Triste

scriptu em Escrito pelas estrelas by Djabal Monday August 20, 2007

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Um homem pode, se tiver a verdadeira sabedoria, gozar o espetáculo inteiro do mundo numa cadeira, sem saber ler, sem falar com alguém, só com o uso dos sentidos e a alma não saber ser triste.

Fernando Pessoas in O livro do desassossego, através de Bernardo Soares

Corisco, ou o mar não virou sertão.

scriptu em Penso? by Djabal Friday August 17, 2007

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Ouvi a sugestão de escrever sobre o mar. Tornei pública a uma comparação e ouvi vários comentários  a respeito dela. Nenhum delas descartou essa analogia. O que mais chamou minha atenção foi ouvir:

- Tenho medo do mar, devo fazer análise?

Não respondi. Ainda. Faço-o agora. Como resposta e análise.

Estive algumas vezes ao mar. Primeiramente numa beirada. Numa beira-mar agradável, brincando com ele. Confesso que não fui muito bem recebido, peguei alguns bichos geográficos de presente. Tive que raspar a cabeça e tratar-me com permanganato. Até hoje corto o cabelo bem curto, com máquina. Simples e prático, mas isso é outra história.

Depois dessa experiência me limitei a vê-lo de longe. Nunca me importei muito com ele, apenas ouvindo a sua voz e admirando sua beleza. Uma imagem que guardei foi a do oceano visto de Laguna. Estava admirando-o do alto de um prédio, numa varanda, quando minha vista foi tragada pela imagem de um navio  quase naufragado, adernado e muito enferrujado.

Enfim:  estive sempre distante. Protegido pela terra. Balançando numa rede. Até que surgiu a oportunidade de fazer um passeio de navio. E fui para o sul do continente num barco.

Desses grandes, com várias refeições por dia, sim, pois não há nada a fazer num navio a não ser conviver, que não é o meu forte. É verdade que podemos ficar correndo à sua volta pelo convés, podemos subir e descer do elevador várias vezes, e jogar cartas. Vocês conhecem a minha distração principal: ler.

E de fato esse hábito é impossível naquele bote,  leitura é vista como solidão e esta é tão malquista que todos se aproximam para saber o que você está lendo. Tornando-a como uma corrida de meia maratona com barreiras. Simples e fácil assim; sou eu o maratonista.

Não tive nenhum dos problemas que as pessoas têm em situações como essa: o enjôo. Passei incólume num outro mar de náuseas. O maior evento da viagem é um jantar com o capitão da fragata.

Senti um fragor quando passamos pela costa de Santa Catarina, o mar e o navio não se entendiam completamente e além de ouvir, senti um tremor incômodo, fomos avisados que isso é rotineiro. Naquela parte da viagem ambos não se entendem mesmo. É sempre assim. Coisas da corrente marítima.

Viajei também para a América Central. Gostaria de saber do lugar de desembarque de Colombo. Frustrei-me ao saber que ele desembarcou em vários lugares, todos tidos como “o primeiro”. Ninguém sabe ao certo qual foi o lugar.  Todos o querem para si e sua cidade.

Neste segundo, descobri uma biblioteca. Imaginem uma embarcação chamada Norway e um lugar com uma quantidade razoável de livros, pontos de luz e lugares cômodos para receber nádegas que lêem. Uma descrição do paraíso para alguns.

Conheci o seu poder neste passeio. Ele submeteu fortemente o navio sob seu chicote. Jogou violentamente o transatlântico de lá para cá e me deixou na cabine, por vários dias inteiros. Sem conseguir sequer tomar água.  Ele me dominou, fez pouco da minha indiferença e mostrou as chaves do comando da situação.

Se eu estiver certo devo dizer que também tenho medo da verdade. Mesmo daquela que eu conheço. Conheço algumas beiras da verdade, e a conheço protegido por artefatos de tamanho variado. Todos poderosos, blindados por conhecimentos técnicos de primeiríssima qualidade.

Mas ele – o mar, o oceano, o Manto de Netuno – exige que mergulhemos nele. Ele exige que não tenhamos limites, que possamos admirar o infinito sem náuseas, exige que se avance em direção ao medo. É lá que está a verdade.

