Laranja Sangüínea

scriptu em Escrito pelas estrelas by Djabal Tuesday May 15, 2007

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Seu espelho é um sagaz

lhe conhece poro a poro

lhe desenruga o cenho

bem lhe quer

 

lhe pule as faces

lhe despenteia os anos

ou lhe olha nos olhos

bem lhe quer

 

lhe depura os gestos

lhe põe o sorriso

lhe transmite confiança

bem lhe quer

 

até que sem aiso

sem pensá-lo duas vezes

se solta do prego

lhe destroça.

Mário Benedetti, através de Julio Luís Gehlen, in Antologia Poética

A ruína.

scriptu em Existo: talvez. by Djabal Thursday May 10, 2007

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Dino estava fazendo seu turno.

Ia e voltava percorrendo as ameias em seus passos seguros e impotentes. Num determinado instante percebeu uma pequena reunião logo ali embaixo. Olhou para os lados, sentiu-se seguro para observar a comissão.

Ao observar o fez atentamente. Curioso.

Conversavam, debatiam com muitos trejeitos, vocábulos; um deles possuía uma posição diferenciada dentro do grupo. Logo Dino notou que era aquele que deveria ser o comprador de terra. A comprava e a vendia, após algum processo não conhecido pelos demais. Naturalmente todos desejavam atender aos seus pedidos.

Chegaram à conclusão do preço a ser pago. Todos a possuíam em qualidade igual, mas de quantidades diferentes.

A conversa estava transcorrendo num clima amistoso, simpático até relaxado, mesmo se tratando de negócios.

Dino estava particularmente surpreso com isso.

O momento de tensão apenas se destacou quando se falou em preço, quantidade, valores. O comprador, alto, magro e jovem, óculos de aro fino, fez valer a sua intenção e o seu poderio. A matilha astutamente se fechou; no comum do acordo para fazer o maior preço possível . Ria satisfeita por ter conseguido um sucesso extraordinário numa situação como aquela. As pessoas juntas  superaram o poder da maior quantidade de moedas concentradas num único homem.

Infelizmente Dino não conseguia acompanhar os diálogos. A sua posição de sentinela, e horário de turno não permitiam uma maior aproximação, sem que lâmina da punição deixasse de correr sobre seu pescoço.

Só atos sem palavras não alimentariam sua curiosidade. Muitas margens para seu leito de rio seco.

Mandou tudo às favas. Aproximou-se ainda mais, no ponto exata para poder ouvir.

“Bem, depois de tudo acertado, vamos fazer os pagamentos”. “Por  favor, apresentem seus punhados.”

Um por um depositando na frente do moço o pedido.

“Está faltando o seu.” Disse o comprador.

“Acabei por me esquecer do meu na minha vila” comentou um homem claro, olhos suplicantes, cabelos em desordem, assim como sua roupa. Um que durante toda a conversa não riu com a mesma intensidade, não lutou com a mesma sanha.”

“Não há nenhum problema. Farei o pagamento assim mesmo.”

“Como?”  Perguntou um outro, oriental denunciado - pelos ventos de Gobi através dos séculos – no seu rosto.

“Simples. Muito simples. Vocês são todos amigos, vivem juntos há muito tempo no mesmo lugar de onde a terra vem. Tenho certeza que não teremos nenhum problema com a entrega, afinal de contas.”

“Claro, claro” todos falaram olhando, com censura,  para o faltoso.

“Faremos assim: Todos receberão o seu preço menos a parte daquele parte que falta. Assim que Alewar – era esse o seu nome - volte e entregue seu quinhão, receberá seu preço e devolverá o que ficou descontado para todos vocês.”

Olharam intrigados um para o outro. Algo invisível percorreu o grupo intensamente.

Dino não conseguiu saber.

Sabia apenas, por uma dessas coisas da vida, que Alewar era nome gótico e que significava o “guarda de tudo”. Sempre acreditou que o nome do homem era o seu destino. Não sabia porque. Mas sabia.

“Não acredito que funcionará.” Falou o oriental.

“Vocês acham que poderá haver algum problema?” Perguntou Alewar, os seus olhos denunciaram o seu medo.

