Fé e a Crítica

scriptu em Escrito pelas estrelas by Djabal Friday August 31, 2007

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A meio caminho entre a fé e a crítica está a estalagem da razão. A razão é a fé no que se pode compreender sem fé; mas é uma fé ainda, porque compreender envolve pressupor que há qualquer coisa compreensível.

Fernando Pessoa in “O livro do desassossego” através de Bernardo Soares

Lâminas

scriptu em Escrito pelas estrelas by Djabal Thursday August 30, 2007

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As lâminas afiadas do ar do século XX.

As lâminas afiadas da tensão do século XX.

As lâminas afiadas da atenção do século XX.

As lâminas afiadas da rotação do século XX.

Murilo Mendes in Sintaxe

Reino dos Mil Anos

scriptu em Acaso Sinto? by Djabal Tuesday August 28, 2007

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Escrever sobre o amor é coisa para Stendhal. Não é coisa para uma manhã inóspita de terça feira, comum como todos nós. Assim mesmo, aquele que não gosta de jogos de azar, arriscará uma ficha numa casa onde jogando sempre se  vencerá. Explico: jogando a terça inteira num quadrado vermelho ou negro, sempre o mesmo valor - ao fim e ao cabo - ganharemos.

Amor e mar. Ambos são verdadeiros. Apresentam-se em mil faces, cada uma delas guarda a lembrança daquela forma original. Mas o cinzento do mar e a beleza da face escondem muitas coisas. O que está oculto é maior do que é aparente. Somos três quartos de água e um quarto de terra.

Coisas que são aprendidas são depois desprezadas. Como terra conquistada ao mar. Portanto é melhor ignorar. A ignorância é a certeza da felicidade? Não apenas isso. Mas a ignorância nos dará o prazer contínuo da descoberta. Tornará uma friorenta terça  num festivo sábado à noite. Ainda que o sábado seja uma simples quarta. Nunca teremos um domingo fim de prazer. A mudança do mar e do rosto será sempre contínua e renovaremos nossa esperança e entusiasmo. Sempre seremos viajantes descobridores. Sem eles não se consegue viver.

Viver é vontade.

Viver é intuição.

Viver é ignorar.

Viver é sentimento.

Portanto amar é obra de uma vida inteira, pode significar o próximo ou o distante. Pode significar o sexo oposto ou o mesmo sexo. Amar, hoje, é significado de loucura. Quer saber?

Se agora mesmo, você sair para a rua e olhar para a primeira pessoa que passar e dizer:

- Eu amo você! Sorria docemente.

Ele pensará  que você é um louco manso que não oferece perigo. Com um olhar de piedade e tristeza continuará seu caminho, balançando a cabeça suavemente. Tenha cuidado de não aliar à frase um gesto. Qualquer. Arriscar-se-á a ser jogado no chão para se evitar qualquer outra ameaça.

Ao passo que, vencida essa primeira situação, se você continuar o seu trajeto e depois de alguns instantes, ao passar o próximo, se encha de coragem e diga:

Eu ODEIO você!

Ele o olhará assustado e o identificará  como pertencente a algum partido de oposição, ou partidário da situação,  viu nele algum sinal contrário. Seguirá adiante e dirá a um colega do trabalho:

- Cara; encontrei um militante que pensou que eu era seu adversário. Que maluquice, não?

Arrisco dizer que jamais se compreenderá racionalmente o que é o sentimento de amor. Ele não pode ser contado, achado e dividido. Ele pode ser sentido e intuído, jamais será explicado. Hoje ele passa por um período de desprezo tão grande que corre o risco da extinção. Poderá ser exibido nos futuros Museus de História Sentimental. O reino dos mil anos se distancia a passos rápidos e seguros.

Quem viver verá.

 

 

Quadriga

scriptu em Escrito pelas estrelas by Djabal Tuesday August 28, 2007

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Amamos uma pessoa porque a conhecemos e porque não a conhecemos;

e a conhecemos porque a amamos, e não a conhecemos porque a amamos.

