São os dedos do sol quando te abraço…
Pensava nos mistérios da poesia, nas quatro mil definições do amor, pensava sempre nas dificuldades que tinha ao analisar seus sentimentos, na sempre insistente tentativa de aplacá-los pelo envio ao armário de secos e molhados da sua experiência, pensava até mesmo na sensaboria que se tornava aos poucos sua vida.
Pensava ainda mais, que de remendo em remendo, abandonava tudo que - definitivamente - importa, para somente se dedicar às coisas mesquinhas da vida, aos sentires egoístas, aos prazeres desenfreados que a amizade interesseira permite. Se dedicava a ouvir loas à inteligência, espertezas, matreirices, dinheirama, traições, safadezas, às vezes próprias , outras alheias, meras invenções de mentes doentes; que precisavam crer em tudo aquilo para ter força para atravessar um lago - raso o suficiente para permitir a travessia de uma formiguinha - que diante das incapacidades paralisadas pelas covardias, se apresentava como o novo Mar Vermelho, insubmisso diante do Profeta.
Pensava, pensava, abandonou tudo, jogou às favas .
Mandou para o diabo que carregue sua esperança.
Enganou-se, sim enganou-se numa fácil arte de se enganar. A arte de enganar a si mesmo. Cansou de tanto pensar, criou seu mundo. Isolado, só, definitivamente abandonou tudo e todos. A sua difícil arte foi a de fazer isso sem que ninguém, absolutamente ninguém o percebesse , cobrasse, exigisse, demandasse nada…..
Enganou-se a si próprio, escondeu tudo, arranjou seus trapos, farrapos, remendos. Juntou seus cacos. Ordenou tudo, como sempre foi de seu comportamento. Uma completa e uniforme bagunça, claro, mas, perfeita, completa, e rigorosamente organizada. Deixou de lado tudo e todos, perplexos, tudo e todos. Menos ele, sempre olímpico, onírico, genioso tomado por genial, conseguia ver um horizonte nessa névoa. O mundo interior era, e é, muito rico, dentro de um submarino, sente-se protegido, pode sair para explorar, agasalha-se numa neoprene legal, se protege dos imprevistos da temperatura, nada o observa, você é o rei da natureza. Você se sente o rei da natureza, ainda que da sua natureza. O prazer sem compromisso da música é sua companheira….
Um dia um escrito.
Outro dia um olhar.
Outra vez um rosto.
Agora um corpo.
Finalmente um toque.
Você não sabe dizer.
Recusa outro sexo.
Quem bate à porta ?
Será qual desconhecido?
Você ainda não sabe dizer;
Por que não tem a alma,
Alma de um poeta,
Poeta que lhe traduza ,
Traduza o que significa
Aquele toque que ficou
‘Gravado no teu peito como lanças’,
Como seria bom sonetar,
Para saber falar que:
aqueles dedos que tornaram seu rosto para outro lado,
“São os dedos do sol quando te abraço”.
Como seria bom
Com a alma de poeta,
Poder dizer as palavras,
Que o coração sente,
Mais difícil que chorar ,
Mais difícil se emocionar,
Como seria bom ser poeta,
Para lhe dizer quanto o que sinto.
Obrigado Florbela,
Muito … Obrigado.
