Vó Chiquinha

scriptu em Existo: talvez. by Djabal Tuesday June 5, 2007

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Comecei o dia ouvindo Verdi. Uma ode à vida. Nada melhor para começar as coisas novamente. Ontem, de fato, tive um dia memorável. Interessantes - talvez fosse mais correto dizê-las extravagantes - as sensações que experimentei. Saí cedo de São Paulo, para cumprir um dever de amigo, solidarizar-me com um amigo de quase trinta anos (o tempo passa mui rapidamente chiquita, “muy” rapidamente), amável, sempre trabalhou no campo, por vocação extrema. Filho de agrônomo é responsável pela administração de fazendas, várias delas, todas familiares, e gosta muito de fazer isso.  O Zé Ernesto e eu nos encontramos pela primeira vez na GV, numa sala de aula, ele chegando atrasado, estabanado, esbaforido, quis apesar de tudo, entrar discretamente e chutou longe as minhas bengalas que sem que ele percebesse estavam em seu caminho. E o barulho que isso fez, não é preciso dizer qual foi.Ele todo vermelho, pediu-me:- Desculpe-me!- Não tem a menor importância, elas não ligam, e para elas isso não é dolorido, pode estar certo!Imediatamente abriu um sorriso franco, claro e luminoso, seguiu adiante, até o próximo intervalo, quando passamos a conversar com calma.

Daí nasceu uma forte amizade, fruto de não sei bem o que, creio que o seu caráter e principalmente a sua alegria, sempre direta, sem remorsos, ressentimentos, amarguras, algo diferente do que já havia até convivido, eu que sou de uma família fechada, melancólica e perturbada pelas culpas, reais e imaginárias, não poderia compreender facilmente como uma pessoa poderia ser tão alegre. Imediatamente associei ao fato de ele só poderia ser algum ente santificado, que não cometeria jamais nenhum pecado, nenhuma ilicitude e, portanto, estava sempre alegre. Sempre satisfeito. Achei a expressão exata:Aprendemos na escola que a energia é um grande problema para o homem, pelo fato de nós não conseguirmos armazená-la. Temos que utilizar aquela que está disponível naquele momento.

 Pois bem, o Zé tem o mesmo problema com a alegria, ele não consegue guardá-la, para a utilizar a melhor maneira possível.Não, ele a usa quando ela está disponível. Não tem vergonha disso. É um vitral.Dessa forma, pude constatar a conseqüência da admiração que senti do Osman Lins; ele é o melhor exemplo da impossibilidade de se armazenar alegrias.Ultimamente nos vimos mais raramente, por diversos fatores, o maior é a roda viva. Ele está ligado a Pinda. Lá é o seu lugar, e combinamos de fazer uma festa faz alguns meses. Festa impedida por um problema de saúde, que depois se mostrou menor que a minha preocupação. Uma esofagite muito forte o impediu de comer e perdeu muito peso. Essa perda repentina assusta a todos, principalmente a mim. Pois bem, o churrasco foi cancelado. E pensei que a doença teria sido reflexo da perda de sua irmã, de seu pai e seu sogro, todos num pequeno período de tempo e numa seqüência impiedosa. Parece calculada. Telefonei-lhe nesta semana  e soube que além de tudo havia ocorrido um acidente fatal com seu filho. O Rodrigo havia sido objeto de uma conversa em nosso último encontro, onde ele contava as loucuras derivadas da mocidade do filho. Um neto que ele lhe deu, mesmo que sem nora. Ou melhor, sem uma nora fixa. Já que a mãe do menino foi de impossível convivência.
Nada disso importava, a nora , a convivência, o importante era e é Maria Eduarda. Uma linda criança, que sabe contar até dez, apesar de ter apenas dezessete meses de idade !

Como ele é coruja, pensei. Babando sobre a criança. Será que existe babador para velhos? Contava com admiração do tamanho do filho, que é um exímio ferrador de cavalos. As paixões da família são esses animais, os tem da melhor raça, com o mais apurado espécime de cada uma delas. Tratados como outras crianças. Ele se dedicava a colocar ferraduras e tratar das patas dos animais, e para isso é necessária uma força brutal. Para lidar e lutar contra a intransigência dos bichos que, obviamente, sentem-se ameaçados por ele, apesar de todo carinho.- Rodrigo numa ocasião que ficou sem poder trabalhar alguns dias contou-me que estava com um murro entrevado no braço! .