 

Mar

scriptu em Penso? by Djabal Thursday August 16, 2007

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Se eu pudesse atribuir um símbolo ao mar esse seria a verdade. O mar é a verdade. Ela não é um cristal, é um líquido infinito no qual mergulhamos; alguém me ensinou.

Dele chega a lenda do Dilúvio contada pelo sal do Himalaia; dele chega a invulnerabilidade que foi testada por Xerxes -  Aquemênida -, pelo Grande Khan – Kublai - neto de Genghis, Flagelo da Mongólia, Senhor da China, Conquistador da Coréia, por Felipe II da Espanha, senhor de Aragão e Filipinas. Todos miseravelmente vencidos e  abatidos como seus escravos.

Talvez se falássemos de indiferença teríamos uma idéia melhor desta massa que cobre a maior parte do planeta, da onde viemos para nunca mais voltar.

A não ser em visitas periódicas e agradáveis em suas beiradas douradas e crestadas pelo sol para ali sermos lambidos suavemente; enquanto pensamos neste ciclo infinito que nos é contado pelo rumor que não entendemos, mas que é a voz de todos os nossos semelhantes e antepassados agora liquefeitos e nele representados.

Dele não sabemos nada, quase nada, sabemos pequenos pedaços que assumem a cor do céu em que estão. Pedaços arrancados de um todo desconhecido.

Ele não nos aceita por muito tempo, senão protegidos por pequenos artefatos que nos dão uma imaginária segurança. Roçamos a sua superfície. Conseguimos lhe denominar com uma ilusória sensação de posse, como o Mare Nostrum depois transformado no prosaico Mediterrâneo; ou mesmo com uma nítida demonstração de nosso temor por sua índole, como o Pacífico.

O mar nos engana no aspecto amistoso que mole e condescendente toma a forma que queremos dar. Até a dimensão de um copo ou um tanque ele nos é amigo e afável.

Muitas vezes desse corpo majestoso surge uma onda enorme que nos varre para longe ou para baixo. Triste de nós que temos memória mergulhada num rio do esquecimento para podermos viver livres da angústia da existência.

Mas que nada, ele continua indiferente. Não tem interesse em nos redimir. Somos insistentes em humanizar o mar, o oceano. Ele tem outra natureza que nos escapa por completo.

Passou o tempo e quedamos sem nenhuma resposta para nossas perguntas, aflições, classificações e hipóteses.

A luta do homem para conquistá-lo foi inglória até agora, gerou heróis, poetas, conquistadores, assassinos. Mas toda a história é a história do nosso comportamento em relação a ele. Gostaria de ouvir uma história contada por ele.

Enquanto contarmos sua história e buscarmos conhecê-lo tendo-nos como perspectiva ele continuará lá e nós aqui. Não acha?

Termino com Ichikawa  Danzô VIII, ator do teatro kabuki: “Ele passou os últimos dias de sua vida sozinho, numa pequena pousada de Shodo, antes de embarcar na balsa da meia-noite para Osaka. A chuva lavava o convés quando Ichikawa, caminhou para a popa e transpôs a amurada para um mar escuro. Ele nunca mais foi visto. Era como se seu corpo tivesse se extinguido. Ele tinha escolhido cuidadosamente o momento de sua saída de cena; a balsa cruzava as fortes correntes orientais do Mar Interior e ele foi carregado para dentro da voragem de Naruto – e os círculos intermináveis de seus giros.” in De Carona com Buda de Will Ferguson, traduzido por Celso Mauro Paciornik.

 

Veste de Netuno

scriptu em Escrito pelas estrelas by Djabal Thursday August 16, 2007

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Assim é a antiga veste de Netuno, esse empilhamento pseudo-orgânico de véus pelos três quartos do mundo uniformemente derramados. Nem pelo punhal cego das rochas, nem pela mais escavante tempestade a revirar maços de folhas ao mesmo tempo, nem pelo olho atento do homem aplicado penosamente e aliás sem controle num meio interdito aos orifícios destampados dos outros sentidos e que um braço mergulhado para agarrar turva ainda mais, esse livro no fundo foi lido.

