama toda, cada vez mais chamava a atenção, a relação entre a folha e o pássaro. Hierática, solene uma e ágil, nervoso, agitado o outro. Colocando numa brutal evidência aqueles movimentos binários, próprio de quem vai à direita ou à esquerda, acima ou abaixo, numa incrível velocidade, num átimo de segundo decide e faz. Os galhos se transformam em trapézio, depois numa gaiola, ele não sai - quase - mais dali.
Ora, pensei, o pássaro vai se transformar numa folha. O pássaro desceu repentinamente para examinar uma folha abaixo, num galho em que fazia conjunto com outro e houve uma repentina alteração . Naquele brusco movimento, a sua asa ou corpo, não viu bem, bateu na antiga folha, nada de muito grave, imaginou. Mas natureza não se movimenta bruscamente, aos saltos, sempre age imperceptivelmente, alterando o panorama quadro a quadro, somente após algum tempo notamos grandes modificações.
A folha, deixava vazar sua seiva pelo caule danificado, e seu vigor já não era o mesmo, a solidez também ficou prejudicada, e o movimento da árvore, incluindo seus habitantes, já apresentava diferença. O pássaro, passou a visitar assiduamente aquele outro galho, não mais passava o dia como antes e não cantava. Aquele galho passou a ser mais solitário por metamorfose, já que sem a movimentação toda, a folha se tornou um totem. Numa sexta-feira, finalmente, a folha cedeu ao espaço, totalmente opaca, inclinou-se sobre si mesma até que o caule se desprendeu do tronco, acusando uma queda a princípio lenta, numa melodia própria de Satie, imitando o movimento complexo das aves, desenhando uma curva, ficou como que enlaçada no galho de duas folhas, que funcionou como um anteparo. Naquela altura dos acontecimentos, o peso da ave que ali pousara, de um tempo para cá , precipitou nova queda, desta vez definitiva, ora parando aqui, ou ali, mais a direção era uma só : o chão. Ali permaneceu a folha durante os dias, que passavam inexoravelmente. As suas nervuras e filamentos se tornaram nodosos, a sua cor se modificou até se tornar ocre, sem vida, ríspida, agressiva.
Certo dia, um anão - desses de contos fantásticos, ou de circo, [ com verruga no rosto],figura bizarra - desajeitado como sempre são os anões, passou por sob a árvore, pisou na folha, e o que restou foi apenas o ruído que produziu sob sua bota, assim como de um homem somente restará o lugar marcado numa cadeira.
Da árvore não teve mais notícia; mudou de caminho, assim como do pássaro. Cada vez que ouve qualquer cantar canoro, o invade a melancolia.
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