Golden Chocolate

scriptu em Escrito pelas estrelas by Djabal Thursday April 5, 2007

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Trazem-me a fé como um embrulho fechado numa salva alheia. Querem que o aceite, mas que não o abra. Trazem-me a ciência, como uma faca num prato, com que abrirei as folhas de um livro de páginas brancas. Trazem-me a dúvida, como pó dentro de uma caixa; mas para que me trazem a caixa se ela não tem senão pó?

Na falta de saber, escrevo; e uso os grandes termos da Verdade alheios conforme as exigências da emoção.  

Bernardo Soares, no Livro do Desassossego através de Fernando Pessoa.

Uma forca novamente em uso

scriptu em Escrito pelas estrelas by Djabal Wednesday April 4, 2007

gregory-colbert-ashes-and-snow-ix.jpg  Em certo reino viviam, como é comum , pessoas comuns, não totalmente boas e devotas, nem totalmente más, porém assim , assim – medianas; umas algo piores, outras algo melhores, conforme o indivíduo e a ocasião. E o rei deste país era um juiz muito sagaz, que sabia como ajustar a paz entre Deus e as criaturas, entre um homem e outro, e nunca precisou de recorrer a castigos severos. Fora-lhe dado o poder de aquietar a fúria humana, de conter o raivoso e convencer o obstinado. No seu reinado, não só o patíbulo ficou às moscas, ninguém era decapitado ou enforcado, mas até o cárcere se transformou em galinheiro…não havia um só preso. Quem cometesse uma falta era condenado a doar algum dinheiro à caixa de caridade, ou a contribuir para o hospital – e só! 

-         Virá um tempo – disse certa vez o soberano – em que os homens , ao olhar para a forca, que se ergue na praça do mercado, não entenderão de modo algum por que este pedaço de pau foi ficanco na terra! Ao fim destas palavras, o rei lançou um suspiro e ninguém soube explicar o motivo. Entretanto, a princesa, filha única do rei, percebeu o fato e insistiu teimosamente junto ao pai par que lhe revelasse o significado daquele suspiro. E o rei, não podendo furtar-se, contou-lhe, mui secretamente a razão: suspirava porque duas pessoas lhe causavam apreensão! 

-         É possível governar em paz o país todo – disse ele – pois os meus súditos são pessoas em quem, de um modo geral, a bondade e a maldade se misturam. E quando comparecem diante de mim o mal vai ao fundo e o bem surge à tona…Há, contudo, duas criaturas em meu reino que fogem a esta média: uma é pura virtude e outra, pura perversidade. E quando ambas – temeu o monarca – se encontrarem um dia, de nada valerá toda a minha sabedoria: o patíbulo reiniciará a sua faina. A princesa pôs-se a pensar, meditou e meditou, mas não conseguiu atinar com o sentido dessas palavras.-         Ora! Desistiu ela com um gesto da mão . Afinal – ele já está velho. Uma vez realizou-se uma grande feira na capital do país, e ocorreram, e reuniram-se todos os súditos do reino. Entre eles se achavam as duas criaturas que causavam tantos temores ao soberano: a bondade e a maldade personificadas. E aconteceu a seguinte história: 

O perverso, deparando-se com a forca vazia no meio da praça, disse em alta voz diante de todos: -         Minha gente, sinto pena de vocês. Há muito que não têm o prazer de ver os criminosos pendurados e balançando-se no ar….-         É verdade, é verdade! – pôs-se a murmurar a multidão. O virtuoso, ouvindo tais palavras, interveio: -         Minha gente, a sorte e a graça moram com vocês! Deus e os bons anjos os guardam! Vivem tão honesta e devotamente que nenhum de vocês mereceu o castigo da forca.-         É verdade, é verdade! – tornou a murmurar a multidão.-         Não – contestou o homem mau – o mundo não é um céu. Aqui não moram anjos! Aqui impera o puro pecado. Mas os que vivem neste reino são tão criminosos, tão perversos, tão faltosos diante de Deus, que um receia acusar o outro, a fim de que suas próprias iniqüidades não venham à luz. E é por isso que o patíbulo permance abandonado. 

A multidão conservou-se calada e até sentiu certa raiva.O homem bom quis replicar , mas o iníquo o impediu de tomar a palavra. -         Meus senhores! – bradou ele – Se eu falto à verdade, provem-no! Vejamos se algum de vocês se sente tão virtuoso, tão devoto, tão puro diante de Deus e do mundo, a ponto de indicar sem medo, a quem se deve enforcar. É impossível que não se deva enforcar alguém! A multidão retraiu-se amedontrada. -         Vejam, ímpias criaturas! – gritou o perverso – Vejam como são verdadeiras as minhas palavras! Pois bem! Provar-lhes-ei que sou puro! Que não tenho medo! Eis a quem devem enforcar! – e apontou para o homem bom. 

