Uma forca novamente em uso

scriptu em Escrito pelas estrelas by Djabal Wednesday April 4, 2007

gregory-colbert-ashes-and-snow-ix.jpg  Em certo reino viviam, como é comum , pessoas comuns, não totalmente boas e devotas, nem totalmente más, porém assim , assim – medianas; umas algo piores, outras algo melhores, conforme o indivíduo e a ocasião. E o rei deste país era um juiz muito sagaz, que sabia como ajustar a paz entre Deus e as criaturas, entre um homem e outro, e nunca precisou de recorrer a castigos severos. Fora-lhe dado o poder de aquietar a fúria humana, de conter o raivoso e convencer o obstinado. No seu reinado, não só o patíbulo ficou às moscas, ninguém era decapitado ou enforcado, mas até o cárcere se transformou em galinheiro…não havia um só preso. Quem cometesse uma falta era condenado a doar algum dinheiro à caixa de caridade, ou a contribuir para o hospital – e só! 

-         Virá um tempo – disse certa vez o soberano – em que os homens , ao olhar para a forca, que se ergue na praça do mercado, não entenderão de modo algum por que este pedaço de pau foi ficanco na terra! Ao fim destas palavras, o rei lançou um suspiro e ninguém soube explicar o motivo. Entretanto, a princesa, filha única do rei, percebeu o fato e insistiu teimosamente junto ao pai par que lhe revelasse o significado daquele suspiro. E o rei, não podendo furtar-se, contou-lhe, mui secretamente a razão: suspirava porque duas pessoas lhe causavam apreensão! 

-         É possível governar em paz o país todo – disse ele – pois os meus súditos são pessoas em quem, de um modo geral, a bondade e a maldade se misturam. E quando comparecem diante de mim o mal vai ao fundo e o bem surge à tona…Há, contudo, duas criaturas em meu reino que fogem a esta média: uma é pura virtude e outra, pura perversidade. E quando ambas – temeu o monarca – se encontrarem um dia, de nada valerá toda a minha sabedoria: o patíbulo reiniciará a sua faina. A princesa pôs-se a pensar, meditou e meditou, mas não conseguiu atinar com o sentido dessas palavras.-         Ora! Desistiu ela com um gesto da mão . Afinal – ele já está velho. Uma vez realizou-se uma grande feira na capital do país, e ocorreram, e reuniram-se todos os súditos do reino. Entre eles se achavam as duas criaturas que causavam tantos temores ao soberano: a bondade e a maldade personificadas. E aconteceu a seguinte história: 

O perverso, deparando-se com a forca vazia no meio da praça, disse em alta voz diante de todos: -         Minha gente, sinto pena de vocês. Há muito que não têm o prazer de ver os criminosos pendurados e balançando-se no ar….-         É verdade, é verdade! – pôs-se a murmurar a multidão. O virtuoso, ouvindo tais palavras, interveio: -         Minha gente, a sorte e a graça moram com vocês! Deus e os bons anjos os guardam! Vivem tão honesta e devotamente que nenhum de vocês mereceu o castigo da forca.-         É verdade, é verdade! – tornou a murmurar a multidão.-         Não – contestou o homem mau – o mundo não é um céu. Aqui não moram anjos! Aqui impera o puro pecado. Mas os que vivem neste reino são tão criminosos, tão perversos, tão faltosos diante de Deus, que um receia acusar o outro, a fim de que suas próprias iniqüidades não venham à luz. E é por isso que o patíbulo permance abandonado. 

A multidão conservou-se calada e até sentiu certa raiva.O homem bom quis replicar , mas o iníquo o impediu de tomar a palavra. -         Meus senhores! – bradou ele – Se eu falto à verdade, provem-no! Vejamos se algum de vocês se sente tão virtuoso, tão devoto, tão puro diante de Deus e do mundo, a ponto de indicar sem medo, a quem se deve enforcar. É impossível que não se deva enforcar alguém! A multidão retraiu-se amedontrada. -         Vejam, ímpias criaturas! – gritou o perverso – Vejam como são verdadeiras as minhas palavras! Pois bem! Provar-lhes-ei que sou puro! Que não tenho medo! Eis a quem devem enforcar! – e apontou para o homem bom. 

A multidão assustou-se ainda mais. O virtuoso tentou falar, mas o malvado tornou a obstá-lo. -         Não foi à toa que ele teceu loas. Não foi à toa! Pretende acabar com o patíbulo! O patíbulo, sem o qual vocês seriam transviados do bom caminho e seus filhos esqueceriam de Deus. Enforquem-no. Quem quiser mostrar que não é seu parente, nem seu salvador, nem seu cúmplice ou seu igual, quem não quiser encobrir faltas alheias, a fim de que os outros encubram as dele, que ajude a executá-lo!  E quando o perverso tirou uma corda de sob a camisa, centenas de mãos estenderam-se para auxiliá-lo e um minuto depois o corpo do homem bom já pendia do alto do patíbulo… Não fora em vão o receio do sábio soberano – a forca entrou novamente em uso… 

I.L.Peretz

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