C’est une vie exquise, celle qui se maintient en ordre jusques en son prive.

Leitor. Leitura. Modo de ler. Modo de ser. Modo de Usar.
Descrever a experiência da leitura? Leitura começou como um hábito. Fruto de uma necessidade de conhecer. Primeiro servi-me de livros que continham informações. Técnicas, precisas, lógicas, coerentes, explicavam tudo que era necessário. Na escola, no trabalho, nas relações entre as pessoas nas casas próprias, alugadas, emprestadas, dadas ou tomadas.
Concluí que nada funcionava como o previsto. Mais das vezes as exceções eram superiores às regras. Na qualidade e no horizonte.
O hábito me salvou, lia agora sem maiores esperanças de saber. Um túnel cada vez fuliginoso estava aberto.
Caiu em minhas mãos um Alejo Carpentier. Li. Peguei mais outro. Li. Maravilhoso. Li outro ainda. Até completar inteiramente o que tínhamos por aqui. De um só fôlego. Abandonei todo o resto. Fiz outra economia, aprendi outras histórias, socializei-me com outras sociologias, analisei outras psicologias.
E não parei mais.
Apaixonei-me pela forma de contar histórias. Ler é uma fantasia. Os olhos seguem o roteiro que foi indicado por linhas e parágrafos. Porém, de repente algo faz com que você siga uma outra senda, que está além das palavras. Olhos seguem as palavras e alma segue o sentido que elas fazem dentro de você. Quanto melhor o livro mais você fantasia. Você começa a se desfazer dentro do livro. Aquela sua desordem interior, começa a ter um sentido naquele momento, ali o escritor passa a ser seu amigo.
Ele o fez um leitor de si mesmo como já se disse.
Conseguiu uma certa ordem, fez que seu olhar deixasse o outro. Voltasse para dentro.
O mundo estava em desordem, ficou ordenado naquela situação. Você estava em desordem, também ficou ordenado naquele instante de encaixe. Terminou a leitura, ficou o amigo e a lição. Nada mais.
A imaginação do leitor tem que ser coincidente com a do escritor. Nada mais fica separado, tudo se funde e confunde. Esse é o significado desta amizade.
“O mau leitor é um tipo de amante psicopata que pula em cima e rasga a roupa da mulher que cai em suas mãos. E quando ela já está completamente nua, ele continua em sua sanha e arranca a sua pele, impaciente, joga fora sua carne e, por fim, quando já está chupando seus ossos com os dentes grosseiros e amarelados, só então é que se dá por satisfeito: cheguei. Agora estou dentro, bem dentro, por dentro. Cheguei.” Amós Oz.
A ordem do mundo e a ordem do seu íntimo conseguidas num determinado dia, com determinado amigo, afastam o nevoeiro incessante que o envolve e oferecerá um novo momento do seu ser, que impedirá por alguns instantes o desequilíbrio que caminha entre o seu esmagamento e o despedaçar em milhões de pedaços.
Não existe conhecimento. Existem equilibristas.
