Dingo

scriptu em Existo: talvez. by Djabal Wednesday June 27, 2007

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Wednesday morning at five o´clock as the day begins
Silently closing the bedroom door
Leaving the note that she hoped would say more
She goes downstairs to the kitchen
Clutching her handkerchief
Quietly turning the backdoor key
Stepping outside she is free

(Lennon&McCartney)

Também tive o meu rosebud, a meu monólito negro: meu tio Dingo. Um homem esquivo, soturno. Alto e magro marcado pela acne. Não ficaria surpreso se o descobrisse um mestre da Yôga.Tivemos uma, se assim se pode dizer, intensa convivência por um longo período. Uma pessoa extremamente instruída alimentava-se de frutos, folhas e sementes. Jamais comeu nenhuma carne de nenhum animal. Não pregava, entretanto. Apenas agia. Tinha uma espécie de bom humor sepultado. Não se extravasava, quem quisesse encontrar havia de navegar na superfície das suas histórias, dos seus apelidos - a única forma de transbordamento que conheci dele - , da sua delicadeza e extrema bondade.

Lembro-me das suas histórias. Ele foi o meu querido Manuelzão, veio das Minas Gerais de uma família de tropeiros e parou no interior de São Paulo. Trabalhou como escriturário

em todo Brasil.

Esteve em Manaus e de lá me deixou boquiaberto com a história do calor do lugar. O ar era tão abafado que poderíamos cortá-lo em fatias e servir com sorvete na sobremesa.

Contou-me também da pesca do peixe-boi. Uma prática cruel dos índios e caboclos, que ele narrava com repulsa e tristeza. “Esquentavam uma melancia e a jogavam no leito do rio, assim que abocanhada o peixe se virava de borco: morto.”

Uma maneira prática de retirá-lo da água, visto que seu peso poderia chegar até quinhentos quilos. Aliás, o que não era raro, comum até. Entonava a história com tanto horror que ela ficou vívida impregnada em minha consciência.

Hoje tenho notícia de que os sobreviventes desse mamífero já têm nome e sobrenome e nascem no cativeiro.

Contou-me histórias do nosso folclore, conheci por ele a história do saci, recontada mais tarde pelo Monteiro Lobato, admirava-me pela sua alimentação. Comia cevada, lúpulo, levedo. Experimentei várias vezes o seu preparado – hoje já sei que comia cerveja sólida – mas na época o sabor era-me intragável e provei por respeito e admiração.

Jamais falou de sua vida. Jamais. Foi um enigma bondoso. Chamava minha irmã de pixoxó. Foi meu primeiro pássaro. Até então minha atenção jamais havia se prendido a nenhum. Tenho certeza que se daria muito bem com Fernando Pessoa, talvez se alguém encontrasse seus cadernos, ele poderia estar entre nós. Encontrou a Rua dos Douradores em Manaus, talvez Araçoiaba da Serra, não sei. A frase que cotidianamente vem a mim:

“Dar a alguém os bons-dias por vezes intimida-me. Seca-se-me a voz, como se houvesse uma audácia estranha em ter essas palavras em voz alta. É uma espécie de pudor de existir – não tem outro nome!”(F.Pessoa)

Se fosse dita por ele não me causaria nenhuma surpresa.Filho último de oito irmãos vagueou pelo mundo afora, sem nunca ter conhecido ninguém. Viveu com seus familiares por períodos alternados. Sempre que a convivência chegava perto demais ele se mudava. Ele dava seu carinho dessa forma, vivendo junto, combinando os calores mútuos, o afeto sutil da convivência com os seus. Assim que o carinho se transmutava em invasão e curiosidade; mudava o emprego e a cidade e pronto. Lá se ia embora.Deixou em mim uma saudade e um enigma. Às vezes tenho comportamentos parecidos com os dele, e ele volta. Hoje pela manhã encontrei-o novamente, através da Hilda Hist, que contava a história daquele velhote - Seu Vitinho - marido de da. Santinha, que havia lido mil e duzentos livros e chegara à conclusão de que isso não servia de nada. Foi embora nu, montado em seu burro ao encontro de Deus.

A primeira música que ouvi também falou de alguém que se foi. Acredito que são muitos os sinais que ele envia para deixar tudo no branco das nuvens.

Deixo aqui registrado um meu fragmento. Fragmento que tem dono.

  

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