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scriptu em Existo: talvez. by Djabal Monday April 2, 2007

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Não via a hora de chegar a noite de Natal. A comemoração se fazia na casa de meu avô. Ocasião em que encontrava meu primos, meus tios e o Rex, o pastor (vira-latas) da família. Fazíamos muitas brincadeiras. Coisas corriqueiras que não pertenciam ao meu hábito. Era filho único e vivia sem muito convívio com outras crianças.

 Os primos, as brincadeiras, o jantar e principalmente meu avô eram os objetos de minha curiosidade.Nas brincadeiras com os meus primos sempre me saía bem e admirava o comportamento deles. Era completamente diferente do meu, pareciam estrangeiros. Recebia sempre um grande impacto: eles estavam ou viviam  sempre cercados de carinho e amor. Uma demonstração cabal, expressiva e inequívoca de amor. Não basta o amor natural da mãe; aquele era um amor expletivo, como a nossa comida, absolutamente doce. Nada de mistura era uma gema puríssima. Apenas sabia a doce de leite. A sua mãe era uma pessoa que os tratava com um amor invejável, cujo carinho podia ser cortado em fatias e servido.

Os jogos de dama, loto, xadrez, banco imobiliário serviam para passar o tempo até que chegasse o esperado jantar. Nós brincávamos no jogo, um dos primos não brincava somente, competia também.

Minha avó (Fine)  tinha fama da grande cozinheira da família. Sempre preparava um peixe (arenque) acompanhado de um creme leite azedo com cebolas. Além do peixe sempre tínhamos uma espécie de bolinho de batatas (kartoffellpuffer) deslumbrante, tanto que aprendi a fazer com grande sucesso de público e crítica. Comíamos a sobremesa antes do final da jantar; um purê de maçã divino e um repolho roxo com canela.   Esses pratos eram os primeiros presentes. Do meu convívio solitário passava para um outro completamente diferente a começando pela mistura  do  salgado com o doce, o azedo com o levemente apimentado. O resultado era extraordinário, como tudo que vinha de lá.

O lugar dos presentes e da janta eram distintos. Sentávamos para a refeição, onde o centro das atenções era meu avô (João). Um homem sisudo e de poucas palavras, sempre foi aparentemente distante. Muito trabalhador, não trocava muitas idéias, havia no seu semblante algo que traia o seu tédio nas conversas familiares. Na maior parte do tempo muito sério. Um grande e intimidador bigode que cobria o espaço entre o nariz e a boca escondendo parte do seu charuto. O terno, a camisa e a gravata ajudavam bastante. Mais do que tudo o seu hábito de usar chapéu. Ele dava um toque de nobreza, de majestade, uma coroa em sua cabeça de páter-familias.

Tudo corria às mil maravilhas para mim, perfeito, em total liberdade, não estava subordinado a ninguém, podia fazer o que bem entendesse, distante dos olhares paterno. Era tratado como seu predileto, podia desfrutar daquele sentimento frondoso. O meu lugar era ao seu lado.

Terminado o banquete, sentava-se ao seu colo, na perna direita e me era dado o direito de buscar no bolso interno do paletó, no esquerdo, uma carteira e nela podia pegar o que ele havia separado para mim. Notas novíssimas de um cruzeiro.Em série. Feitas exclusivamente. Sem uso. Afeição materializada.

Tudo o mais ficou para trás. Nunca consegui me lembrar de nenhum presente que ganhei. Lembro-me apenas de um de valor muito elevado que foi trocado por livros no jornaleiro mais próximo de casa. E a cena simples de uma jantar, um sorriso, um bigode, um chapéu, algumas cédulas ficou para sempre.  

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