Dois Reis

scriptu em Escrito pelas estrelas by Djabal Monday July 30, 2007

 

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Mas dói-me, por exemplo, não me poder sonhar dois reis em reinos diversos, pertencentes, por exemplo, a universos com diversas espécies de espaços e de tempos. Não conseguir isso magoa-me verdadeiramente. Sabe-me a passar fome.

 

Fernando Pessoa in Livro do Desassossego, através de Bernardo Soares

Las Vegas

scriptu em Acaso Sinto? by Djabal Thursday July 26, 2007

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João Shao, esse é o meu nome. Meu pai é chinês e minha mãe é brasileira. Não falo uma palavra do idioma com o qual pareço fisicamente. E isso causa a maior confusão. Todos os chineses falam comigo sem que eu consiga responder. Todos brasileiros acham que sou japonês. Eu mesmo não sei quem sou ainda. Mas não queria visitar Las Vegas, queria visitar o Grand Canyon. Acabei visitando ambos. Vítima da minha ambiqüidade.
Morava, na época no Arizona, já que não sabia falar chinês, tentei aprender inglês, e lá fiquei um bom tempo, e de lá que resolvi partir. Scottsdale, via Sedona, cheguei ao monumento natural.


Coral é a cor que predomina. Uma vastidão imensa, essa expressão não consegue dar conta do efeito que nos é causado. Contemplar. Esse é o verbo. Nada mais fica seguro. Todas as explicações se desmaterializam, retornam ao pó de que foram construídas. Estava diante de uma interrupção não intencional da atividade espontânea da mente. Eu tive absoluta certeza da minha insignificância diante daquilo tudo. Construído apesar de nós.
Não respeitei o aviso de segurar nas cordas. Quase fui levado pelo vento. A natureza naquele local tem dimensões sobre-humanas e o vento não é exceção.
Como já disse você fita a eternidade, olho no olho. Ela não tem nada para dizer pra você. Você deveria ter alguma coisa para ela. Não tive. Hoje talvez tenha pra você, graças a esse instante.


Saí de lá em direção à Nevada. Fiz uma longa descida. Entrei na fase azul da viagem. Encontrei a represa Hoover e um espaço para estacionar, contemplei aquela imensidão de água, encerrada naquela cadeia. De um azul profundo, sem movimento aparente, calmo. Ar, água, terra e estrada. A minha presença acaba de ser notada, pelo asfalto que piso. É obra minha, de meus semelhantes. Logo mais adiante encontrei a barragem com impressionantes torres de concreto. Consegui vê-las  como uma tentativa de barrar além da água a passagem do tempo. Uma espécie de freio de mão. O tempo deveria ser controlado para não nos consumir. O melhor lugar do mundo para nossa fantasia é o deserto.

Las Vegas é cinza. Durante o dia ela é predominantemente cinza. A noite o cinza é substituído por luz, cores e intensidades. Existem hotéis para todos os bolsos. Obra totalmente humana. Não há natureza. Árida. Uma grande avenida (The Strip) com quase sete quilômetros, onde tudo acontece. Fantasia está para o deserto, assim como o jogo está para Las Vegas.
Você senta num bar para tomar alguma coisa, olhando as pessoas. Pronto. No balcão existe um jogo eletrônico sob o seu copo, basta colocar uma moeda. Os cassinos têm dimensões urbanas. Cada um deles é uma pequena vila, com quartos, diversões, restaurantes. Som e fúria. Fiquei hospedado num centro de compras onde o teto é um céu sempre azul, seja dia ou noite,  com poucas, raríssimas nuvens,  temperatura e umidade estáveis tudo controlado por computador, inclusive você. Saía pela manhã e sempre me encontrava com um cidadão (meu patrício) em pleno trabalho (jogo). Voltava à noite, e ele estava lá ainda. Dia, após dia. Encontrei caravanas com dezenas de orientais, todos em volta de um grão-mogol, com camisas brancas de seda sem gola, com os excessos de riqueza saltando nos pulsos e gargantas. Brilhando mais que as luzes de néon. Nunca me vi tão só.
A cidade é uma grande tentativa de parar o tempo. Uma vontade imensa e desesperada de que o nosso tempo na terra seja eterno, sempre feliz. Talvez por isso não tenha sorte no jogo. Não consigo esquecer que tudo é finito. Tudo é uma tentativa de retardar a ruína que o tempo exige para si.
Se me pedissem para fazer um resumo de tudo, escreveria. Coral, azul e cinza. Incessante de um para outro.
 

