Imortalidade.
Conversamos pouco nos últimos tempos. Paralelamente aumentava a minha culpa pela ausência. Pelo desconhecimento dos problemas cotidianos que nos afligem tanto e que podem ser resolvidos por um ouvido amigo.
Ouvido que nada pode fazer, mas exerce sua função de válvula de escape.
Mesmo sem conversar não descuidei de observar seu comportamento quando ele vinha à público, através dos seus escritos, artigos, desabafos e respostas. Nesse final de semana soube que sua mãe estava doente, mais que isso hospitalizada com um problema no coração. A maneira de compreender isso tudo não foi instantânea. Primeiro olhei a foto, e não compreendi direito a relação dela com a imortalidade. Logo abaixo vi a legenda. Depois dela o texto, além do texto a resposta que você deu ao Andy, falando de dor. Tudo isso me deixou absolutamente paralisado.
Tudo começou a cair sobre a minha cabeça. Passar o dia das mães no hospital, ao passo que passaria o meu almoçando com a minha?
Talvez esse apenas seja mais um motivo para não acreditar absolutamente em nada que não seja uma amizade. Daquelas profundas e que tenho cultivado ao longo de todos os meus anos.
O que é que posso fazer?
Em primeiro lugar pensei que não deveria fazer nada, apenas cuidar para que tudo corresse bem, não aumentar a dor exigindo respostas que não existem. Quando a sua atenção deveria estar exclusivamente voltada para sua mãe. Esse será o meu comportamento quando passar por um momento análogo.
Coloquei-me logo depois em seu lugar.
Quem sabe isso ajudaria um pouco para carregar o peso dessa carga?
Apesar do alívio que a família dá nesse momento, jamais as diferenças são totalmente apagadas, sempre ficam as pegadas do passado. Nosso pensamento não pára. Eles atravessam os sentimentos e o que resulta, além desse texto, é mais dor, mais dor.
Dessa maneira resolvi que não iria ligar. Nada adiantaria.
Como ficar sem uma palavra amiga?
Como fazer para aliviar a minha dor, presente e futura?
Liguei num ato de egoísmo, apenas para lhe dar um beijo nessa ferida que se alastrou rapidamente pelo corpo todo. Para que eu pudesse também beijar minha mãe e esquecer de tudo o mais. Não sei consegui ajudá-la. Ajudei-me.
Hoje li que você comprou um cadeado, quebrou suas unhas trancando o seu galpão de pintura , numa atividade inútil diante de tudo o mais. Mais uma vez o cadeado.Fechado.Difícil de ser atingido.
Presa fácil para os ladrões, mas impossível para os outros.
Aqui estamos na segunda feira. Eu, feliz, por saber que sua mãe está ‘confortável’.
Sempre estarei ao seu lado.

