Romano
Caldo feito dos mais diferentes temperos recebi de Confúcio e seus descendentes a mais completa obediência às regras e a rigorosa boa fé na palavra do semelhante. Tive um avô que foi caçador de índios de família portuguesa (os Borbas) que me deu essa melancolia, aliada a suspeita placidez que toma conta de mim, sempre.
Jamais consegui aceitar a minha implicância com os Romanos. Apesar de ter sido enganado por todo aquele que foi dado conhecer. Alguns. Tentei afastar de mim este copo amargo, e tornei essa idiossincrasia proibida e ignorada.
Hoje pela manhã estava lendo Graciliano Ramos, um livro seu chamado: Viventes das Alagoas; lá encontrei a história de Inácio da Catingueira e Romano. Foi nela que compreendi e encontrei satisfação para minha birra.
Na cidade de Patos da Paraíba ocorreu um concurso musical com esses dois cantores. Concurso que se chama “martelo”. Um deles chamado simplesmente Inácio e outro Romano, moço de uma família de cantores e poetas, com nome mais comprido: Francisco Romano da Teixeira, pai do chamado Josué Romano, também cantador, e irmão por nome de Veríssimo Romano. Como vêem família de reputação insuspeita.
Inácio tinha além da deliciosa malícia uma grande facilidade para versejar, era imbatível em todas justas da qual participara até então.
No combate com Romano, chamou-o humildemente de meu branco e combateu versejando como nunca, até que seu oponente apelou, no ato de desespero, para nomes como “Latona, Cibele, Ísis, Vulcano e Netuno…”
Havia na região uma característica conhecida de todos: o analfabetismo. Portanto, ninguém conhecia o significado das palavras colocadas na canção. Entretanto por medo de confessar sua ignorância, pelo temor que a família infundia em todos, foi declarado vencedor aquele que fugiu da regra e teve o seu pedantismo e insolência premiados.
Graciliano conclui que muitos preferem descender dos Romanos, que “sempre foram os donos intelectuais do Brasil.”
Terra onde a ignorância ousada sempre vence a inteligência tímida.
Jamais conseguirei raciocinar com tamanha profundidade e tirar de um símbolo o conteúdo maior que nos atinge a todos.
Mas numa visão mais particular e totalmente egoísta consegui algo graças ao acaso benfeitor.
Hoje reconheci mais um ascendente meu: Inácio da Catingueira. Gostaria de percorrer a caminhada de meus antepassados, ir pelas Minas Gerais ultrapassando o rio São Francisco e chegando em Patos, encontrar meus familiares mais recentes e contando e ouvindo histórias, depois de um certo tempo, partiríamos para a África na busca dos parentes mais remotos.
