Conto de fadas. Brasil. Varonil. Mil….

scriptu em Existo: talvez. by Djabal Thursday July 12, 2007

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Entrei numa delegacia para prestar um depoimento e vi uma criança-menina ser espancada com um cassetete. A cena além de degradante era de uma violência estúpida, incontida, selvagem, na mesma proporção da resignação com que ela recebia as pancadas. Sentindo-me atingido perguntei ao guarda qual o motivo daquilo. Fui  informado que ela roubava habitualmente naquela região. A mãe trabalhava fora e bastava passar em sua casa para pegá-la e efetuar a execução da sua pena.

Justiça limpa, sumária, rápida e eficaz.

Passados alguns anos estava almoçando quando recebi um sorriso e um pedido de dinheiro de outra criança-menino. Ela se parecia muito com meu filho. Na expressão, no olhar, nos gestos. Não sei identificar muito bem. O sentimento que me invadiu também não saberei jamais explicar, um misto de amor, compaixão, culpa e saudades. Imediatamente uma pessoa que estava no balcão, virou-se e entregou-lhe uma cédula de alguns dólares. Meu filho respondeu que não poderia aceitar esse tipo de coisa. Não conhecia isso. Expliquei-lhe que era um outro dinheiro, aliás, muito mais valioso. Retrucou-me que ele estava proibido disso, tinha que entregar algo claro e contado, todos os dias e isso não o ajudaria. Disse-lhe então que guardasse, e entreguei uma outra cédula, agora nacional com a efígie da insigne república. Limpa, contada e achada exata.

Ontem - idos anos - encontrei outro, crescido,  por volta de oito anos que aprendeu o ofício de malabarista de circo, atuando na Avenida Faria Lima, entre o Shopping Iguatemi e o Edifício Iguatemi Plaza - Office Building. Eu aguardava bovinamente a autorização do sinal para seguir adiante e o reconheci pelo olhar. Era ele mesmo. Extasiado queria saber se era a mesma criança ou outra… Não,… Não. Era  meu filho novamente. Aqueles olhos se espremeram, o seu rosto ficou descomposto e a boca se escancarou como qualquer criança por qualquer motivo agredida.  A agressão foi a descompostura que uma moça sentada num outro carro à frente, lhe passou. Não consegui saber nada. Apenas vi. O sinal abriu, passei. Ele sentado na guia com suas bolinhas, não me viu e dei-lhe algum dinheiro que tinha no bolso.

“Seria bom não envelhecer, nem conhecer o mundo.” Cesare Pavese.

Na Inglaterra vitoriana soube-se de um escritor Jonathan Swift que publicou uma obra chamada: “A Modest Proposal For Preventing The Children of Poor People in Ireland.

From Being Aburden to Their Parents or Country, and For Making Them Beneficial to The Public.” Que encontrou  abrigo e tradução em nossas letras. Cuja leitura recomendo, por sua utilidade e eficácia nos dias de hoje, trezentos anos depois. Bem, hoje estamos com a cidade limpa e despoluída, pela argúcia,  presteza e senso de prioridade do burgomestre local.

 

Sakurajima

scriptu em Escrito pelas estrelas by Djabal Wednesday July 11, 2007

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Tudo que resta da aldeia é a ponta de um portal de templo projetando-se do chão. O portal, torii, tinha dois andares; agora, avistam-se apenas os setenta e cinco centímetros superiores. Temerárias, as pessoas que fugiram retornaram logo que o vulcão se acalmou. Elas reconstituíram a cidade em torno do marco desalentador do portal enterrado. E a vida continua. No solo rico em cinzas de Sakurajima, os aldeões colhem rabanetes gigantes do tamanho de melancias, prendem a respiração e rezam em seus santuários esperando pela próxima grande erupção

Will Ferguson, in De Carona com Buda, através de Celso M. Paciornik

Sentido

scriptu em Escrito pelas estrelas by Djabal Wednesday July 11, 2007

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persigo outro sentido

cuja senda indico

Xenófanes (c570-528aC) in Xenofanias através de Trajano Vieira

Choupana

scriptu em Escrito pelas estrelas by Djabal Wednesday July 11, 2007

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Ergui minha choupana entre as nuvens espessas.

Que o pó do mundo apague as marcas dos meus passos.

Não me pergunte como passa o tempo.

Flui o arroio à janela; à cabeceira os livros.