“Seu avô muito tempo atrás, esqueceu-se de nos trazer uma vasilha de leite que pediu emprestado, lembra-se?” Disse a única mulher presente. Magra, intensa, agitada e trêmula.

“Não me lembro, mas ele entregou, não entregou?”

“Sim, mas depois de muito tempo.”

“Houve algum prejuízo?”

“Sim, o do tempo que tivemos que esperar.” – novamente falou a mulher.

“Sendo assim, resta-me voltar e pegar a terra  para fazer a entrega.”

“Parece ser a melhor solução”. Disseram todos, felizes voltando ao clima anterior.

O moço pediu a atenção e roubou a palavra e o momento.

“Estou de passagem. Compro apenas hoje. Amanhã, não mais. Aliás, amanhã só o farei, se o fizer, por outro preço.”

Todos perceberam que o preço seria um preço menor, muito menor, quase vil. E deixaram cada um a sua coisa, receberam o seu preço, com os olhos baixos e satisfeitos.

Dino voltou. Pensativo. E lembrou também de uma frase que lera há poucos dias atrás.

Tudo o que ganhei e aprendi perdeu-se ao tilintar da colher nos meus dentes.” (Milorad Pavitch).

Cristal Aperiódico Gigante

scriptu em Penso? by Djabal Wednesday May 9, 2007

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 “Seriam necessárias cerca de duas mil páginas para mostrar a cadeia básica de uma única célula E.coli e cerca de um milhão de páginas para mostrar a cadeia básica do ADN de uma única célula humana.” in Gödel, Escher, Bach, de Douglas Hofstader, pág. 190. 

Como será possível descobrir o entrelaçamento do dialeto ladino com os retres romanos ou germânicos ou do Sacro Império Romano Germânico?

Começo dizendo que a boa acolhida, a busca da tolerância entre todos os povos gera um florescimento indescritível da cultura, da economia, da técnica. Gera uma prosperidade imensa.

O grotesco da história toda é apesar do descomunal desenvolvimento tecnológico que o homem alcançou, essa pequena verdade é impossível de ser colocada em prática, a não ser em determinados períodos.

 Pequenos períodos, frutíferos períodos, que logo, logo, se perdem nas noites dos tempos. Como se perdeu aquela presença, com a forma de um  lugar, aquele buraco na poltrona em que nosso pai moldou ao  se sentar para ler.Como se perdeu o ladino e se perdeu o iídiche. Idiomas ou dialetos próprios de um povo que num determinado momento convivendo com outro se fundiu de uma maneira criando uma língua onde se expressava a fusão do seu passado com o seu presente.

Devemos aos árabes o conhecimento sobre a  civilização grego-romana. Após a queima da Biblioteca de Alexandria, tudo que nos restava de memória escrita foi destruído. Originais de Aristóteles, de Platão, de Plotino, e de muitos outros se perderam.Vários foram os motivos. Várias as circunstâncias. Nenhuma explicável.Felizmente os povos árabes conseguiram avaliar a importância daqueles pensadores. Conseguiram imaginar a sua importância e originalidade. Fizeram a tradução para o árabe de tudo isso. Com competência, regularidade e curiosidade.

Curiosidade que, felizmente, também é humana. Muito humana.Por obra e graça do Mediterrâneo os árabes carregaram isso consigo até a Espanha.A península Ibérica acolheu integralmente esse povo e o entrelaçamento entre as culturas se tornou algo diferente, algo totalmente peculiar. O Magreb (Ocidente) passou a ter o seu lugar na civilização árabe, até então totalmente voltada e ensimesmada no Oriente Médio e seu cotidiano.Desse acolhimento e dessa bonomia floresceu a cultura árabe. Cultura que se extraiu de uma força econômica considerável. A abundância dos árabes sempre foi compartilhada por seus primos-irmãos os judeus. Esses povos sempre se respeitaram e trabalhavam ombro a ombro.

A abundância gera o ócio.

O ócio produtivo se dá na indagação dos problemas do homem. E nos problemas do homem, o melhor a se fazer é buscar a experiência dos antepassados.