A multidão assustou-se ainda mais. O virtuoso tentou falar, mas o malvado tornou a obstá-lo. -         Não foi à toa que ele teceu loas. Não foi à toa! Pretende acabar com o patíbulo! O patíbulo, sem o qual vocês seriam transviados do bom caminho e seus filhos esqueceriam de Deus. Enforquem-no. Quem quiser mostrar que não é seu parente, nem seu salvador, nem seu cúmplice ou seu igual, quem não quiser encobrir faltas alheias, a fim de que os outros encubram as dele, que ajude a executá-lo!  E quando o perverso tirou uma corda de sob a camisa, centenas de mãos estenderam-se para auxiliá-lo e um minuto depois o corpo do homem bom já pendia do alto do patíbulo… Não fora em vão o receio do sábio soberano – a forca entrou novamente em uso… 

I.L.Peretz

Opa

scriptu em Existo: talvez. by Djabal Monday April 2, 2007

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Não via a hora de chegar a noite de Natal. A comemoração se fazia na casa de meu avô. Ocasião em que encontrava meu primos, meus tios e o Rex, o pastor (vira-latas) da família. Fazíamos muitas brincadeiras. Coisas corriqueiras que não pertenciam ao meu hábito. Era filho único e vivia sem muito convívio com outras crianças.

 Os primos, as brincadeiras, o jantar e principalmente meu avô eram os objetos de minha curiosidade.Nas brincadeiras com os meus primos sempre me saía bem e admirava o comportamento deles. Era completamente diferente do meu, pareciam estrangeiros. Recebia sempre um grande impacto: eles estavam ou viviam  sempre cercados de carinho e amor. Uma demonstração cabal, expressiva e inequívoca de amor. Não basta o amor natural da mãe; aquele era um amor expletivo, como a nossa comida, absolutamente doce. Nada de mistura era uma gema puríssima. Apenas sabia a doce de leite. A sua mãe era uma pessoa que os tratava com um amor invejável, cujo carinho podia ser cortado em fatias e servido.

Os jogos de dama, loto, xadrez, banco imobiliário serviam para passar o tempo até que chegasse o esperado jantar. Nós brincávamos no jogo, um dos primos não brincava somente, competia também.

Minha avó (Fine)  tinha fama da grande cozinheira da família. Sempre preparava um peixe (arenque) acompanhado de um creme leite azedo com cebolas. Além do peixe sempre tínhamos uma espécie de bolinho de batatas (kartoffellpuffer) deslumbrante, tanto que aprendi a fazer com grande sucesso de público e crítica. Comíamos a sobremesa antes do final da jantar; um purê de maçã divino e um repolho roxo com canela.   Esses pratos eram os primeiros presentes. Do meu convívio solitário passava para um outro completamente diferente a começando pela mistura  do  salgado com o doce, o azedo com o levemente apimentado. O resultado era extraordinário, como tudo que vinha de lá.

O lugar dos presentes e da janta eram distintos. Sentávamos para a refeição, onde o centro das atenções era meu avô (João). Um homem sisudo e de poucas palavras, sempre foi aparentemente distante. Muito trabalhador, não trocava muitas idéias, havia no seu semblante algo que traia o seu tédio nas conversas familiares. Na maior parte do tempo muito sério. Um grande e intimidador bigode que cobria o espaço entre o nariz e a boca escondendo parte do seu charuto. O terno, a camisa e a gravata ajudavam bastante. Mais do que tudo o seu hábito de usar chapéu. Ele dava um toque de nobreza, de majestade, uma coroa em sua cabeça de páter-familias.

Tudo corria às mil maravilhas para mim, perfeito, em total liberdade, não estava subordinado a ninguém, podia fazer o que bem entendesse, distante dos olhares paterno. Era tratado como seu predileto, podia desfrutar daquele sentimento frondoso. O meu lugar era ao seu lado.

Terminado o banquete, sentava-se ao seu colo, na perna direita e me era dado o direito de buscar no bolso interno do paletó, no esquerdo, uma carteira e nela podia pegar o que ele havia separado para mim. Notas novíssimas de um cruzeiro.Em série. Feitas exclusivamente. Sem uso. Afeição materializada.

Tudo o mais ficou para trás. Nunca consegui me lembrar de nenhum presente que ganhei. Lembro-me apenas de um de valor muito elevado que foi trocado por livros no jornaleiro mais próximo de casa. E a cena simples de uma jantar, um sorriso, um bigode, um chapéu, algumas cédulas ficou para sempre.  

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