Francis Ponge in “O Partido das Coisas” através de Adalberto Müller Jr e Carlos Loria

Romano

scriptu em Existo: talvez. by Djabal Tuesday August 14, 2007

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Caldo feito dos mais diferentes temperos recebi de Confúcio e seus descendentes a mais completa obediência às regras e a rigorosa boa fé na palavra do semelhante. Tive um avô que foi caçador de índios de família portuguesa (os Borbas) que me deu essa melancolia, aliada a suspeita placidez que toma conta de mim, sempre.
Jamais consegui aceitar a minha implicância com os Romanos. Apesar de ter sido enganado por todo aquele que foi dado conhecer. Alguns. Tentei afastar de mim este copo amargo, e tornei essa idiossincrasia proibida e ignorada.
Hoje pela manhã estava lendo Graciliano Ramos, um livro seu chamado: Viventes das Alagoas; lá encontrei a história de Inácio da Catingueira e Romano. Foi nela que compreendi e encontrei satisfação para minha birra.
Na cidade de Patos da Paraíba ocorreu um concurso musical com esses dois cantores. Concurso que se chama “martelo”. Um deles chamado simplesmente Inácio e outro Romano, moço de uma família de cantores e poetas, com nome mais comprido: Francisco Romano da Teixeira, pai do chamado Josué Romano, também cantador, e irmão por nome de Veríssimo Romano. Como vêem família de reputação insuspeita.
Inácio tinha além da deliciosa malícia uma grande facilidade para versejar, era imbatível em todas justas da qual participara até então.
No combate com Romano, chamou-o humildemente de meu branco e combateu versejando como nunca, até que seu oponente apelou, no ato de desespero, para nomes como “Latona, Cibele, Ísis, Vulcano e Netuno…”
Havia na região uma característica conhecida de todos: o analfabetismo. Portanto, ninguém conhecia o significado das palavras colocadas na canção. Entretanto por medo de confessar sua ignorância, pelo temor que a família infundia em todos, foi declarado vencedor aquele que fugiu da regra e teve o seu pedantismo e insolência premiados.
Graciliano conclui que muitos preferem descender dos Romanos, que “sempre foram os donos intelectuais do Brasil.”
Terra onde a ignorância ousada sempre vence a inteligência tímida.
Jamais conseguirei raciocinar com tamanha profundidade e tirar de um símbolo o conteúdo maior que nos atinge a todos.
Mas numa visão mais particular e totalmente egoísta consegui algo graças ao acaso benfeitor.
Hoje reconheci mais um ascendente meu: Inácio da Catingueira. Gostaria de percorrer a caminhada de meus antepassados, ir pelas Minas Gerais ultrapassando o rio São Francisco e chegando em Patos, encontrar meus familiares mais recentes e contando e ouvindo histórias, depois de um certo tempo, partiríamos para a África na busca dos parentes mais remotos.

Véu

scriptu em Acaso Sinto? by Djabal Monday August 13, 2007

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Você já sentiu que o mundo funciona de uma maneira incompreensível? Por mais que você pondere, considere e pense as coisas e suas finalidades não fazem sentido? Exceto algumas outras, práticas, cotidianas que sempre têm a mesma rotina. O mesmo começo, meio e fim. Será que isso preenche a nossa vida? Nesse caso, ficamos mais velhos e teremos sempre uma barreira de arame farpado à frente, um pequeno fio que nos impede a passagem por medo, por ignorar, por que?Antes pensávamos deduzindo de alguma idéia guia e hoje não mais; estamos fazendo experiências como macacos?Não falta alguém que nos rasgue a cortina, rompa o véu e nos mostre o sentido disso tudo?…fazendo….”Como um pequeno rasgão no véu da vida, pelo qual espreita o nada indiferente, e naquela ocasião criou-se o alicerce de muita coisa que sucederia mais tarde.” - Robert Musil in O Homem sem Qualidades. 

Pajem

scriptu em Escrito pelas estrelas by Djabal Monday August 13, 2007

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Serei sempre, sob o grande pálio azul do céu mudo, pajem num rito incompreendido, vestido de vida para cumpri-lo, e executando, sem saber porquê, gestos e passos, posições e maneiras, até que a festa acabe, ou o meu papel nela, e eu possa ir comer coisas de gala nas grandes barracas que estão, dizem, lá em baixo ao fundo do jardim.