Ócio que poupa o esforço de se chegar ao mesmo resultado pensando.E não foi por mágica que somente quem conhecia o árabe, o grego e o espanhol, poderia fazer a leitura e tentar uma tradução daquele tesouro cultural.E os primos judeus que sempre se dedicaram à leitura e à reflexão se incumbiram de assim o fazer.E devemos esse resgate a essa época.

Época de bonomia.Época de congraçamento, que foi considerada por todos aqueles que li e freqüentei como o apogeu da cultura árabe, o apogeu da cultura judaica. Apogeu que ainda não foi toldado por nenhum outro período. Gerou Avicena, Averrois, Maimônides e outros grandes que a memória e a ignorância não me faz repetir, como se isso pudesse provar algo a mais.

Com as traduções e as tradições se forjou um idioma próprio o Ladino. Língua que homenageava a sociedade em que se vive, e não permite esquecer as tradições que a sua cultura legou.  Esse misto de hebraico, árabe e espanhol é, talvez, a maior prova da conciliação dos homens, do resultado de ser bem quisto, amado e respeitado.

 Os séculos forjaram comerciantes, cientistas, banqueiros, escritores, diplomatas, filósofos, árabes e judeus.Num determinado momento, momento de crise, de escassez, de expurgo, todos aqueles diferentes foram expulsos. Sem pão para repartir é muito difícil fazer prevalecer o bom senso.E os banqueiros, filósofos, comerciantes judeus foram expulsos para Milão, Florença, Veneza e Amsterdã. Levaram consigo sua língua. Levaram suas histórias e suas técnicas.E por mais que se tente ficar com o tesouro de alguém, não se consegue ficar com o ensinamento.

E o cesteiro que faz um cesto fará um cento.Do norte da Europa e do norte da Itália, os judeus erraram até o Império Otomano. Encontraram casa e comida. Encontraram acolhimento.Contribuíram para o florescimento e crescimento daquele império. Tornaram-se além de tudo soldados, condes. E repetiram coletivamente a história de José e seus irmãos. Não tinham motivos para esquecer de sua língua e de suas histórias.Conheceram o café  e o exportaram para o Ocidente. Lutaram para conquistar os Bálcãs para Selim, o Magnífico, para Suleiman e  Saladino. Fundaram grandes comunidades na Romênia, Bulgária, Trácia e Romélia, assim afora. Falando o seu idioma. Conviveram intensamente com os restos do Grande Império Romano Germânico, que talvez existisse apenas num pedaço de papel.

Para lembrança das glórias passadas e agora inexistentes. Império que gerou os retres. Retres que lutaram por cama e comida, para defender os príncipes germânicos contra os católicos espanhóis. Príncipes que adotaram Martinho Lutero como líder espiritual. Príncipes que descendiam dos godos e visigodos e que de sutil tinham apenas os cabelos e olhos claros, pouca experiência a vida havia dado. Experiência apenas como guerreiros.

E quem sabe se esses guerreiros, retres, um dia tomaram conhecimento do ladino, falado por aqueles soldados?

Quem sabe aqueles soldados descobriram por conta própria que a guerra não é natural do homem e é motivada por valores estranhos?

Tomaram conhecimento duma nova língua, novos valores e nova cultura e passaram a dividi-la conjuntamente?

Infelizmente só posso terminar a questão com perguntas.

Por essas perguntas e esses entrelaçamentos é que fiz a epígrafe desse texto. Muito temos ainda que aprender para saber o quanto somos e sempre seremos ignorantes.O que vale e sempre valerá, indepentemente do conhecimento, é o otimismo.  