Névoa

scriptu em Escrito pelas estrelas by Djabal Tuesday July 24, 2007

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O nosso corpo carrega a alma – contava ele com sua voz efeminada –, como se fosse uma pedra enorme, ou uma poeira estelar e a fronteira desta alma, ou desta poeira estelar, não está aqui, onde você se acha parado, mas vai até onde você pode enxergar, enquanto você pode ouvir ou até onde você pode chegar com a sua razão, para cima, ou para baixo da terra. O seu corpo não pode estar no lugar de um outro corpo, mas a névoa de sua alma, como uma bola irregular ou a Via Láctea, pode interseccionar-se com a outra névoa idêntica, com uma láctea que também é carregada sobre as costas de alguém, como a alma é. E aqui, onde eles se tangenciam, ocorrem ferimentos o fertilização mútuos, muitos antes que os próprios corpos se toquem. É aqui que a sua alma descobre, ou esquece, e enterra as coisas… Mas isso vale também para o caos em que se tangenciam os percursos não de duas almas, mas do seu corpo e de sua alma. 

 Milorad Pavitch in Dicionário Kazar através de Herbert Daniel

 

Pluma

scriptu em Escrito pelas estrelas by Djabal Friday July 20, 2007

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A primeira manifestação do Simorg teve lugar na China, em meio à noite sem lua. Uma de suas plumas caiu na China e sua fama correu o mundo todo. Cada um que dela ouviu falar imaginou um desenho e tomou-o como verdadeiro em seu coração. Esta pluma ainda se encontra na sala de pinturas daquele país, e é por isso que o Profeta disse: “Busca o conhecimento, anda que seja na China”. Não fosse essa pluma, não teria havido tanto barulho no mundo a propósito desse misterioso ser. Este sinal de sua existência é a lembrança de sua glória.

 Todas as almas levam uma impressão da imagem dessa pluma. Como sua descrição não tem pé nem cabeça, nem começo nem fim, não é necessário dizer mais nada e esse respeito. Agora, vós que sois homens do Caminho, tomai essa direção e colocai o pé nessa via. 

 

Farid ud-Din Attar, in A Línguagem dos Pássaros (Mantic Uttair), por  Álvaro de Souza Machado e Sérgio Rizek

Well Mars

scriptu em Existo: talvez. by Djabal Thursday July 19, 2007

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Construíram um prédio imenso, num prazo recorde. Acostumara-se a ver longas distâncias. O horizonte. Coisa tão rara de se conseguir numa cidade como a sua.

Restou um lote ainda, mas logo, logo, seria construído. Já via agrimensores, construções provisórias sendo preparadas, movimentos de terra. Bem, acabou. O caminho para o trabalho ficou mais monótono. Afinal de contas, ficou como o trabalho.

 

Realizou-se uma grande inauguração. Comes, bandeirolas, fanfarra, anúncios. Era um supermercado. Filas, grosserias, pressa, produtos, preços e falta. Muita falta.

 

De qualquer forma precisava comprar algo para passar o seu mês. E lá foi visitar o dito. Ficou surpreso, as gôndolas, estantes e balcões estavam repletos de pessoas. Os produtos eram todos embalados. Não se via nada natural.

 

Aproximou-se e percebeu que se vendiam vivências. Apenas vivências. Vivências de Ódio, de Amor, de Avareza, de Amizade. Educação para crianças ou adultos.Vivências das  Relações. O empreendimento se especializara em vender tecnologia de como se viver. Vendedores altamente especializados em segmentos específicos; com larga experiência. Experiência adquirida em faculdades, teatros, centros de pesquisa, livros, viagens de estudos. Foram condensadas, avaliadas, testadas e hoje estão disponíveis para uso individual.

 

Intrigado, confuso, conversou com o pessoal da loja, procurando entender o que estava vendo, ouvindo e, quem sabe,  comprando. Ouviu pacientemente as explicações:

 

“Essa é uma prática corriqueira no primeiro mundo. Cada dia que passa raciocinamos mais. O nosso cérebro se expande e, felizmente, não volta jamais ao lugar de antes. Fica sempre expandido. Cada vez mais a ciência se especializa e para que a experiência não seja perdida, ela foi separada, contada e distribuída para nossos clientes. ”

 

“Observe que tudo  é absolutamente natural e ecológico. Temos como exemplo máximo de organização as formigas. Elas atingiram o grau máximo de especialização que se conhece. Cada indivíduo tem o seu trabalho e se aperfeiçoa ao máximo na sua  realização. Confira essa oportunidade. Venha participar do nosso sucesso. Que será o seu também.”

