A dor de cada um.

scriptu em Penso? by Djabal Tuesday August 7, 2007

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“I hate that sadness in your eyes.” (Richards & Jagger)

Eu busco numa velha canção a lembrança de uma época.

Depois de tanto tempo lutando, disputando, o que é fazer uma viagem ao passado?

As coisas mudam de perspectiva, você sobe ao alto e de lá fica observando tudo o que se passou durante toda sua vida. Agora que o final de aproxima.(E o final não é trágico, não é cômico, é apenas o final. Disse um poeta que o final virá com um suspiro, Você sabe que será a laranja. O seu final é uma laranja que foi inteiramente chupada e dela restará o desconto na passagem, a fila alternativa, que aparenta dignidade. Temos dois finais a sorte os fará coincidentes.)

Vou ignorar a dificuldade de ver as coisas do alto. Como é que se pode ver as coisas do alto dentro de um aquário? Que sensação mais estranha que a metrópole obriga você a sentir. Por mais que seu pensamento divague e busque o passado, o presente se torna insuportavelmente real, físico, palpável e impregna. Emprenha.

Mas não, você conseguirá, claro que conseguirá, afinal de contas a sua virtude e o seu vício são idênticos, eles se aproximam perigosamente do mesmo lugar, a força de vontade é muito parecida com a forca da vontade. Aos poucos vou me distanciando, pego o meu caminho procurando o ar fresco da cidade, aumento a velocidade no caminho para respirar alguma coisa melhor do que o ar carbônico.

A música vai tomando o seu lugar vai dominando o seu pensamento, e as coisas correm melhores, o caminho para o passado vai sendo pavimentado de recordações. Dos seus amores. Dos seus grandes amores. O melhor do seu grande amor. O melhor do seu amor. O melhor. O.

A lembrança de uma conversa ao telefone, a lembrança da palpitação que a perspectiva da ligação gerava. Da saudade doída que invadia o seu peito sempre. Que o fazia estourar de emoção apenas na conversa. Entre nós uma distância tão infinitamente pequena, mas infinitamente difícil de ser vencida. A cidade não deixava. Ela não permitia.

Você sente a pressão daqueles compromissos, sente a opressão de uma forma que tudo o que você precisa naquele momento há que ser deixado de lado.  De que forma a cidade conseguiu passar para lá dentro essa necessidade estúpida de cumprir compromissos? O que é que existe de mais importante do que isso? Vamos deixar de lado essa coisa de amor. Amor é complicado. Amor é sonho. Sonhar é amar.

Mas continuemos homem, deixe de ir, volte um pouco, mais um pouco, procure um pouco mais, que você achará, certamente, achará.  Onde está o carinho, como se pode viver sem ele? Ele é a matéria prima da convivência humana. O carinho não se confunde com a polidez; o olhar, felizmente não permite que isso ocorra. O carinho se transmite por um simples olhar.

Visto que não poderíamos imaginar que a cidade permitisse uma tamanha exposição de vida interior. A castração dos sentimentos carinhosos é a norma. Numa cidade não podemos nos dar a esse luxo, tudo é negócio, tudo é ambição.

E a sua família? Os meus? Os meus, se assim posso chamar, não são meus são da cidade, dos negócios, da angústia de ter e de não ter. Angústia que também tenho, como valor residual, por anos e anos de prática, de repetição ao infinito dessa regra, dessa lição, dessa obrigação.

Por mais que busque não consigo ver um olhar carinhoso; consegui lembrar daquele beijo materno antes de dormir? Não, não consegui, sinto muito.

Sou aquele catador de papel amassado pela vergonha, em alguma lata de lixo e sou livre o bastante para parar e ler.

Não, eu não posso fazer isso com você. Não é justo deixar esse legado, desculpe-me, antepassado, não deixarei um legado miserável.

Tenho outro para deixar, sem peso, diáfano e inútil, saboroso de ingenuidade, saboroso de juventude, e quem sabe com algum amor?  Apesar dos olhares de censura do passado remoto, dos olhares de desinteresse do passado, e dos olhares vagos que encontro agora nessa viagem, tudo isso deixou em mim muitas marcas.