“Ara” emendei, “pode soltar, qual o problema”?- Aqui mesmo, pai?- Onde haveria de ser, filho?Dito isso o rapaz soltou com vontade o seu braço como se fosse um aríete na coluna central da choupana onde estavam, e num átimo o telhado gemeu e veio abaixo derrubado por falta de apoio daquele então apoio vertical.Com tudo isso em mente é que saí daqui.
Como será que encontrarei o Zé?
Que situação difícil, que coisa mais antagônica. A repulsa que a situação causa, e a atração que a amizade pede, demanda.Chegando a Pinda, as coisas foram adquirindo um tom mais cinza, mais gris, mais apavorante, até que deparei com ele.Magro, o rosto macilento, sem que se pudesse notar o rosado da pele, contrastando com o negro dos cabelos, agora brancos, bem mais brancos. Roupa de vaqueiro, trabalhando na construção de uma cerca, calculando com um peão, da quantidade de arame, da quantidade de aroeira necessária, e tudo o mais. Chegamos e trocamos um longo, apertado abraço. - Tira o paletó, pediu, entra.Sentamo-nos e conversamos como se nada houvesse acontecido. A única coisa que tinha para dar era a minha presença. Nessas horas lembrei do Nelson Rodrigues que acreditava em deus quanto estava com asma. Essa era a minha asma. Deu-me uma vontade incrível de acreditar em deus, e com ele resolver a dor que via no Zé. Pena que para ele isso não seria conforto também. Nisso éramos bastante parecidos. Ligados a terra, ele de maneira produtiva, eu de maneira inócua, por não poder sonhar.

À medida que conversávamos a coisa foi se modificando e ele conseguiu falar um pouco da presença do filho, e não da sua falta, e como que movido por um curto circuito,   disse:- Coisas boas hão de vir pela frente, caso contrário eu não estaria mais aqui.É inacreditável o efeito que isso causou em mim.

Que iluminação, que inteligência e otimismo numa situação cachorra como essa.Contou que reuniria a família, os filhos demais, que estavam longe, voltariam para a casa paterna e ele faria um campo de treinamento para animais para um, algo para o outro, e com a ajuda da esposa, que cuidava do gado, tudo iria recomeçar. Graças ao que havia acontecido, por esta mensagem que ele recebeu do acidente do filho é que tudo iria melhorar. O lugar do Rodrigo à mesa seria ocupado por quem quisesse, já que ele - Rodrigo - antecipadamente autorizara, isso no dizer do Eduardo, o filho mais velho, que abraçado ao pai recomendava que ele fosse o primeiro a testar a verdade do que dizia, assim que fizeram a primeira refeição juntos.

