Do Palácio dos Sonhos ao Ar Enamorado

scriptu em Acaso Sinto?, Penso? by Djabal Thursday May 17, 2007

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Nunca fui de sonhar. Dormindo ao menos. Sonhei sempre acordado. Fui vítima de uma espécie de inversão. Enquanto dormia sonhava com problemas desagradáveis, com conflitos, com a rotina mortífera do trabalho. Com a estupidez que me cercava.

Portanto diante disso sempre acordei para sonhar. Sonhar com meus amigos, meus livros, sonhar com a compreensão entre as pessoas. Com a nossa origem comum. Em como fazer para juntar os pedaços dos humanos modernos que somos. Desregrados e despedaçados.

Esse poder do sonho, sempre foi utilizado com  muito cuidado para evitar acusações gratuitas de romantismo, ingenuidade, lirismo infantil ou bobeira mesmo. Venho de um ambiente que sempre valorizou muito as opiniões alheias e esse hábito ficou.

Ficou e foi se modificando, para uma surdez virtual. Passei a ouvir e não mais respeitar, hoje consigo praticar a audição muda.

Vejo apenas os movimentos dos lábios e aceno levemente com a cabeça, dando a impressão que concordo, quando apenas faço uma alusão como uma despedida.

Encontrei alguém que me mostrou claramente toda a extensão dos sonhos humanos, um novo e explicado lado dessa questão.

Os Khazares, povo que existiu por volta do século oitavo da nossa Era e viviam sob a hegemonia do sonho. Possuíam caçadores de sonhos, pois da soma de  cada sonho humano se formava a imagem integral do homem, conhecido como Adão, que foi decomposto em milhões de pedaços.

Cada sonho humano consiste numa peça de um gigantesco quebra-cabeça, que formará quando completo a imagem e o corpo do nosso ancestral comum.

E nos confins da velha Europa, existe alguém que reconheceu essa história como algo que contribuirá para a construção de uma nova espécie, mesmo que dois ou três mil anos depois. Quando o homem tiver olhos para ver.

Se por um lado fiquei tão feliz por reconhecer uma pessoa tão igual, com pensamentos tão parecidos, e com o mesmo tempero como ele mesmo diz: “Os atos na vida de uma pessoa são como alimentos e os pensamentos são como um tempero”.

De outro estava em débito com os meus semelhantes. Os meus sonhos eram como os narrados no Palácio dos Sonhos do Ismail Kadaré, sonhos angustiantes que davam material de análise para os funcionários. Funcionários cuja função era a de evitar rebeliões.

Isso ficou na minha cabeça por dois dias após o término da leitura. Pensava e pensava, lia e relia, encontrava outros pontos de contato, histórias como a adesão desse povo a uma nova religião. Ora eram os muçulmanos que apregoavam a sua sabedoria e teriam conseguido a adesão do povo Khazar, ora eram os cristãos que chamavam para si a responsabilidade da conversão, ora os judeus. Enfim, todos os povos queriam para si aquela herança, queriam transformar-se com aquele saber numa outra realidade.

Além dessa espinha dorsal que imagino, ser a principal do livro, menciono a quantidade praticamente inesgotável de histórias, parábolas, alegorias e metáforas, todas sem exceção belíssimas e que dão um recheio de plumas para aquele dicionário que funciona como uma fronha para os novos sonhos.

Nesta última segunda, após uma cansativa maratona de visitas, confabulações, tive a mesma rotina do sonho. Um vendedor tentava sob todas as formas me convencer a adquirir um carro antigo, pelo seu revolucionário combustível, possibilitando uma velocidade absolutamente incrível a despeito de tudo. Eu estava indiferente a tudo isso, por não ter nenhuma atração pela velocidade.

Deitado na beira de uma espécie de pista de corridas que lembrava o traçado de Interlagos de um lado e de outro lado ficava a represa. Entediado com a demonstração e a conversa, me virei para olhar para a água. E dela veio surgindo, uma grande massa de ar, não rarefeito, mas uma massa de ar que se parecia com uma nuvem imensa. Corpórea, rechonchuda vinha se aproximando de mim. Fiquei numa expectativa, numa dúvida sobre o que fazer?

Afinal de contas era apenas uma nuvem imensa, sair por que?

Não havia mesmo tempo para mais nada.

E ela se aproximou e me assaltou inteiramente. Respirei aquele ar gelado, não era rarefeito, possuía uma materialidade desconhecida que me dominou inteiramente. Essa sensação de euforia me dominou. Tudo mais desapareceu e fiquei ali respirando, me alimentando dessa imensa quantidade que não se podia medir e muito menos refletir, apenas aproveitando o momento. Para que eu ficasse inteiramente pleno e completo daquele combustível aéreo. Consegui neste momento compreender o significado integral de ‘Pó enamorado’ que veio das ruínas da Biblioteca de Alexandria. Tive o meu Ar enamorado que veio das ruínas do pensamento do povo Khazar.

Acordei num verdadeiro êxtase.

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