Guanabara

scriptu em Acaso Sinto? by Djabal Wednesday August 1, 2007

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João é o meu nome. Acabei de ler o Quixote. Sexta feira à noite viajaria para o Rio de Janeiro. Após uma semana exaustiva de trabalho e algum estudo à noite, tirava o final de semana para rever a cidade que tanto gostava.

Nasci ali, mas fugi na época das febres, doente. Meus pais nunca mais voltaram. Gostava de pegar a estrada e chegar na madrugada e ficar na praia da Barra para ver o sol nascente. Era uma imagem que sempre me dava a devida dimensão de sua vida. O sol. O nascer do sol.

Esperava um horário civilizado para chamar a Suca. Apresentada por Campos um grande amigo de escola. Tinha esse nome por ser de Campos do Jordão e ter muito orgulho disso. E o nome ficou. Não se sabia o seu nome verdadeiro. Era o Campos. Uma grande figura, com parentes na cidade servia além de amigo, como guia, como se fosse uma das colunas de um Portal.

Dario era meu grande amigo, a segunda coluna do Portal. Não saberia definir o que é ser um grande amigo. Ele era mais do que isso.  Junto com Campos formavam um guia prático de leitura da vida. Um portal no qual estava pendurada a cortina que escondia a vida, seu significado ainda oculto.  Eles sabiam afastar a cortina a meu pedido revelando os segredos buscados.

Sempre fui um leitor apaixonado e por isso mesmo pensei que sabia tudo. E quando pensava, calculava e planejava, percebia que esse tudo não era nada.

O Dario precisava traduzir para mim, coisas que não estavam nos livros. Ele é um prático. Intuía tudo, praticamente tudo. Traduzia o mundo para mim. Sorridente, alegre, sem compromisso, acompanhava-me para todos os lugares, em qualquer dia e qualquer horário. A cortina sempre se abria como seu sorriso. Ele tinha uma grande força física, um corpo treinado pelo esporte, foi pugilista. Conheci a primeira ópera com ele. Carlos Gomes. Dormiu como um santo em pleno segundo ato de “Lo Schiavo”

A cortina não se abria com a mesma facilidade para o Campos. Ele a abria, mas tinha que puxar. A perseguição o consumia. Não sei bem o porquê, até hoje. Não conseguia compreender como um poder de intuição tão grande não lhe era satisfatório. Sempre existia algum motivo atrás da própria cortina que não se revelava para ele por completo. Seu pai morreu cedo.

Nove horas.

Estacionava na Av. Nossa Senhora de Copacabana e a buscava para o nosso final de semana. Uma menina miudinha, castanha, de grandes olhos orientais, trabalhava na câmara de comércio exterior. Descendente de libaneses era minha versão da Sherazade. Sempre pronta, meiga, agradável e linda.

Disse-me, certa ocasião, que eu despertava nela atitudes que nunca havia tido. E o mesmo se passava comigo, sem que eu tivesse tido coragem para lhe dizer. Ela tomou a iniciativa. Tínhamos um completo conhecimento um do outro. Os movimentos eram simultâneos e coincidentes. Tínhamos em conjunto a mesma forma e movimento de um véu. Impossível viver melhor. Escrevia muito bem. Cartas longas e carinhosas desnudando-se mais no papel do que na atmosfera comum. Os sentimentos eram desmedidos.

Acordávamos juntos, ela sempre fresca. Parecia que não dormia. Tinha certeza que ela acordava antes para suas primeiras águas, a fim de parecer sempre fresca. Incrível.

Ao me aproximar para fazer a barba encontrava sempre uma pedra pome. Eu não sabia o que era. Perguntei e ela me esclareceu: “Em caso de cortar o rosto com a lâmina; use.”

Ela exigia muito do meu caráter, quebrou meus medos no túnel “Dois irmãos”, ensinou-me a rir e a confiar.

O Dario dormia, contava os casos e dormia. O Campos namorava com a Lúcia. Tínhamos uma vida inteiramente diferente. Eram duas existências São Paulo e Rio. Esse conjunto formava um equilíbrio perfeito; todas as nossas ambições, anseios e necessidades estavam mutuamente atendidas; o mundo se tornou inofensivo para mim, estava inteiramente integrado nele.

Precisava trazê-la para São Paulo. Queria mostrá-la para os meus. Queria fundir as duas existências numa só.

Ela compreendia que meu pensamento não era cálculo. Não se prendia àquela forma de violência institucional que era o dinheiro. Era apenas um hábito adquirido pela literatura. Ela sabia.

Assim fiz. Consegui convencê-la, com muito custo. Fui com meu pai receber a Suca. Passamos em casa todo o final de semana. Aquilo tudo era muito bom, mas algo diferente. Estava sem o meu portal. Tinha mais, tinha a impressão que ficara aberto. E lembrei-me da história da queda de Constantinopla , ocasionada por uma porta aberta.

Deixei isso de lado.

Chegou à noite; a levamos de volta para o terminal.

Voltei meu rosto para meu pai, aflito e curioso pela sua opinião, não precisei dizer nada:

“Ela não serve pra você.”

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