Corisco, ou o mar não virou sertão.

scriptu em Penso? by Djabal Friday August 17, 2007

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Ouvi a sugestão de escrever sobre o mar. Tornei pública a uma comparação e ouvi vários comentários  a respeito dela. Nenhum delas descartou essa analogia. O que mais chamou minha atenção foi ouvir:

- Tenho medo do mar, devo fazer análise?

Não respondi. Ainda. Faço-o agora. Como resposta e análise.

Estive algumas vezes ao mar. Primeiramente numa beirada. Numa beira-mar agradável, brincando com ele. Confesso que não fui muito bem recebido, peguei alguns bichos geográficos de presente. Tive que raspar a cabeça e tratar-me com permanganato. Até hoje corto o cabelo bem curto, com máquina. Simples e prático, mas isso é outra história.

Depois dessa experiência me limitei a vê-lo de longe. Nunca me importei muito com ele, apenas ouvindo a sua voz e admirando sua beleza. Uma imagem que guardei foi a do oceano visto de Laguna. Estava admirando-o do alto de um prédio, numa varanda, quando minha vista foi tragada pela imagem de um navio  quase naufragado, adernado e muito enferrujado.

Enfim:  estive sempre distante. Protegido pela terra. Balançando numa rede. Até que surgiu a oportunidade de fazer um passeio de navio. E fui para o sul do continente num barco.

Desses grandes, com várias refeições por dia, sim, pois não há nada a fazer num navio a não ser conviver, que não é o meu forte. É verdade que podemos ficar correndo à sua volta pelo convés, podemos subir e descer do elevador várias vezes, e jogar cartas. Vocês conhecem a minha distração principal: ler.

E de fato esse hábito é impossível naquele bote,  leitura é vista como solidão e esta é tão malquista que todos se aproximam para saber o que você está lendo. Tornando-a como uma corrida de meia maratona com barreiras. Simples e fácil assim; sou eu o maratonista.

Não tive nenhum dos problemas que as pessoas têm em situações como essa: o enjôo. Passei incólume num outro mar de náuseas. O maior evento da viagem é um jantar com o capitão da fragata.

Senti um fragor quando passamos pela costa de Santa Catarina, o mar e o navio não se entendiam completamente e além de ouvir, senti um tremor incômodo, fomos avisados que isso é rotineiro. Naquela parte da viagem ambos não se entendem mesmo. É sempre assim. Coisas da corrente marítima.

Viajei também para a América Central. Gostaria de saber do lugar de desembarque de Colombo. Frustrei-me ao saber que ele desembarcou em vários lugares, todos tidos como “o primeiro”. Ninguém sabe ao certo qual foi o lugar.  Todos o querem para si e sua cidade.

Neste segundo, descobri uma biblioteca. Imaginem uma embarcação chamada Norway e um lugar com uma quantidade razoável de livros, pontos de luz e lugares cômodos para receber nádegas que lêem. Uma descrição do paraíso para alguns.

Conheci o seu poder neste passeio. Ele submeteu fortemente o navio sob seu chicote. Jogou violentamente o transatlântico de lá para cá e me deixou na cabine, por vários dias inteiros. Sem conseguir sequer tomar água.  Ele me dominou, fez pouco da minha indiferença e mostrou as chaves do comando da situação.

Se eu estiver certo devo dizer que também tenho medo da verdade. Mesmo daquela que eu conheço. Conheço algumas beiras da verdade, e a conheço protegido por artefatos de tamanho variado. Todos poderosos, blindados por conhecimentos técnicos de primeiríssima qualidade.

Mas ele – o mar, o oceano, o Manto de Netuno – exige que mergulhemos nele. Ele exige que não tenhamos limites, que possamos admirar o infinito sem náuseas, exige que se avance em direção ao medo. É lá que está a verdade.

 

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