Portanto, odeie meu olhar triste, faça-me esse favor, odeie esse olhar. Não deixe que ele apareça.  Continuo na viagem até o passado mais recente, aquele passado feito de passagens rápidas, de sofreguidão infinita. Infinita como a busca da perfeição. Perfeição que é feita de repetidas entregas.

Entregar-se repetidamente é a mesma coisa que não se entregar nunca. Nunca se tem tempo para entrega. A entrega é uma revista na sua gaveta mais íntima, uma busca frenética de um tesouro. Que ao ser descoberto desaparece, alia-se a uma fuga rápida antes da chegada da polícia, deixando tudo aberto, à mostra. Recolha seus restos, coisas que somente importam para aquele que as recolhe.

O sofrimento do desengano, da busca frustrada arde em meu peito, assim como já ardeu em outros todos os dias, uma ardência insuportável que sobe aos olhos fulminando uma lágrima também ela ardida, pode ser a semente do meu abraço. Abraço com o meu rancor. Rancor causado pelo andar amarrado da taturana do trânsito. Taturana que queima todos que a tocam. Rancor pelos milhares de olhares indeterminados, inúteis, inexpressivos. Rancor pela ausência até de um olhar de ódio. Rancor que não vem da só da cidade, mas do sua consequência: o sistema. Vem da alegria dos sociólogos. Sociólogos e sociedades se merecem.

O  que?  Essa viagem se torna circular, volto ao mesmo ponto de onde parti. Espero que a dor passe deixo tudo de lado, até que isso se afaste, e se o olhar não apareceu nesta  viagem, um dia ele aparecerá, servirá como resposta para minha indagação, perene como é perene a beleza. Solto-me da taturana e me encaminho para uma clareira obscura num canto qualquer e fico ali, esperando passar o rancor, percebo que sou observado, calma e ingenuamente.

Uma cadela. Uma miserável cadela recém-parida olha-me. Deitada  num muro. Fatigada e com medo. Olha-me com todo carinho que jamais pensei obter em algum olhar. E dizem que apenas têm instinto. Deixem que digam.

Arenque

scriptu em Existo: talvez. by Djabal Monday August 6, 2007

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Vocês já me conhecem. Mestiço de chim com brasileiro. Meu nome é Shao, João Shao.

Depois da frustrada tentativa de conhecer Las Vegas, andei muitos e vários dias pensando no Winfried Georg Sebald. Um escritor de língua alemã, residente há muitos anos na Inglaterra. Foi nele que li uma incrível história natural do arenque. Suas histórias não têm nenhuma linha aparentemente coerente de assuntos. São textos de exilados,  de personagens extravagantes, contados e contidos. Para quem gosta de pensar, são extraordinários.

Ele é pouco conhecido no Brasil, no sábado encontrei-o num artigo de jornal. Ele foi lembrado por uma escritora. Uma ocasião própria para dar uma chance ao acaso.

Não. Não ainda.  Não havia soado o sino.

No domingo fui a um circo. Nele qual o quadro principal? Um quadro de marinheiros, timão, leme, bombordo, estibordo, cordame e demais palavras náuticas. Fechou-se o quadro.

Fui com uma amiga alta. Vestida com um casado e um chapéu de lã. Pura lã. Próprio para o inverno paulista; que é o local da minha atual residência. O circo foi montado num terreno que estava diante do cemitério.

- Vista eterna para o nosso futuro.

Disse minha amiga, que ficara muito parecida com a versão feminina do Tom Waits, menos pelo chapéu do que pela coerência e rústica consciência das palavras a serem ditas.

E ficamos conversando após a função. Sentados no estrado de madeira com um pé na areia que circunda o picadeiro. Lembrei-lhe do costume de colocar areia no piso das sinagogas das Antilhas Holandesas (Curaçao) para refrescar a memória dos penitentes que estavam ainda no Egito. No Egito interno de cada um. Somente em seu lar o piso seria firme o suficiente.

- Afinal de contas todos nós somos exilados. De uma ou de outra.

Da areia das Antilhas passei para as areias de Lowestoft (Região de Suffolk.)  para contar dos arenques, batendo na minha cabeça desde dois mil e dois.

