Lobo
Tenho dificuldades em dizer o que fui, o que sou.
Um escritor antigo contou que apenas uma simples gota caída do maior recipiente nos serviria para identificar todo conteúdo.
No Egito o meu nome - Maat - é o princípio que se personificava na verdade ou ordem justa, representado por uma deusa-vaca Hátor, que julgava os mortos cujo símbolo é uma pluma.
Ouvi que antigamente o ego com sua consciência de si era menos preciso; era aberto e recebia do passado muitas informações e sua repetição o renovava continuamente.
De fato, sempre fui um solitário. Esquivo. Exilado.Tachado de lobo, eu me escolheria como cebola.Sempre tratei bem as pessoas, indiferente à condição social, sexual ou pessoal. Sempre tratei bem quem me tratava bem, tratei mal quem me tratava mal. Mais tarde aprendi que deveria tratar bem a todos, sem qualquer distinção esquecendo-me da reciprocidade. Compreendi que isso era o melhor a se fazer. Pois não é que dessa maneira, tratar bem, fui tachado de ser um lobo?
Confesso minha libido, assim como você deverá confessar a sua. Cada um a exerce de uma forma ou de outra. Quando vivemos no meio de milhões de pessoas aquelas que saem do padrão são amarradas à força no totem do lugar comum. Sei não. Essa explicação é tão inválida quanto outra qualquer, é apenas a minha tentativa de lembrar o quanto de pelo de lobo andei deixando por aí.O mais interessante dos meus apelidos foi: deus. Aquele capaz de tudo, de trazer o final dos mundos para os dias atuais, de salvar alguém da morte, ou mesmo condenar alguém. O pai vingador?
A humanidade lida muito mal com a segurança. Todos gostariam de tê-las, e atacam aquele que a exibe. Ao argumento da minha infalibilidade ou do meu caráter vulpino tenho como resposta a seguinte:Esse é o imenso desejo da grande maioria das pessoas.
A construção de nossa imagem não depende de nós, depende das expectativas que os outros têm. E essa é – no meu caso - ruim. Jamais alguém acreditará que se pode querer ajudar, ou ter atenção ao semelhante.Temos uma civilização baseada na raiva, na ira e no conflito. Esse conflito surdo, silencioso, me atinge muito profundamente. Paguei vários preços, em diversas cotações, sempre ascendente, todos os anos da minha vida.
Posso me apresentar confessando-me, portanto, como cebola. Uma bela, redonda, descabelada e castanha cebola. Para se compreender a sua perfeita natureza, não se deve usar a força ou a faca. Quando isso acontece ela sempre nos avisa, fazendo-nos chorar. Deve-se usar a mão. Descascá-la é o melhor manuseio. Ela facilmente se dobrará ao gosto do manipulador. Misturada ao gosto do alimento deixará o seu toque de acidez e doçura, quanto mais fria estiver menos ácida se apresentará.
Esse é um segredo dos antigos construtores de pirâmides, grandes comedores de cebolas; cujo prêmio ao longo de toda a sua vida foi o de carregar as pedras que dispostas de uma certa maneira simbolizaram o mais alto sonho da humanidade de então.
Entre o lobo, a pluma e a cebola, escolherei ficar com os todos. Agora numa confissão sem tortura. Lobo consagrado pelos de hoje; outra consagrada pela deusa que fez sua escolha da pluma que é a mesma da escrita. Escrita que jamais contará a verdade, quanto muito, roçará a verdade levemente, muito levemente, esperando que estejamos preparados para vislumbrá-la. Fugaz. Fugax. Fugace.
Por último e por minha escolha pessoal, com suas camadas finas, com um pequeno núcleo sempre desprezado, por sua aparente simplicidade e grande complexidade, lembrando que se prefere jogá-la ao óleo fervente para amansar seu sabor e finalmente, prestando uma homenagem àqueles que consumidos pelo sonhos dos senhores dedicaram sua vida anônima ao desconhecido. A sua mensagem foi recebida por mim e através procurarei renová-la, fazendo uma espiral ascendente.
Espiral que através do arabesco da pluma de um lobo, ascendeu numa cebola.
