
Essa moça se chama Ana. Filha de um pai próspero e trabalhador que desde cedo aprendeu o valor prático do trabalho. Aprendeu quebrando pedras. Junto com seu pai. Pedras que eram pagas ao final do dia, de acordo com as horas gastas no trabalho. Percebeu que alguns trabalhavam melhor que os outros. Pediu ao seu superior que gostaria de receber pela quantidade de pedras e não de horas. Concordaram. O pai não. Foi a primeira separação. O pai já estava habituado, ele não.
Fez fortuna. Com esse simples processo prático de trabalhar muito; quem trabalha mais, recebe mais. Apesar de católico, adotou como prática a de Lutero. Aquele que dignificou o trabalho. Como um dos símbolos da preferência divina.Casou com sua primeira namorada. Jamais conheceu outra mulher. Viveu para o trabalho. Ana desde cedo demonstrou grande habilidade para línguas, aprendeu várias; viajou, conheceu, sentiu. Do pai aprendeu a ser determinada em seus objetivos, herdou da mãe uma grande sensibilidade e delicadeza.
E quando saquei esta foto e mostrei ao seu pai, ele me disse:
- De fato a minha Ana, tem um comportamento muito anti-social, ela é carente de senso comunitário, vive isolada, de pouco falar, não dá o menor valor ao trabalho, não se diverte com nada, apenas lê. Está aprendendo basco, imagine só. Mora um apartamento parecido com um mosteiro. Não tem nada. Um sofá duro como pedra. Feito sob medida para penitentes, ninguém consegue se sentar por mais de quinze minutos. Livros. Dois computadores, um não está ligado com nada, exceto a rede elétrica, por medo de vírus, usado apenas para escrever, e outro interconectado em rede, usado como telefone, mais do que qualquer outra coisa. Ela vê o mundo através desta vidraça, persiste num isolamento voluntário, sempre à beira de um ataque de nervos. E bebe. Não publica nada. Bebe. A internei várias vezes para se tratar, visto que não compreende o meu objetivo, fiz isso à força. Ela fugiu várias vezes para se internar por conta própria em seu apartamento. Desisti. Ela não tem energia necessária para enfrentar os tempos atuais. Foge das suas exigências.
Mostrei a mesma foto para Ana e ouvi:
- Que belo trabalho o seu. Você percebeu nas poucas vezes que nos encontramos o meu dilema. Não consigo compreender o mundo que me cerca. Ele está velado para mim. Não consigo me relacionar com ninguém. Sou tida como esquiva, com pensamentos ingênuos e altruístas. Não gosto de comprar nada, de consumir nada. Vivo em paz com meus livros, e não em paz comigo mesma. Mesmo as palavras companheiras, não podem ser tomadas ao pé da letra, pois nesse caso o mundo se transformaria no verdadeiro hospício. Busco a minha redenção e não consigo encontrá-la, em livro ou em meu semelhante. Sinto-me despedaçada. Formada de milhares de pedaços que não conheço, e que procuro ao longo desses meus poucos dias tirar para fora através da palavra. Consigo compreender que por não gostar de mim procuro gostar do meu interlocutor, fazendo tudo, absolutamente tudo que o agrade. Cada um deles tem uma parte de mim. Cada um deles tem um dos meus defeitos. E é essa a minha devassidão. Ou melhor, a minha divisão. Devassa dividida buscando no pouco tempo de uma vida encontrar uma alma gêmea, como um irmão siamês, aquela outra parte do meu ser que foi um dia indistinta e que hoje está inexoravelmente separada. Esse vidro mostra-me a realidade de viver num aquário. Cercado da minha respiração transformada em gotas que escorrem suave e indefinidamente. Sem nenhuma finalidade.