O arenque é um dos alimentos mais comuns daquela região do Mar do Norte. A sua pesca dá emprego para milhares de holandeses  e frísios. Eles têm um comportamento que até hoje não dá nenhum parâmetro lógico para seus predadores. Aparecem onde não são esperados. Suas trilhas são insondáveis. Em síntese, os pescadores só têm as lendas e suas próprias observações para seu trabalho.

Os cardumes apresentam “formações regulares de cunha num determinado ângulo de incidência dos raios solares enviando ao céu um reflexo pulsante.” As suas cores variam do verde metálico para o azul, mas no geral são da mais pura prata e o que é melhor, brilham intensamente após a sua morte. A pesca é de rede, feita de seda preta – para não os assustar – e se acreditava que eles morriam ao contato com a rede no puxão final para a superfície. Imagine a surpresa quando os trabalhadores viam os animais fatigados e tentando respirar  três ou quatro horas após o contato com o ar.

Cada fêmea põe cerca de setenta mil ovos. E se fossem todos fecundados haveria uma superpopulação  com volume equivalente a vinte vezes o da terra. Houve uma época em que cardumes de arenque se atiraram àquela costa, provocando um morticínio sem precedentes, onde nem mesmo toda a população local colocando os corpos em caixas e lonas conseguiram aproveitar toda a quantidade que ficou exposta. Ao  restante não ficou outra opção que não o apodrecimento.

Ela ouvindo atentamente a minha história disse:

- Essa é a nossa história ou você está contando uma outra das suas parábolas loucas?

 

A verdade sobre Sancho Pança

scriptu em Escrito pelas estrelas by Djabal Monday August 6, 2007

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Sancho Pança (que, aliás, jamais andou se vangloriando disso) conseguiu, no decorrer dos anos, colecionando uma porção de romances de cavalaria e de bandoleiros, desviar, nas horas noturnas e soturnas, de tal modo de si o seu demônio (ao qual ele mais tarde deu o nome de Dom Quixote), que este passou então a executar desenfreada mente os feitos mais malucos, mas que, por falta de um objeto predeterminado (que era para ser justamente Sancho Pança), não prejudicavam ninguém. Sancho Pança, um homem livre, seguia sereno (talvez por certa sensação de irresponsabilidade) ao seu Dom Quixote em suas andanças, mantendo assim uma grande e proveitosa conversação até o fim de seus dias.  

Franz Kafka

20

scriptu em Escrito pelas estrelas by Djabal Monday August 6, 2007

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silêncio

 

 

um

 

pássaro

 

lhando:a

 

vir

 

ada;canto,da

 

vida

 

(inquérito antes da neve

 

 

e.e.cummings in O Tigre de Veludo através de  Maurício Cardoso

Sísifo revisitado

scriptu em Existo: talvez. by Djabal Friday August 3, 2007

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Numa porta da minha casa, deitado na soleira, podia observar aquela árvore de sombra frondosa, não tinha nada de excepcional, nem muito grande, nem muito pequena, demonstrava ser bastante antiga e bastante sólida, estava ali, cumpria seu papel.

Do seu todo se destacou no galho mais alto uma folha isolada das demais. Comandava, aparentemente, todas as outras e na direção em que se inclinava, inclinava-se todo o conjunto. As brisas pareciam concordar.
Todos os dias eu cumpria o meu percurso no trabalho de transportar pedras, e sempre me deitava para olhar, descansar, e a árvore sempre me chamava a atenção. As formigas, insetos, e pequenos animais, sempre percorriam seus galhos, passando por um roteiro imaginário que sempre incluía aquela folha.

Um pássaro – Simorg - daqueles de exposição, fazia parte do conjunto e passava todo o seu dia por ali, ora num galho, ora noutro, sempre se movimentando, sua ambientação era tão grande, que sua cor - que nada possuía de verde - se metamorfoseava. Após um tempo, passou a se dedicar àquele galho, àquela folha, e seu tempo se concentrava todo ali. Passou a cantar somente quando nele se encontrava, ali não havia nenhum obstáculo, além disso, em função da posição privilegiada a música destacava ainda mais seu intérprete. Cantava a harmonia universal. Tirava o brilho máximo, as demais folhas, galhos, clorofilas, liquens, insetos, parasitas, paravam sob sua voz, ou melhor, agiam conforme seu ritmo. Até a folha solitária agia dessa forma, se subordinando. Esqueceu da sua fixidez; paulatinamente se tornava móvel como a ave.