Essa era a nossa conversa quando ouvi um murmúrio qualquer das meninas que nos serviam um café bem quente. Murmúrio feito ao pé do ouvido do Zé. Apresentou-me sua mãe de criação, uma senhora negra de rosto tão anguloso quando bondoso. Alertou-me que ela iria direto para o inferno, visto que era muito boa de coração, porém fumava como uma chaminé. -E pessoa que fuma vai para o inferno, não vai? - piscando-me um olho.- Claro, sem a passagem obrigatória pelo purgatório. Descerá para o inferno como um rojão. Esquecendo-me por um momento da imbecilidade da imagem. Rojão desce?- Quero apresentar-lhe a Vó Chiquinha. - tascou o Zé - Vó, a senhora vem para cá ou quer ficar em sua salinha ?Ela já se encaminhava, de braços com outro amigo comum, e imediatamente chamou-me a atenção a sua figura. Batia, por assim dizer na coxa do Rui, esse nosso amigo. É bem verdade que o Rui é muito alto. Mas a fragilidade de sua imagem ficou muito mais patenteada com o contraste.Caminhava num passinho miúdo, aquele passinho que as damas chinesas possuíam graças às terríveis deformações pelas quais passavam os seus pés, todos enrolados com faixas apertadíssimas, a fim de proporcionar um andar feminino no fundo e na forma.Pele alvíssima, quase sem nenhuma marca da idade. Cabelos brancos, e um rosto carinhoso.A única coisa que denunciava a sua idade era seus óculos. Óculos que tornavam seus olhos desproporcionalmente grandes. Algo que sempre associei aos males da idade.Sentados, conversamos muito. Recebeu-nos como uma grande dama. Fazia o papel da esposa que não tinha condições de estar conosco. Falamos de vários assuntos, procurava sempre saber de algo a meu respeito, para logo em seguida elogiar ou a minha ascendência, ou a de meus pais. Agradecia muito a minha visita. Estava feliz por saber que o neto contava com tão boas amizades.Ela que fazia tanto para ele, se preocupava tanto com o seu estado. E tornava a olhar com tanta dedicação ao neto. Dizia-me assim que ele saia do recinto, que ele era o filho que ele mais gostava.- Claro que ele gosta de todos, não mais de um do que de outro. Mas a vida reserva para gente muitos mistérios, meu filho. Existem pessoas que nos chamam que nos prendem. Quando fui professora existia em toda sala o meu preferido. Não era o mais limpo, o mais inteligente, o mais bonito, nada disso. Era algo inexplicável. Algo que encontramos num ser e que nos aproxima dele, mesmo que não saibamos o porquê, precisamente, a causa daquela comunhão. Pois é, assim era o Rodrigo com o Pai. Ambos se queriam e andavam por aí, sempre juntos, o mesmo jeito de um e de outro.  Ah fico tão preocupada com o Zé. E os seus olhos se tornavam vítreos, quebradiços, até que esse brilho se rompesse em pequenas lágrimas que escorriam ladeira abaixo, deixando aquela marca no caminho, marca de um caramujo que carrega sempre sua paixão, sua certeza. Discretamente as enxugava com um lencinho que trazia preso em suas mãos. Assim que o Zé retornava, a conversa derivava para o seu finado marido, que havia passado três anos na Suíça Alemã. Num sanatório, que um sobrinho contou que havia sido palco de um romance que ele leu, antigamente. Incrível como em Pinda poderia me lembrar de Davos e a Montanha Mágica. Como poderia eu saber que um dos personagens do romance era brasileiro e marido de Vó Chiquinha ?E ouvi dela a descrição que havia lido do local. Descreveu-me a rotina, o dia-a-dia que o marido passou, e que, ainda bem, o havia restabelecido de uma vez por todos. Ele não ficou o resto de sua vida lá. Havia alguma coisa boa na planície, que o autor não teve o privilégio de conhecer. Porém, eu a conheci.Depois de ter visto a planície entre as serras da Mantiqueira e do Mar - local da fazenda -, voltei para a sala, pensando nisso tudo, num clima etéreo, intrigado com aquela mistura de sensações, que deveriam ser tristonhas e fúnebres. Eram alegres e demonstravam uma força que abraçava o local e não deixava nenhuma energia vazar, toda ela concentrada na preservação daquele ambiente daquele local.Foi quando me dei conta que toda essa energia vinha daquela senhora, daquela dama. Quase escondida em sua cadeira. Que me contava não poder ver a tataraneta sozinha, por ser muito leve não teria condições de carregá-la ou brincar simplesmente, ela detentora de um equilíbrio tão precário, que se utilizava um artefato para caminhar melhor. Parecia ser feita de casca de ovo.

Era dela que vinha toda aquela força, toda aquela energia se concentrava no pequeno ser, ser que se preocupava em levantar-se mais cedo que seus familiares, assim, no momento em que entravam em sua câmara para o beijo matinal, já a encontrassem com o rosto lavado e arrumado. Alguém que gastava suas forças em atitudes de força descomunal e que ainda contava com sobras necessárias para a celebração da vida e da vaidade, merecia muito mais que minha admiração.Ao ir embora, fiz questão de despedir-me dela. Estreitei-a em meus braços, levemente, colei meu rosto ao dela, senti a sua dimensão, a umidade das lágrimas, e a sua despedida.- Ah, meu filho, tenho tanta dor dentro de mim.

Estava perdidamente apaixonado por ela.             

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