Sísifo revisitado

scriptu em Existo: talvez. by Djabal Friday August 3, 2007

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Numa porta da minha casa, deitado na soleira, podia observar aquela árvore de sombra frondosa, não tinha nada de excepcional, nem muito grande, nem muito pequena, demonstrava ser bastante antiga e bastante sólida, estava ali, cumpria seu papel.

Do seu todo se destacou no galho mais alto uma folha isolada das demais. Comandava, aparentemente, todas as outras e na direção em que se inclinava, inclinava-se todo o conjunto. As brisas pareciam concordar.
Todos os dias eu cumpria o meu percurso no trabalho de transportar pedras, e sempre me deitava para olhar, descansar, e a árvore sempre me chamava a atenção. As formigas, insetos, e pequenos animais, sempre percorriam seus galhos, passando por um roteiro imaginário que sempre incluía aquela folha.

Um pássaro – Simorg - daqueles de exposição, fazia parte do conjunto e passava todo o seu dia por ali, ora num galho, ora noutro, sempre se movimentando, sua ambientação era tão grande, que sua cor - que nada possuía de verde - se metamorfoseava. Após um tempo, passou a se dedicar àquele galho, àquela folha, e seu tempo se concentrava todo ali. Passou a cantar somente quando nele se encontrava, ali não havia nenhum obstáculo, além disso, em função da posição privilegiada a música destacava ainda mais seu intérprete. Cantava a harmonia universal. Tirava o brilho máximo, as demais folhas, galhos, clorofilas, liquens, insetos, parasitas, paravam sob sua voz, ou melhor, agiam conforme seu ritmo. Até a folha solitária agia dessa forma, se subordinando. Esqueceu da sua fixidez; paulatinamente se tornava móvel como a ave.

Aquele contraste entre movimento e quietude, cada vez mais chamava-me a atenção, principalmente a relação entre a folha e o pássaro. Uma solene; outro ágil, nervoso, agitado, colocando em evidência aqueles movimentos binários, próprios de quem vai à direita ou à esquerda, acima ou abaixo, numa incrível velocidade, num átimo de segundo decide e faz. Os galhos se transformaram em trapézio, numa gaiola, pois ele não sai - quase - mais dali.

Pensei que o pássaro se transformaria numa folha. Ele, porém, vagueou e desceu para examinar nova folha, mais embaixo, num outro galho do conjunto e nisto houve uma repentina alteração . Seu movimento foi brusco, brusco demais e bateu na antiga folha; nada de muito grave, imaginei.

A seiva daquela folha encontrou passagem de saída pelo caule danificado, e com isso seu vigor já não era o mesmo, a solidez também ficou prejudicada, e a harmonia da árvore já apresentava diferença. O pássaro passou a visitar assiduamente aquele outro galho, não mais passava o dia como antes, e o seu canto era diferente; sem viço.

Numa quinta-feira, a folha cedeu seu espaço, estava opaca, inclinou-se sobre si mesma até se desprendeu do tronco, iniciando uma queda lenta, como uma melodia de Satie, tentando imitar o movimento da ave, desenhando uma curva e ficou enlaçada no galho de duas folhas, que funcionou como um anteparo. Naquela altura dos acontecimentos, o peso da ave que ali pousara, precipitou nova queda, desta vez definitiva, ora parando aqui, ou ali, mais a direção era uma só : o chão.
Ali permaneceu a folha durante os dias, que passavam inexoravelmente. As suas nervuras e filamentos se tornaram nodosos, a sua cor se modificou até se tornar ocre, sem vida, ríspida, agressiva.
Certo dia, um anão - desses de contos fantásticos, ou de circo, [ com verruga no rosto], bizarra figura - desajeitado como sempre são os anões, passou por sob a árvore, pisou na folha, e o que restou foi apenas o ruído que produziu sob sua bota.
Perdi o interesse pela árvore, mudei de caminho, assim como fez o pássaro. De resto; continuei carregando pedras.

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