Robert Musil, in “O homem sem qualidades” através de Lia Luft e Carlos Abbenseth

Saudável

scriptu em Escrito pelas estrelas by Djabal Monday August 27, 2007

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Nada mais saudável  para um homem do que esquecer de si mesmo.

Robert Musil in “O Homem sem qualidades” através de Lya Luft e Carlos Abbenseth

Mundo

scriptu em Escrito pelas estrelas by Djabal Friday August 24, 2007

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Na vida de hoje, o mundo só pertence aos estúpidos, aos insensíveis e aos agitados. O direito a viver e a triunfar conquista-se hoje quase pelos mesmos processos por que se conquista o internamento num manicómio: a incapacidade de pensar, a amoralidade, e a hiperexcitação.

Fernando Pessoa in “O livro do desassossego” através de Bernardo Soares

Ana

scriptu em Existo: talvez. by Djabal Thursday August 23, 2007

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Essa moça se chama Ana. Filha de um pai próspero e trabalhador que desde cedo aprendeu o valor prático do trabalho. Aprendeu quebrando pedras. Junto com seu pai. Pedras que eram pagas ao final do dia, de acordo com as horas gastas no trabalho. Percebeu que alguns trabalhavam melhor que os outros. Pediu ao seu superior que gostaria de receber pela quantidade de pedras e não de horas. Concordaram. O pai não. Foi a primeira separação. O pai já estava habituado, ele não.

Fez fortuna. Com esse simples processo prático de trabalhar muito; quem trabalha mais, recebe mais. Apesar de católico, adotou como prática a de Lutero. Aquele que dignificou o trabalho. Como um dos símbolos da preferência divina.Casou com sua primeira namorada. Jamais conheceu outra mulher. Viveu para o trabalho. Ana desde cedo demonstrou grande habilidade para línguas, aprendeu várias; viajou, conheceu, sentiu.  Do pai aprendeu a ser determinada em seus objetivos, herdou da mãe uma grande sensibilidade e delicadeza.

E quando saquei esta foto e mostrei ao seu pai, ele me disse:

- De fato a minha Ana, tem um comportamento muito anti-social, ela é carente de senso comunitário, vive isolada, de pouco falar, não dá o menor valor ao trabalho, não se diverte com nada, apenas lê. Está aprendendo basco, imagine só. Mora um apartamento parecido com um mosteiro. Não tem nada. Um sofá duro como pedra. Feito sob medida para penitentes, ninguém consegue se sentar por mais de quinze minutos. Livros. Dois computadores, um  não está ligado com nada, exceto a rede elétrica, por medo de vírus, usado apenas para escrever, e outro interconectado em rede, usado como telefone, mais do que qualquer outra coisa. Ela vê o mundo através desta vidraça, persiste num isolamento voluntário, sempre à beira de um ataque de nervos. E bebe. Não publica nada. Bebe. A internei várias vezes para se tratar, visto que não compreende o meu objetivo, fiz isso à força. Ela fugiu várias vezes para se internar por conta própria em seu apartamento. Desisti. Ela não tem energia necessária para enfrentar os tempos atuais. Foge das suas exigências.

Mostrei a mesma foto para Ana e ouvi:

- Que belo trabalho  o seu. Você percebeu nas poucas vezes que nos encontramos o meu dilema. Não consigo compreender o mundo que me cerca. Ele está velado para mim. Não consigo me relacionar com ninguém. Sou tida como esquiva, com pensamentos ingênuos e altruístas. Não gosto de comprar nada, de consumir nada. Vivo em paz com meus livros, e não em paz comigo mesma. Mesmo as palavras companheiras, não podem ser tomadas ao pé da letra, pois nesse caso o mundo se transformaria no verdadeiro hospício. Busco a minha redenção e não consigo encontrá-la, em livro ou em meu semelhante. Sinto-me despedaçada. Formada de milhares de pedaços que não conheço, e que procuro ao longo desses meus poucos dias tirar para fora através da palavra. Consigo compreender que por não gostar de mim procuro gostar do meu interlocutor, fazendo tudo, absolutamente tudo que o agrade. Cada um deles tem uma parte de mim. Cada um deles tem um dos meus defeitos. E é essa a minha devassidão. Ou melhor, a minha divisão. Devassa dividida buscando no pouco tempo de uma vida encontrar uma alma gêmea,  como um irmão siamês, aquela outra parte do meu ser que foi um dia indistinta e que hoje está inexoravelmente separada. Esse vidro mostra-me a realidade de viver num aquário. Cercado da minha respiração transformada em gotas que escorrem suave e indefinidamente. Sem nenhuma finalidade.

