A ruína.
Dino estava fazendo seu turno.
Ia e voltava percorrendo as ameias em seus passos seguros e impotentes. Num determinado instante percebeu uma pequena reunião logo ali embaixo. Olhou para os lados, sentiu-se seguro para observar a comissão.
Ao observar o fez atentamente. Curioso.
Conversavam, debatiam com muitos trejeitos, vocábulos; um deles possuía uma posição diferenciada dentro do grupo. Logo Dino notou que era aquele que deveria ser o comprador de terra. A comprava e a vendia, após algum processo não conhecido pelos demais. Naturalmente todos desejavam atender aos seus pedidos.
Chegaram à conclusão do preço a ser pago. Todos a possuíam em qualidade igual, mas de quantidades diferentes.
A conversa estava transcorrendo num clima amistoso, simpático até relaxado, mesmo se tratando de negócios.
Dino estava particularmente surpreso com isso.
O momento de tensão apenas se destacou quando se falou em preço, quantidade, valores. O comprador, alto, magro e jovem, óculos de aro fino, fez valer a sua intenção e o seu poderio. A matilha astutamente se fechou; no comum do acordo para fazer o maior preço possível . Ria satisfeita por ter conseguido um sucesso extraordinário numa situação como aquela. As pessoas juntas superaram o poder da maior quantidade de moedas concentradas num único homem.
Infelizmente Dino não conseguia acompanhar os diálogos. A sua posição de sentinela, e horário de turno não permitiam uma maior aproximação, sem que lâmina da punição deixasse de correr sobre seu pescoço.
Só atos sem palavras não alimentariam sua curiosidade. Muitas margens para seu leito de rio seco.
Mandou tudo às favas. Aproximou-se ainda mais, no ponto exata para poder ouvir.
“Bem, depois de tudo acertado, vamos fazer os pagamentos”. “Por favor, apresentem seus punhados.”
Um por um depositando na frente do moço o pedido.
“Está faltando o seu.” Disse o comprador.
“Acabei por me esquecer do meu na minha vila” comentou um homem claro, olhos suplicantes, cabelos em desordem, assim como sua roupa. Um que durante toda a conversa não riu com a mesma intensidade, não lutou com a mesma sanha.”
“Não há nenhum problema. Farei o pagamento assim mesmo.”
“Como?” Perguntou um outro, oriental denunciado - pelos ventos de Gobi através dos séculos – no seu rosto.
“Simples. Muito simples. Vocês são todos amigos, vivem juntos há muito tempo no mesmo lugar de onde a terra vem. Tenho certeza que não teremos nenhum problema com a entrega, afinal de contas.”
“Claro, claro” todos falaram olhando, com censura, para o faltoso.
“Faremos assim: Todos receberão o seu preço menos a parte daquele parte que falta. Assim que Alewar – era esse o seu nome - volte e entregue seu quinhão, receberá seu preço e devolverá o que ficou descontado para todos vocês.”
Olharam intrigados um para o outro. Algo invisível percorreu o grupo intensamente.
Dino não conseguiu saber.
Sabia apenas, por uma dessas coisas da vida, que Alewar era nome gótico e que significava o “guarda de tudo”. Sempre acreditou que o nome do homem era o seu destino. Não sabia porque. Mas sabia.
“Não acredito que funcionará.” Falou o oriental.
“Vocês acham que poderá haver algum problema?” Perguntou Alewar, os seus olhos denunciaram o seu medo.
“Seu avô muito tempo atrás, esqueceu-se de nos trazer uma vasilha de leite que pediu emprestado, lembra-se?” Disse a única mulher presente. Magra, intensa, agitada e trêmula.
“Não me lembro, mas ele entregou, não entregou?”
“Sim, mas depois de muito tempo.”
“Houve algum prejuízo?”
“Sim, o do tempo que tivemos que esperar.” – novamente falou a mulher.
“Sendo assim, resta-me voltar e pegar a terra para fazer a entrega.”
“Parece ser a melhor solução”. Disseram todos, felizes voltando ao clima anterior.
O moço pediu a atenção e roubou a palavra e o momento.
“Estou de passagem. Compro apenas hoje. Amanhã, não mais. Aliás, amanhã só o farei, se o fizer, por outro preço.”
Todos perceberam que o preço seria um preço menor, muito menor, quase vil. E deixaram cada um a sua coisa, receberam o seu preço, com os olhos baixos e satisfeitos.
Dino voltou. Pensativo. E lembrou também de uma frase que lera há poucos dias atrás.
“Tudo o que ganhei e aprendi perdeu-se ao tilintar da colher nos meus dentes.” (Milorad Pavitch).