Grave ofensa mental: o não científico.

Primo,
Além da saudade que me rodeia a cabeça toda vez que estou em paz, e da distância que me aflige por não poder vencê-la imediatamente, consegui uma forma de atender o carinho mútuo em forma de confissão e desabafo.
Ando escrevendo coisas, descrevendo sentimentos, contando histórias, compartilhando reflexões e sendo empurrado para, colocá-las em ordem de forma a serem impressas, participar de concursos, escrever um blog; fazer qualquer coisa, ora bolas.
Não consigo fazer nada disso.
Existe um teste para escritor ao qual me submeto todos os dias e não consigo ultrapassar. É o seguinte: contar uma história para as pessoas que passam, convidadas para um casamento. Fazê-las parar.
Ao passar naturalmente elas ouvem aquilo que estou contando, e o segredo da literatura é conseguir pará-las naturalmente, pela curiosidade que ela desperta, pelo interesse do assunto, e também pela imensa vontade de saber qual é o seu final, mesmo perdendo a festa em que já se ouvem as vozes, fogos e os brindes.
Que nada, homem.
Todos nós temos muitas coisas para pensar, muitas. E não temos tempo algum para ficar parados ouvindo alguém contando alguma história. Somente uns privilegiados o conseguiram.
Creio que é uma questão de destreza e inteligência. Ambas me foram negadas.
O assunto que nos faz parar para ver e ouvir hoje é em grande parte o científico, o técnico. Estamos sob uma intensa pressão. De todos os lados. Parece que, mais do nunca fomos condenados à forca, e a sentença será executada não se sabe quando, mas estamos certos de que o será muito rapidamente. “Temos que ter foco.” “Olha o foco.” “Não esqueça.”
Tenho dificuldades imensas para entender a mecânica quântica, a geometria espacial, mesmo sabendo quanto representam para o alargamento do nosso entendimento. Como poderia chamar a sua atenção escrevendo sobre esses assuntos?
Um outro assunto que gera muita atenção é a abundância e os seus efeitos, usos e marcas.
Para falar de riqueza e investimentos deveria ser rico o suficiente para descrever a experiência. Mesmo assim, se todos nós compartilhássemos essa experiência todos seríamos ricos e poderosos também? Não creio que alguém parasse para ouvir a minha história.
Assim sendo adotei como percurso falar para as pessoas contando minhas histórias como se fossem outras. Para não me revelar, para não ser sentencioso.
Existe uma premissa nesse comportamento. Tratar a todos como se fossem estágios da minha vida. Portanto serviria para aqueles que estivessem num estágio anterior. E para aqueles que estavam num estágio além? Trataria de conversar aprender, deixar a minha ida ao casamento de lado para ouvir a história de alguém mais.
Refletindo sobre isso tudo acabei por concluir que estou falando ainda agora sobre a física clássica e a geometria analítica. Todos esses pontos de vista, são válidos apenas para mim sob as circunstâncias que eu enfrentei.
Para todos os outros é de pouca utilidade, a minha experiência não poderá ser repetida, jamais e em tempo algum. Essa hipótese jamais será confirmada ou refutada por ninguém.
Não consigo encontrar a mão certa, o ritmo adequado e mais de tudo a visão de horizonte que nos unirá.
Parece que atingimos como espécie uma era de fartura inesquecível, atingimos o fim da história, mas isso está distribuído de uma maneira absolutamente injusta e a reação dos excluídos, e todos somos de uma forma ou de outra, será de vingança. Todos vão - existindo ou não um velho marinheiro contador de histórias – ao casamento. E não irão apenas como convidados. Irão como cobradores.