Aquele contraste entre movimento e quietude, cada vez mais chamava-me a atenção, principalmente a relação entre a folha e o pássaro. Uma solene; outro ágil, nervoso, agitado, colocando em evidência aqueles movimentos binários, próprios de quem vai à direita ou à esquerda, acima ou abaixo, numa incrível velocidade, num átimo de segundo decide e faz. Os galhos se transformaram em trapézio, numa gaiola, pois ele não sai - quase - mais dali.

Pensei que o pássaro se transformaria numa folha. Ele, porém, vagueou e desceu para examinar nova folha, mais embaixo, num outro galho do conjunto e nisto houve uma repentina alteração . Seu movimento foi brusco, brusco demais e bateu na antiga folha; nada de muito grave, imaginei.

A seiva daquela folha encontrou passagem de saída pelo caule danificado, e com isso seu vigor já não era o mesmo, a solidez também ficou prejudicada, e a harmonia da árvore já apresentava diferença. O pássaro passou a visitar assiduamente aquele outro galho, não mais passava o dia como antes, e o seu canto era diferente; sem viço.

Numa quinta-feira, a folha cedeu seu espaço, estava opaca, inclinou-se sobre si mesma até se desprendeu do tronco, iniciando uma queda lenta, como uma melodia de Satie, tentando imitar o movimento da ave, desenhando uma curva e ficou enlaçada no galho de duas folhas, que funcionou como um anteparo. Naquela altura dos acontecimentos, o peso da ave que ali pousara, precipitou nova queda, desta vez definitiva, ora parando aqui, ou ali, mais a direção era uma só : o chão.
Ali permaneceu a folha durante os dias, que passavam inexoravelmente. As suas nervuras e filamentos se tornaram nodosos, a sua cor se modificou até se tornar ocre, sem vida, ríspida, agressiva.
Certo dia, um anão - desses de contos fantásticos, ou de circo, [ com verruga no rosto], bizarra figura - desajeitado como sempre são os anões, passou por sob a árvore, pisou na folha, e o que restou foi apenas o ruído que produziu sob sua bota.
Perdi o interesse pela árvore, mudei de caminho, assim como fez o pássaro. De resto; continuei carregando pedras.

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scriptu em Escrito pelas estrelas by Djabal Thursday August 2, 2007

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“A verdade não é um cristal que se possa meter no bolso, mas um líquido infinito no qual caímos.”

Robert Musil, in Um Homem sem Qualidades através de Lya Luft e Carlos Abbenseth

Carta de Aprendizado

scriptu em Escrito pelas estrelas by Djabal Thursday August 2, 2007

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“Longa é a arte, breve a vida, difícil o juízo, fugaz a ocasião. Agir é fácil, difícil é pensar. Incômodo é agir de acordo com o pensamento. Todo começo é claro, os umbrais são o lugar da esperança. O jovem se assombra, a impressão o determina, ele aprende brincando, o sério o surpreende. A imitação nos é inata, mas o que se deve imitar não é fácil de reconhecer. Raras as vezes onde se encontra o excelente, mais raro ainda apreciá-lo. Atraem-nos a altura, não os degraus; com os olhos fixos no pico caminhamos de bom grado pela planície. Só uma parte da arte pode ser ensinada, e o artista a necessita por inteiro. Quem a conhece pela metade engana-se sempre e fala muito; quem a possui por inteiro, só pode agir, fala pouco ou tardiamente. Aqueles não têm segredos nem força; seu ensinamento é como pão cozido, que tem sabor e a sacia por um dia apenas; mas não se pode semear a farinha, e as sementes não devem ser  moídas. As palavras são boas, mas não são o melhor. O melhor não se manifesta pelas palavras. O espírito, pelo qual agimos, é o que há de mais elevado. Só o espírito compreende e representa a ação. Ninguém sabe o que ele faz quando age com justiça; mas do injusto temos sempre consciência. Quem só atua por símbolos é um pedante, um hipócrita ou um embusteiro. Estes são numerosos e se sentem bem juntos. Sua verborragia afasta o discípulo e sua pertinaz mediocridade inquieta os melhores. O ensinamento do verdadeiro artista abre o espírito, pois onde faltam as palavras, fala a ação. O verdadeiro discípulo aprende a desenvolver do conhecido o desconhecido e aproxima-se do mestre.”

