
Construí diversas amizades ao longo da vida. Uma delas veio do tempo da faculdade: Basil. Uma pessoa admirável. Nascido na Nigéria, na época dizia-se que ele era filho de um príncipe tribal, escolheu o Brasil para estudar e depois: viver.
Ele não sabe o que fazer para agradar o seu interlocutor. Sempre prestativo e gentil. De uma inteligência comercial fora do comum, administra seus interesses em tempo integral, é um intelectual que trabalha na Bolsa, como dizia o Ray Bradbury. Não tem aparentemente nada fora do comum, somente o seu olhar. Um olhar risonho e inteligente, qualquer que seja a situação, exceto quando se sente ameaçado pela morte.
Convivemos sempre. Sempre que podemos estamos próximos. Temos o costume de nos classificar como irmãos separados no nascimento. Fui convidado para participar de um almoço com seus amigos. Fiquei com a responsabilidade de escolher o lugar. A única exigência: não ter horário para terminar.
Escolhi um restaurante chinês, com um nome poético extraído de um texto antiqüíssimo e que traduzido para o português deu o nome, vagamente incompreensível, dessa narrativa. Fui o primeiro a chegar e pude observar certa inquietação nos gestos e olhares de todos.
Tivemos a companhia de um médico que não exerce há tempo sua profissão e sempre cuidou do pai. Alto e magro. Extremamente agradável ameno e ansioso. Incapaz de dizer qualquer coisa fora do padrão, leitor assíduo e cinéfilo confesso. E um outro mais, proprietário de uma sociedade corretora de valores e que já foi editor de sucesso. Baixo, calvo, sanguíneo, curioso e com experiência da vida suficiente para se considerar mal tratado; se confessa um aventureiro.
Escolhi uma comida que não fosse extravagante ao nosso gosto e ao mesmo tempo não quis fazer nenhuma concessão ao tradicional prato não chinês: “chop-suey”. Escolhi verduras, cogumelos, arroz em forma de espaguete, feijão no formato de talharim, bolinhos no vapor; e – finalmente - um prato de peixe cozido. O bucho do peixe, claro. Feito com verduras. Um pouco de soja, com formato de finíssimas folhas sobrepostas e uma conserva doce de pepino como entradas.
Essa é uma boa maneira de conhecer o nosso semelhante. Colocá-lo diante de um desafio como esse. O editor que começou dizendo que o lugar era mais ou menos comercial ficou surpreso e satisfeito com as novidades. Queria mais. O médico tentou me acompanhar na pimenta e imediatamente depois de tornar-se rubro, pediu ao garçom água ou vodca. O que fosse mais fácil, para apagar o incêndio irrompido no céu de sua boca. Lembre-se que ninguém fala português naquele lugar. Eles imaginam que falam e nós temos que imaginar que entendemos.
O Basil temeu por sua própria vida e pediu um simples camarão cozido com arroz. Ele me disse que não gostaria de comer nada que o ameaçasse tanto.
Conversamos gostosamente sobre a médica oftalmologista que atende ao nosso ex médico. Uma mulher lindíssima, que atraiu a atenção de todos. Ele e o editor a conhecem, nós outros não. Ainda. Ela auxilia muito o programa de leitura do nosso médico. Como leva duas ou três horas para atender, a despeito do horário marcado, faz com que ele leve seu livro do momento e aguarda com a maior paciência a sua vez. Cada vez que ela sai da sala para se desculpar, tem um gesto gentil e agradável para o paciente. Cativa-o ainda mais.
Tanto um como outro estendem o máximo possível a consulta. Para convivência e ser objeto da atenção e inteligência de uma beleza como aquela. Nenhuma consulta leva menos que sessenta minutos.
Fomos aconselhados a procurá-la também. O Basil, após ficar pensativo um instante, perguntou se ela atendia por algum convênio.
Diante da afirmativa dos demais, respondeu:
- Tenho meu próprio médico há tanto tempo; não consigo fazer isso com ele.
Imediatamente peguei o seu nome. Não encontrei papel e não tinha lápis para anotar o telefone para a consulta.
Esse foi o tempo necessário para concluir assim:
- Melhor não.
- Você vai se arrepender.
- Talvez – porém - … melhor não.