Mar

Se eu pudesse atribuir um símbolo ao mar esse seria a verdade. O mar é a verdade. Ela não é um cristal, é um líquido infinito no qual mergulhamos; alguém me ensinou.
Dele chega a lenda do Dilúvio contada pelo sal do Himalaia; dele chega a invulnerabilidade que foi testada por Xerxes - Aquemênida -, pelo Grande Khan – Kublai - neto de Genghis, Flagelo da Mongólia, Senhor da China, Conquistador da Coréia, por Felipe II da Espanha, senhor de Aragão e Filipinas. Todos miseravelmente vencidos e abatidos como seus escravos.
Talvez se falássemos de indiferença teríamos uma idéia melhor desta massa que cobre a maior parte do planeta, da onde viemos para nunca mais voltar.
A não ser em visitas periódicas e agradáveis em suas beiradas douradas e crestadas pelo sol para ali sermos lambidos suavemente; enquanto pensamos neste ciclo infinito que nos é contado pelo rumor que não entendemos, mas que é a voz de todos os nossos semelhantes e antepassados agora liquefeitos e nele representados.
Dele não sabemos nada, quase nada, sabemos pequenos pedaços que assumem a cor do céu em que estão. Pedaços arrancados de um todo desconhecido.
Ele não nos aceita por muito tempo, senão protegidos por pequenos artefatos que nos dão uma imaginária segurança. Roçamos a sua superfície. Conseguimos lhe denominar com uma ilusória sensação de posse, como o Mare Nostrum depois transformado no prosaico Mediterrâneo; ou mesmo com uma nítida demonstração de nosso temor por sua índole, como o Pacífico.
O mar nos engana no aspecto amistoso que mole e condescendente toma a forma que queremos dar. Até a dimensão de um copo ou um tanque ele nos é amigo e afável.
Muitas vezes desse corpo majestoso surge uma onda enorme que nos varre para longe ou para baixo. Triste de nós que temos memória mergulhada num rio do esquecimento para podermos viver livres da angústia da existência.
Mas que nada, ele continua indiferente. Não tem interesse em nos redimir. Somos insistentes em humanizar o mar, o oceano. Ele tem outra natureza que nos escapa por completo.
Passou o tempo e quedamos sem nenhuma resposta para nossas perguntas, aflições, classificações e hipóteses.
A luta do homem para conquistá-lo foi inglória até agora, gerou heróis, poetas, conquistadores, assassinos. Mas toda a história é a história do nosso comportamento em relação a ele. Gostaria de ouvir uma história contada por ele.
Enquanto contarmos sua história e buscarmos conhecê-lo tendo-nos como perspectiva ele continuará lá e nós aqui. Não acha?
Termino com Ichikawa Danzô VIII, ator do teatro kabuki: “Ele passou os últimos dias de sua vida sozinho, numa pequena pousada de Shodo, antes de embarcar na balsa da meia-noite para Osaka. A chuva lavava o convés quando Ichikawa, caminhou para a popa e transpôs a amurada para um mar escuro. Ele nunca mais foi visto. Era como se seu corpo tivesse se extinguido. Ele tinha escolhido cuidadosamente o momento de sua saída de cena; a balsa cruzava as fortes correntes orientais do Mar Interior e ele foi carregado para dentro da voragem de Naruto – e os círculos intermináveis de seus giros.” in De Carona com Buda de Will Ferguson, traduzido por Celso Mauro Paciornik.
