Peixe
Para um leitor anárquico como eu, é muito difícil encontrar numa fiada só sem interrupção, uma série de lindos livros. Geralmente alternamos entre bons, maus, médios; pretensiosos, humildes e intermediários. Raramente deixo um livro pela metade. Muito raramente perco a esperança de um autor se encontrar no meio do caminho, ou mesmo que ele se perca no meio, sigo até o fim para encontrarmos o caminho conjuntamente. Assim a leitura que é sempre um prazer, num determinado instante se torna um dever cívico. Devo terminar, não é justo deixar o escritor no meio de sua caminhada. Não farei com ele o que não gosto que façam comigo.
É isso. Épico. Romântico.
Nesses últimos dias fui sendo invadido por uma boa onda, uma onda de otimismo, pelo fato de encontrar tanta gente me ajudando a desvendar coisas. Pessoas que enfrentavam problemas parecidos e davam respostas absurda e totalmente diferentes das minhas. Melhores.Por outro lado temos que levar em conta a coincidência, o destino, a conjugação; de tudo acontecer ao mesmo tempo. Algo ou alguém bate à sua porta. Chama sua atenção. Caem as escamas dos seus olhos, é invisível até que você veja.Devo prestar uma homenagem à Milorad Pavic (Pavicht) e ao seu dicionário Kazar. Esse dicionário foi resultado de uma busca. Busca do Mário Benedetti e a Trégua. Não o encontrei, naquele momento (ele estava lá, mas não o encontrei). Encontrei o Milorad. Imediatamente lembrei-me das crônicas e resenhas da época, que diziam muitas coisas sobre a sua obra, inclusive que possuía a versão masculina e feminina. Que ambas se completavam pela leitura diferente de um determinado trecho. Eu havia comprado ambas.Depois de Amós Oz, Evelyn Waugh, Marcel Schwob, Giorgio Manganelli, Farid ud-Din Attar, Bruce Chatwin e Erri de Luca, não sabia o que fazer para não comprometer o meu prazer.A leitura diária e matinal, que faço do Fernando Pessoa do Desassossego, como uma espécie de antídoto à melancolia que causa um livro desajustado a mim, estava sendo desnecessária nessas semanas todas. Resolvi deixar à critério da sorte. A frustração momentânea do Mário fez cair em minhas mãos o Milorad. E foi uma alegria incontida.
Um texto saboroso, inventivo, desde a estruturação até a leitura. As propostas são inovadoras. Ele é um professor de literatura que tem uma bagagem e uma maneira de contar histórias que prende você. De fato, parece que esse servo-croata tem mais de mil anos.
Essa história é uma continuação de outra que já publiquei, e talvez servirá para aplainar o meu entusiasmo e não aborrecê-los. Hoje estou visitando Istambul de Orhan Pamuk, e a sua cidade dá uma imagem de grandeza e decadência que nos é bela, belíssima. Uma cidade atravessada pelo Bósforo, uma ligação entre Ocidente e Oriente, que já foi cantada por muitos. E com essa visita felizmente não interrompi a minha seqüência da fortuna.
O meu próximo escrito deverá vir de Las Vegas, preparem-se.