Li Kiu-Ling poeta da Dinastia Tang(618-906d.C), através de Décio Pignatari

Realidade do mundo

scriptu em Escrito pelas estrelas by Djabal Wednesday July 11, 2007

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Estes homens, afinal, obtiveram tudo quanto a mão pode atingir, estendendo o braço. Variava neles o comprimento do braço; no resto eram iguais. Não consegui nunca ter inveja desta espécie de gente. Achei sempre que a virtude estava em obter o que não se alcançava, em viver onde se não está, em ser mais vivo depois de morto que quando se está vivo, em conseguir, enfim, qualquer coisa de difícil, de absurdo, em vencer, como obstáculos, a própria realidade do mundo.

Fernando Pessoa in Livro do Desassossego através de Bernardo Soares

Filidor

scriptu em Penso? by Djabal Tuesday July 10, 2007

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Encontramo-nos num dos melhores lugares da cidade, apresentado por um amigo comum. Absolutamente simpático, falando calma e fluentemente, mostrava seus raciocínios de maneira clara, lógica, límpida. Mostrou uma imbatível capacidade de análise e um preocupante poder de síntese. Parecia ter ao seu dispor todos os dados pertinentes para o assunto objeto de suas impressões.

A sua figura lembra muito o Henry James. Acrescido dos óculos. Robusto, íntegro, sem fissuras, sempre impecavelmente vestido. As cores da sua roupa conversam amigavelmente entre si. O seu lenço sempre nos sorri com classe e delicadeza, um pouco caído, como se estivesse colocado ali por descuido de alguém, não dele. Qualquer que seja o horário dos nossos encontros sempre parece ter saído do banho naquele momento. Sente-se o mesmo aroma das áreas públicas americanas dedicadas ao comércio. Não se permite o mais leve sinal de descontrole. Civilizado no último grau, segundo Mencken. Aparentemente sempre está disposto, pronto para fazer negócios com o seu interlocutor. Afinal de contas, formou-se nas melhores escolas da América; trabalha na capital mundial do capital financeiro.

O seu único deslize foi fumar um belo Cohiba. Logo acrescentou que o embargo  estava delimitado ao território americano. E que a compra fora efetuada aqui no Brasil.

Escolheu um prato de feição francesa; apesar de me oferecer uma taça de vinho, não se permitiu a esse excesso, pois estávamos na hora do almoço, e isso não é de bom tom nos negócios. Acanhado e influenciado também me apressei a recusar.

Pediu desculpas por não falar o nosso idioma, mas apressou-se a esclarecer que fazia escola de idiomas e  brevemente estaria em nossa companhia também no idioma. Avisou-me também que não era muito fluente em línguas, que provavelmente demoraria mais que seis meses para acompanhar-me razoavelmente em português. Em sua última viagem demorou dois anos para falar chinês suficiente para auxiliar na reformulação do cenário atual do canato da China.

Gostaria de saber onde e quando poderia ouvir algum Mozart na cidade.

Perguntando-me a respeito dos meus planos de futuro, disse-lhe que pretendia ficar num lugar calmo e tranqüilo; Campos do Jordão seria a primeira alternativa se não estivesse, já hoje, degradada.  Ele preferiu Nova Iorque.

Enfim uma figura monolítica.

Participamos de uma longa rodada de negociações, horas de interminável apresentação de planos, projetos, taxas, índices. Conversamos sobre o presente, sobre o futuro e sobre o passado.

Ao final de um breve intervalo, sorriu para mim -  amistosamente - tirou de dentro de sua pasta um exemplar de ‘Lauren Bacall: by Myself’.

Explicando-me calmamente ao abrir o volume e exibir a assinatura da autora:

- Esse é meu hobby.  Coleciono livros autografados pelos autores.

-Ah. E é muito difícil encontrá-los?

-Não, faço isso pela internet. É fácil, rápido e barato.

Olhei o vermelho rubro da capa e a assinatura dela. Inteiriça, firme e formando um único bloco.

Também.

Estilhaço

scriptu em Existo: talvez. by Djabal Tuesday July 3, 2007

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Magro. Veio do sertão das Minas Gerais. Trabalhou a partir dos oito anos na roça, ajudando o pai. Filho mais velho de oito, logo aprendeu a trapacear, ensinado pelo pai, que tomava todo o seu tempo para o trabalho. Eram pobres em demasia para poder estudar, portanto, freqüentou a escola por dois anos. Nada mais. Ao completar dezoito anos juntou-se ao irmão para poder fugir. Fugiu para São Paulo. Aprendeu a vender carnê. Receber primeiro e quem sabe entregar depois. Andou por todo o Estado. Houve lugar em que nunca mais pode apresentar a sua triste figura. Vendeu para comer, ficou com as prestações.

