Trazer a distância para perto: Pensamento

Casou muitas vezes. Passeou por muitos lugares. Acompanhava-se das mais variadas mulheres. Parecia birmanês quando acompanhado de uma chinesa; holandês quando acompanhado de uma alemã; ucraniano quando russa era a escolhida; espanhol se a eleita fosse portuguesa; sírio com libanesa; paraibano vivendo com cearense; carioca com paulistana. Atravessava todos os lugares, possuía cartões de ingresso para tudo e para todos; baseou sua vida na palavra, nunca precisou deixar nada por escrito.
Ao fazê-lo, complicou-se lamentavelmente e acabou ficando confinado por algum tempo, muito mais do que se confinara até então.
Via sempre fotografias, com elas se fixava num ponto e trazia para perto todos os lugares. Uma delas despertou sua memória para narrar uma história que foi o resumo mais completo de sua vida.
Almoçava num lugar público, abarrotado de gente. Uma multidão opressiva, apressada, falando alto, ele mal conseguia ouvir as doces – assim imaginava – palavras da sua convidada. Uma belíssima mulher, alta, com pescoço fino à Modigliani, magra e inteligente. Não sabia exatamente como desenvolver a conversa. E assim fez. Não a desenvolveu. Apenas ouviu. Ouviu todas as suas histórias. Conseguiu compreender o sentido geral de tudo. Sentia-se feliz. Ainda assim o ambiente o oprimia terrivelmente. O copo de vinho escolhido não o relaxou.
Chegada a sua vez de contar uma história, perguntou se ela não queria ir para um lugar mais sossegado. “Qual por exemplo?” Transpirando a desconfiança do seu olhar. “O cinema aqui ao lado.” “Ótima idéia, apesar de não podermos conversar.” “Vamos então?”
No caminho do cinema havia um banheiro. Aliás, haviam vários banheiros. Ele escolheu aquele reservado para os deficientes. Ele pediu ao responsável se podia usá-lo. E para isso teria que ter a companhia de sua namorada. O atendente ficou absolutamente atônito e, claro, permitiu o ingresso de ambos.
Só então ela compreendeu tudo e passaram a conversar. Conversaram, conversaram, como os animais irracionais também o fazem. Até que os corpos exaustos nada mais tendo para conversar foram à sala de projeção. Nada mais havia que conversar. Tudo foi falado. Bastava ver aquela película. Descobriu mais tarde que a câmara de segurança filmou tudo. Assim ele obteve os seus minutos de fama.