 

De fato, faz sentido. Não sei bem hoje como educar meu filho. Cada dia ele apresenta novas necessidades. Será que estou preparado para educá-lo? Não seria bom experimentar o pacote econômico de “Vida de pai em tempo integral”?

 

“Quanto custa?”

“Seiscentos em dez parcelas sem juros, no cartão.”

“Obrigado, volto amanhã.”

“Quero estar lembrando que o nosso País foi o escolhido pela Matrix para esta experiência pioneira, por ser o mais perfeito exemplo de sociedade pós-moderna.”

 

Não compreendeu bem os argumentos.Saiu de lá,  pensativo. Antes de gostar de um livro, precisa ler um crítico de arte. Antes de gostar de um filme, precisa ouvir a opinião especializada. Qualquer opinião fora do padrão é abolida. Não se pode ser Cigano. Homo. Judeu. Albanês ou Guatemalteco. Soa estranho. O médico do ouvido  não ouve nada que não seja otorrino. A sua mulher é fisioterapeuta do períneo. Não consegue ajudá-lo na cura da síndrome pós-pólio, para tal mal  existe um qual  doutor nessa especialidade.

As  opiniões são todas altamente especializadas. As empresas são altamente especializadas. As pessoas são altamente especializadas.

Eu não tenho compreensão profunda de nada. Não posso dar nenhuma lição de vida. Uma vez freqüentei uma aula onde se discutia a biofisiologia do cuspe. Saí. Hoje me arrependo, poderia ser de grande utilidade.

De fato o mundo mudou muito. Hoje estamos num outro patamar de desenvolvimento: estamos preparando bois com asas.

A vivência de cada um vai ao ralo. Aqueles que dão importância à sua própria experiência são poetas. E, por definição, o poeta ganha tudo e fica sempre sem nada.

 

Petra

scriptu em Escrito pelas estrelas by Djabal Wednesday July 18, 2007

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E quando consideramos aquela outra teoria dos filósofos da natureza, segundo a qual todas as outras cores terrenas - toda decoração imponente ou encantadora -, os doces tons dos céus e florestas crepusculares; sim, e o dourado veludo das borboletas e as faces de borboletas das mocinhas, tudo isso não passa de sutis ilusões, não inerentes, na verdade, às substâncias, mas apenas impostas de fora, de modo tal que toda a natureza deificada se pinta como a prostituta, cujas seduções recobrem apenas o ossuário interior; e quando prosseguimos e consideramos que o misterioso cosmético que produz todas as cores, o grande princípio da luz, permanece para sempre branco ou incolor em si mesmo, e que, se operasse sem intermediário sobre a matéria, tocaria todos os objetos, mesmo as tulipas e as rosas, com o seu próprio matiz branco - ao ponderarmos tudo isso, o universo paralisado estende-se à nossa frente como um leproso; …

Herman Melville in Moby Dick através de Péricles E.S. Ramos

As gaivotas

scriptu em Acaso Sinto? by Djabal Tuesday July 17, 2007

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Alguém ainda não se sentiu assim? Devastado. Submetido às forças imponderáveis. Forças que não sabemos sequer de onde vem e que nos chicoteiam. Disse-me alguém que não existem problemas, existem fatos. Portanto, vamos aos fatos. O mar batendo num farol, gasto pelo tempo, e que fica impassível diante de tudo. Afinal ele foi fabricado para dar direção, apontar caminho para o viajante. Não pode se render. Agora diante desse fato: tenha bons sonhos.