Fernando Pessoa in Livro do Desassossego através de Bernardo Soares

Jardim do Meio Hectare

scriptu em Acaso Sinto? by Djabal Friday August 10, 2007

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Construí diversas amizades ao longo da vida. Uma delas veio do tempo da faculdade: Basil. Uma pessoa admirável. Nascido na Nigéria, na época dizia-se que ele era filho de um príncipe tribal, escolheu o Brasil para estudar e depois: viver.

Ele não sabe o que fazer para agradar o seu interlocutor. Sempre prestativo e gentil. De uma inteligência comercial fora do comum, administra seus interesses em tempo integral, é um intelectual que trabalha na Bolsa, como dizia o Ray Bradbury. Não tem aparentemente nada fora do comum, somente o seu olhar. Um olhar risonho e inteligente, qualquer que seja a situação, exceto quando se sente ameaçado pela morte.

Convivemos sempre. Sempre que podemos estamos próximos. Temos o costume de nos classificar como irmãos separados no nascimento. Fui convidado para participar de um almoço com seus amigos. Fiquei com a responsabilidade de escolher o lugar. A única exigência: não ter horário para terminar.

Escolhi um restaurante chinês, com um nome poético extraído de um texto antiqüíssimo e que traduzido para o português deu o nome, vagamente incompreensível, dessa narrativa. Fui o primeiro a chegar e pude observar certa inquietação nos gestos e olhares de todos.

Tivemos a companhia de um médico que não exerce há tempo sua profissão e sempre cuidou do pai. Alto e magro. Extremamente agradável ameno e ansioso. Incapaz de dizer qualquer coisa fora do padrão, leitor assíduo e cinéfilo confesso. E um outro mais, proprietário de uma sociedade corretora de valores e que já foi editor de sucesso. Baixo, calvo, sanguíneo, curioso e com experiência da vida suficiente para se considerar mal tratado; se confessa um  aventureiro.

Escolhi uma comida que não fosse extravagante ao nosso gosto e ao mesmo tempo não quis fazer nenhuma concessão ao tradicional prato não chinês: “chop-suey”. Escolhi verduras, cogumelos, arroz em forma de espaguete, feijão no formato de talharim, bolinhos no vapor; e – finalmente - um prato de peixe cozido. O bucho do peixe, claro. Feito com verduras. Um pouco de soja, com formato de finíssimas folhas sobrepostas e uma conserva doce de pepino como entradas.

Essa é uma boa maneira de conhecer o nosso semelhante. Colocá-lo diante de um desafio como esse. O editor que começou dizendo  que o lugar era mais ou menos comercial ficou surpreso e satisfeito com as novidades. Queria mais. O médico tentou me acompanhar na pimenta e imediatamente depois de tornar-se rubro, pediu ao garçom água ou vodca. O que fosse mais fácil, para apagar o incêndio irrompido no céu de sua boca. Lembre-se que ninguém fala português naquele lugar. Eles imaginam que falam e nós temos que imaginar que entendemos.

O Basil temeu por sua própria vida e pediu um simples camarão cozido com arroz. Ele me disse que não gostaria de comer nada que o ameaçasse tanto.

Conversamos gostosamente sobre a médica oftalmologista que atende ao nosso ex médico. Uma mulher lindíssima, que atraiu a atenção de todos. Ele  e o editor a conhecem, nós outros não. Ainda. Ela auxilia muito o programa de leitura do nosso médico. Como leva duas ou três horas para atender, a despeito do horário marcado, faz com que ele leve seu livro do momento e aguarda com a maior paciência a sua vez.  Cada vez que ela sai da sala para se desculpar, tem um gesto gentil e agradável para o paciente. Cativa-o ainda mais.

Tanto um como outro estendem o máximo possível a consulta. Para convivência e ser objeto da atenção e inteligência de uma beleza como aquela.  Nenhuma consulta leva menos que sessenta minutos.

Fomos aconselhados a procurá-la também. O Basil, após ficar pensativo um instante, perguntou se ela atendia por algum convênio.

Diante da afirmativa dos demais, respondeu:

- Tenho meu próprio médico há tanto tempo; não consigo fazer isso com ele.