Orfeu

scriptu em Existo: talvez. by Djabal Wednesday May 9, 2007

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Em uma época antiga, muito antiga,  reinou um cidadão chamado Orfeu. Tinha uma característica muito especial: era poeta,  tocava e cantava . Não somente isso, encantava a todos com seu canto, conseguia dominar abas, mares, mores e rores. Amor pegou - intolerante, tórrido - por  Eurídice, além de belíssima, filha de semideuses. A sua beleza clássica e plácida,  perene como o eterno, sem ser esguia ou alta; jamais foi valorizada pelo senso comum, que tanto lá como cá, admira as danações dos excessos e as carnações fulgurantes.Conta essa época que Eurídice por uma disputa de beleza com outras mulheres do mesmo valor que o seu, acabou ganhando o Estige como prêmio. Nessa época governado por um casal chamado Hades e Perséfone. Tamanho era o amor de Orfeu; o sentido da solidão, doença imaginária , mais fatal que uma real – sim,  porque, era definitiva,  e como tal não contava mais o tempo; que munido de uma harpa desceu à terra dos mortos e clamou e poetou e tocou para ambos, declamou histórias velhas e novas, contou fatos de heróis e hilotas, até convencê-los de levar sua mulher consigo. Entretanto, disse Perséfone:- Retire sua mulher daqui, renasça com ela. Desde que, ao sair, siga nesta direção, apontando uma estrada luminosa, e não se volte para trás até  terminado o seu caminho. Fique tranqüilo,  sua mulher o acompanhará. Seguiu, refletindo e conclui que, sua habilidade havia resgatado o que de mais importante existia para ele. Finalmente, poderia voltar a desfrutar do amor de Eurídice. Tão importante para ele; que o completava tanto. Foi refletindo também na maldade de Perséfone. Como alguém poderia julgar dessa forma, e só por um “dá-cá-aquela-palha”, mandar a outra para inferno, para purgar o resto dos seus dias.De resto não poderíamos chamar  de simples maldade, o que apenas era uma retaliação, por um comportamento que a afrontava. Se o fosse tão ruim ela não estaria lá, aparentemente satisfeita com sua situação.E pensava e pensava, e deixava que outros pensamentos invadissem sua mente, enquanto andava pela estrada afora, segundo a direção indicada. Assim como os caminhantes da planície de Maratona se esgotavam ao terminar seu percurso, o pensamento submetido ao mesmo tratamento se esgota com conseqüências nefastas para o seu detentor.Até que num determinado instante, de uma desconfiança na capacidade de julgamento dela, acabou duvidando de sua palavra. Ora, se ela manda alguém para o inferno, é claro que ela não deixou minha Eurídice me acompanhar, me fez de tolo, está querendo é me pegar, me iludir. Voltou-se para se certificar de suas corretas conclusões e conseguiu divisar a sua querida figura acabando de lhe voltar as costas, caminhando na direção oposta. Tomado de desespero voltou para o inferno, e por mais que declamasse, cantasse, tocasse, não conseguiu demover Hades e Perséfone de sua palavra.

Memórias

scriptu em Escrito pelas estrelas by Djabal Monday May 7, 2007

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“Talvez todos os nossos amores sejam apenas sinais e símbolos; palavras soltas rabiscadas nos mourões e calçadas ao longo da árdua estrada que outros palmilharam antes de nós; talvez eu e você sejamos símbolos também, e essa tristeza que às vezes surge entre nós nasça de uma desilusão em nossa busca, com nós dois forcejando para ver através e além do outro, aqui e ali surpreendendo um vislumbre da sombra que sempre desaparece ao dobrar a esquina um ou dois passos adiante de nós.”

Evelyn Waugh, in Memórias de Brideshead, através de M. Alice Azevedo.

De onde e para onde

scriptu em Existo: talvez. by Djabal Friday May 4, 2007

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De fato, tudo que tenho escrito ultimamente, não sei exatamente o porquê, talvez esteja melhor, ou mais aberta, ou mais tranqüila; tem estado de acordo com o que sou, penso ou ajo.

É bom ler isso tudo, é como se estivesse escrevendo para mim mesmo, e ter como resposta novos ângulos, e com outra perspectiva abrir novos caminhos, e quem sabe com essas palavras ter um ensinamento da vida que valha a pena como guia.

Apesar do tom dubitativo escrevo para afirmar que somente com as palavras que vem do seu próprio eu, da sua própria experiência, palavras do âmago, que se consegue trilhar alguma coisa de útil.Os ensinamentos dos outros são bons, as palavras que outros ditam e escrevem são ótimas, mas, sempre existirá um mas, não nos ajudarão, por inteiro.

O processo é mais ou menos o seguinte: Sempre que precisarmos da memória para explicar alguma coisa, ou para rememorar algum ensinamento, estaremos praticando algo que provem do intelecto. Memória é a sua maior manifestação.E o que provem do intelecto serve muito bem para o dia-a-dia, para os negócios, para a vida prática, enfim.

