Naturalizar-se diferente.
A recordação de certa imagem não é senão saudade de certo instante; e as casas, os caminhos, as avenidas são fugitivos, infelizmente, como os anos.
Marcel Proust
Passei um final de semana com um primo. Um grande sujeito, amigo, íntimo. Alguém cuja conversa é uma coisa intimista. Como conversar com seu duplo. Um diálogo interior com dois protagonistas exteriores.
Visitamos as fotos dos nossos antepassados, descobrimos coincidências inexplicáveis, pessoas parecidas com ancestrais, depois de uma ou duas gerações. Quando você menos espera aparece um tataravô na imagem do seu filho.
Descobri uma solução para um sobrinho que não consegue se encontrar numa faculdade do mais puro direito que o está deixando no mais certo torto da cabeça e ruim da espinha.
Encontrei o meu bisavô fugindo da França no tempo de Catarina de Médicis, exilado da guerra religiosa entre hugenotes (Valois) e os papistas (Bourbons); chegando em Holanda cheio medo das represálias, ao casar adotou o nome da esposa. Jasper era um sobrenome flagrantemente protestante, ao contrário do dela. Conhecendo-o como o conheço, sei que ele se apaixonou profundamente e esqueceu que o país ainda pertencia ao Carlos V, rei católico.
Um outro veio da Escandinávia e ficou pela Hamburgo de então. Descendentes de bons ladrões. Uma espécie de cópia do Robin Hood, que fazia as mesmas estrepolias na Alemanha. Parece que existia uma tendência de denominar de bom qualquer pessoa que roubava; porque furtar é só de quem tem, e quem tem é mau, tamanha era a miséria. Felizmente, hoje a coisa está totalmente diferente. Ainda bem.
De todas as histórias, verídicas ou não, consegui observar a parte mais próxima da grande caminhada humana; a minha. Consegui rastrear os caminhos daquele lado.
De diferentes locais acabaram se concentrando na região de Hamburgo. Com uma característica comum. Todos ligados à musica.
Um deles formou um Coral e continuou cantando e regendo até a idade de noventa anos. Sua filha seguiu a mesma carreira de cantora de coral até o final da vida; assim como sua neta; todas com grande voz e talento.
Tanto eu quanto minha irmã somos músicos frustrados por diversos motivos.
E dessa conversa surgiu a minha idéia. Por que não sugerir que o meu sobrinho mandasse às favas o seu direito e fosse se divertir. Se divertir usando a música como motivação da sua vida.
Conversei com ele hoje e ouvi:
- Nossa! Você está fazendo curso de cigana e fazendo prática de leitura de mentes?
Apesar de vivermos no mesmo lugar, será que conseguiremos pensar nossas emoções, emocionar com os nossos pensamentos, fazer despertar os velhos sabores e saberes que ficaram acumulados em nós?
Transmitir toda nossa herança para aqueles que nos substituirão viverem melhores e felizes.
Conseguiremos evitar que o nosso cheque em branco emitido pelo otimismo, seja preenchido por um pessimista?