Imediatamente peguei o seu nome. Não encontrei papel e não tinha lápis para anotar o telefone para a consulta.

Esse foi o tempo necessário para concluir  assim:

- Melhor não.

- Você vai se arrepender.

- Talvez – porém - … melhor não.

 

Fio da meada

scriptu em Penso? by Djabal Wednesday August 8, 2007

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A partir do segundo grau freqüentei a escola tendo como motivo principal a minha namorada: Ângela.  Íamos juntos para o colégio, ela sentava à minha frente. Fazia o possível para que ninguém sentasse naquele lugar, para admirar suas costas, ombros e seu pescoço branco, longo e lindo. Algumas vezes ela colocava em liberdade o seu cabelo castanho, farto e encaracolado e assim eu podia variar o foco da minha atenção.

Da monotonia que era estudar consegui, sonhando, virar tudo de cabeça para baixo. Estudar era o apêndice. O corpo principal se constituía do namoro.

Chegávamos. Logo após, saía novamente para freqüentar outra escola. Escola Americana. Gostava de ver o jogo de basquete e o de handebol e ficava matando aula até o horário daquela que seria a minha saída. Chegava sempre antes do término. Nos dias que não esporte – paciência -  assistia às aulas.

Sempre fui de comportamento expansivo, aliado a uma inexorável tendência a ser gordo. E por isso mesmo era chamado de Sargento Garcia (aquele antagonista do Zorro que vivia rindo), não dei a menor importância ao fato, o que levou o apelido ao esquecimento.

Tinha verdadeiro terror da hipótese de ser chamado de Garcia perante ela; esse temor se revelou infundado era puramente irracional. Os alunos que freqüentavam o ônibus escolar não eram os mesmos. Ela era apenas companheira de viagem, não freqüentávamos o mesmo curso. Seguíamos viagem sempre juntos. E um outro pequeno detalhe. Ela – creio -  jamais soube do nosso longo namoro que durou dois anos.

Terminei o curso. Aos trancos e barrancos. Pretendia nunca mais estudar. Fui trabalhar.

Aconselhado pelo meu pai. Conselho útil na forma e no conteúdo. Sempre gostei muito de música, ouvia horas seguidas. Um dia resolvi variar o gosto musical e comprar um novo álbum, portanto,  pedi um dinheiro pra ele.

- Amanhã cedo conversaremos.

Acordei cedinho. Sentei e o esperei para o café. Não se falou nada. Nadinha. Terminamos e ele me convidou para acompanhá-lo.

Fomos até um escritório próximo de casa.

-!?!?! – 

-Conversei com o proprietário e  você está contratado, daqui trinta dias você terá o salário; com ele você poderá comprar o que você bem entender. Parabéns e muito boa sorte.

Adquiri minha independência. Deixei de estudar e segui em frente, me emancipei. Trabalhando, aprendi a ser mais prático. Depois de três anos, percebi que precisava estudar. Vocês devem se lembrar que sou mestiço e para honrar minha posição, fazia todos os contratos da companhia, sem ser advogado. Era indagado frequentemente qual era minha formação.

A resposta: “Nenhuma.” Era muito constrangedora.

Resolvi estudar. Porém estudei administração. Fiz uma escolha criteriosa para saber qual a melhor faculdade para que minha vida ficasse facilitada, após a formatura. Escolhi, fiz vestibular, comecei – período noturno. Tinha absoluta certeza que meu futuro estava assegurado.

Quase no término do curso, fui apresentado para o nosso melhor cliente. Já como futuro superintendente da empresa na qual trabalhava. Indagado novamente da minha escolaridade, disse cheio de escondido orgulho:

- Administração de Empresas.

- Administração Pública ou Privada? – retrucou.

- Privada – respondi.

- Curso da manhã ou tarde?

- Curso noturno.

- Que pena, esse curso tem um ótimo programa, mas não deixa tempo para o estudo. Estudante deve estudar.

CEP 20.000

scriptu em Escrito pelas estrelas by Djabal Wednesday August 8, 2007

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de repente

 

boca sem dente

 

deliqüente rock and roll.

 

é o joe.

 

o show já começou

 

 

Chacal in Belvedere (1971-2007)

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