Para a vida interior, para a vida emocional, essa sofisticação não é quase nada, torna-o mais sensível a determinados fatos, a determinados comportamentos, mas não dá, deu ou dará experiência sentimental, que é aquilo que escreveu sobre o primarismo de meu comportamento.

Ligarmos um fato a um ensinamento e tirarmos alguma conclusão é um intelectualismo.

E ele poderá falhar, por problemas de compreensão, de adaptação, não pertencerá jamais a nós mesmos. Estamos montados em cavalos alheios. Obedecem ao nosso comando, mas se o  dono assobiar ele nos derrubará para atender àquele que o chama e o ensinou.

O fato de ler, de ouvir e contar tantas histórias, de praticamente me intoxicar de tantas palavras, tem como missão dar a minha alma ao meu interior, tudo que existe disponível, para que ele escolha aquilo que ficará como aprendizado.

A busca dos meus antepassados, é algo que sempre me fascinou e intrigou, saber qual o destino do homem, saber e conseguir identificar o meu semelhante eu consegui.A diversidade de pessoas que coexistem em mim sempre me chamou a atenção. Aquele que escreve agora e que talvez venha em sua memória ao ler, é muito parecido com aquele que esteve em reunião ontem com o pessoal para fazer um negócio, mas apenas é parecido, quase não têm nada em comum, a não ser a aparência.

E isso é decorrente talvez dos diversos povos que formaram o meu caráter, das diversas andanças que tiveram que fazer ao longo do mundo para acabar desaguando em mim.Aonde vou?Aonde vamos?É uma outra pergunta fundamental, cuja resposta , cuja esperança  de encontrá-la, está quase no fim.O destino da humanidade parece ser o da ignorância.Procurarei deixar o meu legado, o legado da esperança no conhecimento, da crença no homem, apesar de tudo e de todos. Essa é a minha missão final.E isso é realmente importante.

Melhor dizendo é o que me coube nesse latifúndio todo.

É minha cota de contribuição.O que me incomoda realmente é a impossibilidade quase total de poder ensinar meu filho, tê-lo como companheiro de todas as horas, e essa conseqüência, totalmente imprevista pela razão, é o que me incomoda muito. Ver nos olhos de meu filho, apenas o comportamento de sua mãe, apenas a sua maneira de agir, me entristece muito. Por saber o que ela está passando, o que está sofrendo e o que está intuitivamente ou não legando ao seu menino, o tornará sua continuação. Algo como um filho de mãe solteira. Tenho que confessar ser um estranho próximo ao Erich. Aquilo que foi um estranhamento para mim, a sua chegada assim, de maneira tão brutal quanto imprevista, foi entendido e visto como desamor.E é esse o preço que pago.Isso me angustia.Mesmo que não fosse assim, o meu comportamento com você é exatamente igual ao comportamento que tenho com todos, portanto, por absoluta incapacidade de ser claro, direto, e de demonstrar com sabedoria meus sentimentos sempre me sentirei afastado, excluído.A idéia do sêmen como condutor de meu código de conduta e de seu decodificador.A idéia do sêmen como o verdadeiro legado dos citas, fenícios, árabes, portugueses, visigodos, suevos, francos, suecos, holandeses, alemães, nobres e vassalos, emigrados e bandeirantes, é a prova da minha maior incompetência, a incompetência de comunicar o vasto emaranhado de emoções que ficarão deslizando em minha mente a procura do verdadeiro pescador.

Quem sabe um dia existirá um pescador. Que saberá empunhar a vara, calçar os chinelos, e esperar à margem a sua hora. Que tenha paciência para ver o fluir do tempo ? Para encontrar as respostas daquilo que seu antepassado tanto buscou, confundindo a tudo e a todos como um simples curioso à toa?

Quem sabe…? 

 

A porta

scriptu em Escrito pelas estrelas by Djabal Thursday May 3, 2007

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Quem atravessa a porta da única parede de uma casa em ruínas é como se passasse para o Outro Mundo.

Mário Quintana, in Porta Giratória

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