Arenque

Vocês já me conhecem. Mestiço de chim com brasileiro. Meu nome é Shao, João Shao.
Depois da frustrada tentativa de conhecer Las Vegas, andei muitos e vários dias pensando no Winfried Georg Sebald. Um escritor de língua alemã, residente há muitos anos na Inglaterra. Foi nele que li uma incrível história natural do arenque. Suas histórias não têm nenhuma linha aparentemente coerente de assuntos. São textos de exilados, de personagens extravagantes, contados e contidos. Para quem gosta de pensar, são extraordinários.
Ele é pouco conhecido no Brasil, no sábado encontrei-o num artigo de jornal. Ele foi lembrado por uma escritora. Uma ocasião própria para dar uma chance ao acaso.
Não. Não ainda. Não havia soado o sino.
No domingo fui a um circo. Nele qual o quadro principal? Um quadro de marinheiros, timão, leme, bombordo, estibordo, cordame e demais palavras náuticas. Fechou-se o quadro.
Fui com uma amiga alta. Vestida com um casado e um chapéu de lã. Pura lã. Próprio para o inverno paulista; que é o local da minha atual residência. O circo foi montado num terreno que estava diante do cemitério.
- Vista eterna para o nosso futuro.
Disse minha amiga, que ficara muito parecida com a versão feminina do Tom Waits, menos pelo chapéu do que pela coerência e rústica consciência das palavras a serem ditas.
E ficamos conversando após a função. Sentados no estrado de madeira com um pé na areia que circunda o picadeiro. Lembrei-lhe do costume de colocar areia no piso das sinagogas das Antilhas Holandesas (Curaçao) para refrescar a memória dos penitentes que estavam ainda no Egito. No Egito interno de cada um. Somente em seu lar o piso seria firme o suficiente.
- Afinal de contas todos nós somos exilados. De uma ou de outra.
Da areia das Antilhas passei para as areias de Lowestoft (Região de Suffolk.) para contar dos arenques, batendo na minha cabeça desde dois mil e dois.O arenque é um dos alimentos mais comuns daquela região do Mar do Norte. A sua pesca dá emprego para milhares de holandeses e frísios. Eles têm um comportamento que até hoje não dá nenhum parâmetro lógico para seus predadores. Aparecem onde não são esperados. Suas trilhas são insondáveis. Em síntese, os pescadores só têm as lendas e suas próprias observações para seu trabalho.
Os cardumes apresentam “formações regulares de cunha num determinado ângulo de incidência dos raios solares enviando ao céu um reflexo pulsante.” As suas cores variam do verde metálico para o azul, mas no geral são da mais pura prata e o que é melhor, brilham intensamente após a sua morte. A pesca é de rede, feita de seda preta – para não os assustar – e se acreditava que eles morriam ao contato com a rede no puxão final para a superfície. Imagine a surpresa quando os trabalhadores viam os animais fatigados e tentando respirar três ou quatro horas após o contato com o ar.
Cada fêmea põe cerca de setenta mil ovos. E se fossem todos fecundados haveria uma superpopulação com volume equivalente a vinte vezes o da terra. Houve uma época em que cardumes de arenque se atiraram àquela costa, provocando um morticínio sem precedentes, onde nem mesmo toda a população local colocando os corpos em caixas e lonas conseguiram aproveitar toda a quantidade que ficou exposta. Ao restante não ficou outra opção que não o apodrecimento.
Ela ouvindo atentamente a minha história disse:
- Essa é a nossa história ou você está contando uma outra das suas parábolas loucas?