 

Alto. Logo percebeu que não era uma vida de futuro. Não sabia exatamente o que queria, mas sabia perfeitamente o que não. Veio para a Capital e se assentou numa pensão no Largo da Matriz. Dividiu com seu irmão o seu espaço alugado. Chamou outros amigos, para matar as saudades do seu lugar de origem. Considerado uma espécie de professor. De hábitos das cidade e dos cidadãos.  Todos sabiam a arte de capinar, arrotear, plantar e colher. Verbos que pareciam originários da Bíblia de antigos homens.

 

Avaro. Trabalhou num boteco, na zona. Vendia café, almoço e jantar. Todos os pratos feitos. Misturas insondáveis no pó, na colher e no garfo. Ganhava muito pouco, economizava tostões para comprar um carro. Observou o comportamento do dono, viu que ele pegava pouco no pesado. Sabia comandar, brigar, intrigar, dividir e usufruir. Não tinha marca na mão, só umidade. Afinal de contas, trocou um pai por outro, com a diferença que este segundo pagava um ‘bocadinho’. Deixava as suas noites para as fêmeas e para a conversa. Conversava muito. Conhecia pouco a língua da cidade, usava a sua própria. Apresentou uma pessoa para o patrão, achou que ambos combinavam. De fato, ganhou  uma boa grana pela venda do botequim. Intrigou-se pelo fato de apresentar dois amigos e ganhar dinheiro por isso. Dinheiro era uma espécie de sacramento para ele. Sagrado, estranho, misterioso poder conferido para tudo e sobre todos.

 

Inteligente. Apresentar pessoas umas às outras dava mais dinheiro que trabalhar. Faltava descobrir o que as ligava, as tornavam amigas uma das outras. Pensou nos interesses.  Uma pessoa seria amiga de outra quando tinha algum interesse nela. Grandes interesses, grandes amigos e grande recompensa. É isso. Foi trabalhar numa imobiliária. E, de fato, se deu muito bem. Foi reconhecido como uma pessoa capaz de unir os mais inimagináveis interesses. Tinha uma liberdade absoluta para sugerir. Apesar de ser objeto de chacota dos seus iguais, seus clientes, tinham seus interesses, e não se importavam com a língua, os trejeitos e a falta de conhecimento. Provou  que a inteligência não depende da educação. A inteligência depende do caminho traçado, do ideal. Ganhou e perdeu. Perdeu novamente e ganhou. Incessantemente.

 

Cambaio. Certa ocasião pegou seu chefe e foi com ele atender um grande amigo, industrial; gostaria de fazer amizade com outro do mesmo poder. Dessa vez não quis arriscar. Levou-o como garantia de um diálogo reconhecidamente redondo, sem nenhuma ponta que poderia arrancar junto com a daninha erva  a raiz. Mesmo sem marcar horário para a conversa, conseguiu se sair bem com sua estratégia. Afinal de contas o homem sabia contar histórias. E como. Apesar de não entender muito bem o sentido, gostou da música e o seu amigo também. Ótimo. Na saída, confidenciou que gostaria de conhecer uma ‘sexy-shop’ O chefe não respondeu, não negou, portanto, aceito a sugestão. Lá foram eles. Encontraram rapidamente. Estacionaram o carro e entraram. No meio daqueles artefatos, estranhou muito apesar de reconhecer algumas formas. Foram atendidos por uma senhora, entrada em anos. Ele pigarreou, traindo seu desconforto e perguntou:

“Onde estão as meninas?” “Podemos escolher?”

 

Prótese

scriptu em Escrito pelas estrelas by Djabal Monday July 2, 2007

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É doce, porém se torna azedo

por pura precaução. O olho enorme

jamais se fecha, nem quando dorme.

Se é que dorme. Mais ainda é cedo

pra testar esta ou aquela hipótese.

Segundo alguns, jamais sente medo.

Outros pensam que o olho é uma prótese.

Paulo Henriques Britto in Tarde.

Margem

scriptu em Escrito pelas estrelas by Djabal Monday July 2, 2007

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“Negue toda margem.”

Álvaro Mutis

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