Fio da meada
A partir do segundo grau freqüentei a escola tendo como motivo principal a minha namorada: Ângela. Íamos juntos para o colégio, ela sentava à minha frente. Fazia o possível para que ninguém sentasse naquele lugar, para admirar suas costas, ombros e seu pescoço branco, longo e lindo. Algumas vezes ela colocava em liberdade o seu cabelo castanho, farto e encaracolado e assim eu podia variar o foco da minha atenção.
Da monotonia que era estudar consegui, sonhando, virar tudo de cabeça para baixo. Estudar era o apêndice. O corpo principal se constituía do namoro.
Chegávamos. Logo após, saía novamente para freqüentar outra escola. Escola Americana. Gostava de ver o jogo de basquete e o de handebol e ficava matando aula até o horário daquela que seria a minha saída. Chegava sempre antes do término. Nos dias que não esporte – paciência - assistia às aulas.
Sempre fui de comportamento expansivo, aliado a uma inexorável tendência a ser gordo. E por isso mesmo era chamado de Sargento Garcia (aquele antagonista do Zorro que vivia rindo), não dei a menor importância ao fato, o que levou o apelido ao esquecimento.
Tinha verdadeiro terror da hipótese de ser chamado de Garcia perante ela; esse temor se revelou infundado era puramente irracional. Os alunos que freqüentavam o ônibus escolar não eram os mesmos. Ela era apenas companheira de viagem, não freqüentávamos o mesmo curso. Seguíamos viagem sempre juntos. E um outro pequeno detalhe. Ela – creio - jamais soube do nosso longo namoro que durou dois anos.
Terminei o curso. Aos trancos e barrancos. Pretendia nunca mais estudar. Fui trabalhar.
Aconselhado pelo meu pai. Conselho útil na forma e no conteúdo. Sempre gostei muito de música, ouvia horas seguidas. Um dia resolvi variar o gosto musical e comprar um novo álbum, portanto, pedi um dinheiro pra ele.
- Amanhã cedo conversaremos.
Acordei cedinho. Sentei e o esperei para o café. Não se falou nada. Nadinha. Terminamos e ele me convidou para acompanhá-lo.
Fomos até um escritório próximo de casa.
-!?!?! –
-Conversei com o proprietário e você está contratado, daqui trinta dias você terá o salário; com ele você poderá comprar o que você bem entender. Parabéns e muito boa sorte.
Adquiri minha independência. Deixei de estudar e segui em frente, me emancipei. Trabalhando, aprendi a ser mais prático. Depois de três anos, percebi que precisava estudar. Vocês devem se lembrar que sou mestiço e para honrar minha posição, fazia todos os contratos da companhia, sem ser advogado. Era indagado frequentemente qual era minha formação.
A resposta: “Nenhuma.” Era muito constrangedora.
Resolvi estudar. Porém estudei administração. Fiz uma escolha criteriosa para saber qual a melhor faculdade para que minha vida ficasse facilitada, após a formatura. Escolhi, fiz vestibular, comecei – período noturno. Tinha absoluta certeza que meu futuro estava assegurado.
Quase no término do curso, fui apresentado para o nosso melhor cliente. Já como futuro superintendente da empresa na qual trabalhava. Indagado novamente da minha escolaridade, disse cheio de escondido orgulho:
- Administração de Empresas.
- Administração Pública ou Privada? – retrucou.
- Privada – respondi.
- Curso da manhã ou tarde?
- Curso noturno.
- Que pena, esse curso tem um ótimo programa, mas não deixa tempo para o estudo. Estudante deve estudar.