 

Cocaína

scriptu em Escrito pelas estrelas by Djabal Wednesday August 22, 2007

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O sonho é a pior da cocaínas, porque é a mais natural de todas. Assim se insinua nos hábitos com a facilidade que uma das outras não tem, se prova sem se querer, como um veneno dado. Não dói, não descora, não abate - mas a alma que dele usa fica incurável, porque não há maneira de se separar do seu veneno, que é ela mesma.

Fernando Pessoa in “O livro do desassossego”, através de Bernardo Soares

Internet e Literatura

scriptu em Penso? by Djabal Tuesday August 21, 2007

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“Maneirismos vocabulares e “excessos” de coloquialismo à parte, a verdade saltita diante de nossos olhos: não se pode destacar nenhuma conquista de ordem sintática, semântica ou estética trazida pela internet”. 

Li essa afirmativa agora cedo. Ela é de um amigo e ótimo escritor. Antonio Fernando Borges. E com ela fiquei divagando o que divido com vocês agora.

Concordo com você. O fator mais importante é o humano.Mas havia pensado numa espécie de inteligência coletiva, facilitada por este instrumento que representado por uma tela e um teclado exibem meu pensamento para você, pensamento que foi fruto do seu que já me foi exibido. O processo é quase instantâneo, não passa por mais ninguém. Não há desvios, não há revisores, nada. É tudo direto, na véia, ops, na veia.Esse é o primeiro passo do caminho iniciado por você, com suas dúvidas,  e afirmações. O sentido do diálogo é fundamental na nossa espécie. Somente por ele caminharemos adiante. Somos medrosos.Poderíamos dizer que a inteligência coletiva - hoje - tem se demonstrado mais uma desinteligência que outra coisa. Fruto dos tempos. É certo também que vivemos no tempo da desinteligência. Apesar de tudo, para mim é maravilhosa esta possibilidade. Ela é imponderável. Inalcançáveis serão os seus efeitos. Um deles:  da interação. De convivermos e trocarmos idéias para um aprimoramento da linguagem e das idéias conseqüentes. Hoje é certo que não conseguimos descrever nada com exatidão. Tudo é vago, distante, enevoado, cheio de significados escondidos.  Tudo somente ocorrerá no tempo certo.  Ele terá que absorver essa inovação. Não sei quando.Veja como a linguagem se desenvolveu desde Vieira até os nossos dias. Podemos reconhecer a beleza do seu texto, assim como no de Dalton Trevisan.Hoje exigimos rapidez, portanto os textos são menores e piores. Alguns escrevem pouco e bem, numa linguagem já adaptado ao tempo dos computadores, outros escrevem pouco e mal. Também é humano.Para terminar, acredito que ainda não conseguimos nenhuma mudança essencial na linguagem, influenciada pela internet. Mas ela ou elas virão. Estou certo disso. Não há censura que consiga deter esse efeito.A massificação dos escritores dará oportunidade para os talentos que não tinham meios de se apresentar. O homem sempre deverá estar preparado para os sinais. Eles quando não nos pegam distraídos têm um efeito fantástico sobre nós. A internet é um grande sinal. Não? 

Palavra

scriptu em Escrito pelas estrelas by Djabal Monday August 20, 2007

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tudo parece parar

se uma palavra

em mim farfalha

 

moçambaba

arequipa

tracunhaém

 

é como se um solo

- hendrix? layla? -

zoasse inside

 

o globo

ocular

entrasse em órbita

 

e o estabelecimento

fechasse pra balanço

 

Chacal in Belvedere

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