Paralítico

scriptu em Penso? by Djabal Monday July 16, 2007

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Estou paralisado pela dor. Profunda, larga, bile negra e envolvente. Envolvente como um ritual que se repete há tempos. Ritual que me tira completamente a humanidade.  Aquela que deveria ser proveniente da educação dos sentidos. Hoje, porém, os sentidos não têm educação. Têm impulsos. São vendidos em super-mercados. Sou todo robô. Abomino a violência e via de regra a utilizo. Por que? Será que ela está tão entranhada em mim, que não consigo me livrar dela? Será que estou contaminado como um lençol freático ? Das emoções apenas bóiam as  barrentas, emulsionadas por sulfúricos e infernais ácidos. Enfim, não é  cortar os pelos diariamente que me faz humano. O que me fará humano é abominar todas as formas de violência.  Equilibrar-se. Voltar a ser uma névoa, hoje tornei-me uma Pedra.

C’est une vie exquise, celle qui se maintient en ordre jusques en son prive.

scriptu em Existo: talvez. by Djabal Friday July 13, 2007

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Leitor. Leitura. Modo de ler. Modo de ser. Modo de Usar.
 
Descrever a experiência da leitura? Leitura começou como um hábito. Fruto de uma necessidade de conhecer. Primeiro servi-me de livros que continham informações. Técnicas, precisas, lógicas, coerentes, explicavam tudo que era necessário. Na escola, no trabalho, nas relações entre as pessoas nas casas próprias, alugadas, emprestadas, dadas ou tomadas.
Concluí  que nada funcionava como o previsto. Mais das vezes as exceções eram superiores às regras. Na qualidade e no horizonte.
O hábito me salvou, lia agora sem maiores esperanças de saber. Um túnel cada vez fuliginoso estava aberto.
Caiu em minhas mãos um Alejo Carpentier. Li. Peguei mais outro. Li. Maravilhoso. Li outro ainda. Até completar inteiramente o que tínhamos por aqui. De um só fôlego. Abandonei todo o resto. Fiz outra economia, aprendi outras histórias, socializei-me com outras sociologias, analisei outras psicologias.
E não parei mais.
Apaixonei-me pela forma de contar histórias.  Ler é uma  fantasia. Os olhos seguem o roteiro que foi indicado por linhas e parágrafos. Porém, de repente algo faz com que você siga uma outra senda, que está além das palavras. Olhos seguem as palavras e alma segue o sentido que elas fazem dentro de você. Quanto melhor o livro mais você fantasia. Você começa a se desfazer dentro do livro. Aquela sua desordem interior, começa a ter um sentido naquele momento, ali  o escritor passa a ser seu amigo.
Ele o fez um leitor de si mesmo como já se disse.
Conseguiu uma certa ordem, fez que seu olhar deixasse o outro. Voltasse para dentro.
O mundo estava em desordem, ficou ordenado naquela situação. Você estava em desordem, também ficou ordenado naquele instante de encaixe. Terminou a leitura, ficou o amigo e a lição. Nada mais.
A imaginação do leitor tem que ser coincidente com a do escritor. Nada mais fica separado, tudo se funde e confunde. Esse é o significado desta amizade.
“O mau leitor é um tipo de amante psicopata que pula em cima e rasga a roupa da mulher que cai em suas mãos. E quando ela já está completamente nua, ele continua em sua sanha e arranca a sua pele, impaciente, joga fora sua carne e, por fim, quando já está chupando seus ossos com os dentes grosseiros e amarelados, só então é que se dá por satisfeito: cheguei. Agora estou dentro, bem dentro, por dentro. Cheguei.” Amós Oz.
A ordem do mundo e a ordem do seu íntimo conseguidas num determinado dia, com determinado amigo, afastam o nevoeiro incessante que o envolve e oferecerá um novo momento do seu ser, que impedirá por alguns instantes o desequilíbrio que caminha entre o seu esmagamento e o despedaçar em milhões de pedaços. 

Não existe conhecimento. Existem equilibristas.

 


  
  
  
 

Momento do ser.

scriptu em Escrito pelas estrelas by Djabal Friday July 13, 2007

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Basta imaginar: quando lá fora o mundo pesa sobre nossa língua, olhos e mãos, a lua esfriada feita de terra, casas, costumes, quadros e livros - e dentro de nós, apenas um nevoeiro em movimento incessante; que felicidade deve ser alguém nos apresentar uma expressão na qual nos reconhecemos. Haverá algo mais natural do que o homem passional se apoderar dessa nova forma antes dos homens comuns? Ela lhe oferece o momento do ser, o equilíbrio de tensão entre exterior e interior, entre ser esmagado ou voar em estilhaços.

Robert Musil in O homem sem qualidades, através de Lya Luft e Carlos Abbenseth

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