Johann Wolfgang Goethe in Anos de Aprendizado de  Wilhelm Meisters

  

Guanabara

scriptu em Acaso Sinto? by Djabal Wednesday August 1, 2007

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João é o meu nome. Acabei de ler o Quixote. Sexta feira à noite viajaria para o Rio de Janeiro. Após uma semana exaustiva de trabalho e algum estudo à noite, tirava o final de semana para rever a cidade que tanto gostava.

Nasci ali, mas fugi na época das febres, doente. Meus pais nunca mais voltaram. Gostava de pegar a estrada e chegar na madrugada e ficar na praia da Barra para ver o sol nascente. Era uma imagem que sempre me dava a devida dimensão de sua vida. O sol. O nascer do sol.

Esperava um horário civilizado para chamar a Suca. Apresentada por Campos um grande amigo de escola. Tinha esse nome por ser de Campos do Jordão e ter muito orgulho disso. E o nome ficou. Não se sabia o seu nome verdadeiro. Era o Campos. Uma grande figura, com parentes na cidade servia além de amigo, como guia, como se fosse uma das colunas de um Portal.

Dario era meu grande amigo, a segunda coluna do Portal. Não saberia definir o que é ser um grande amigo. Ele era mais do que isso.  Junto com Campos formavam um guia prático de leitura da vida. Um portal no qual estava pendurada a cortina que escondia a vida, seu significado ainda oculto.  Eles sabiam afastar a cortina a meu pedido revelando os segredos buscados.

Sempre fui um leitor apaixonado e por isso mesmo pensei que sabia tudo. E quando pensava, calculava e planejava, percebia que esse tudo não era nada.

O Dario precisava traduzir para mim, coisas que não estavam nos livros. Ele é um prático. Intuía tudo, praticamente tudo. Traduzia o mundo para mim. Sorridente, alegre, sem compromisso, acompanhava-me para todos os lugares, em qualquer dia e qualquer horário. A cortina sempre se abria como seu sorriso. Ele tinha uma grande força física, um corpo treinado pelo esporte, foi pugilista. Conheci a primeira ópera com ele. Carlos Gomes. Dormiu como um santo em pleno segundo ato de “Lo Schiavo”

A cortina não se abria com a mesma facilidade para o Campos. Ele a abria, mas tinha que puxar. A perseguição o consumia. Não sei bem o porquê, até hoje. Não conseguia compreender como um poder de intuição tão grande não lhe era satisfatório. Sempre existia algum motivo atrás da própria cortina que não se revelava para ele por completo. Seu pai morreu cedo.

Nove horas.

Estacionava na Av. Nossa Senhora de Copacabana e a buscava para o nosso final de semana. Uma menina miudinha, castanha, de grandes olhos orientais, trabalhava na câmara de comércio exterior. Descendente de libaneses era minha versão da Sherazade. Sempre pronta, meiga, agradável e linda.

Disse-me, certa ocasião, que eu despertava nela atitudes que nunca havia tido. E o mesmo se passava comigo, sem que eu tivesse tido coragem para lhe dizer. Ela tomou a iniciativa. Tínhamos um completo conhecimento um do outro. Os movimentos eram simultâneos e coincidentes. Tínhamos em conjunto a mesma forma e movimento de um véu. Impossível viver melhor. Escrevia muito bem. Cartas longas e carinhosas desnudando-se mais no papel do que na atmosfera comum. Os sentimentos eram desmedidos.

Acordávamos juntos, ela sempre fresca. Parecia que não dormia. Tinha certeza que ela acordava antes para suas primeiras águas, a fim de parecer sempre fresca. Incrível.

Ao me aproximar para fazer a barba encontrava sempre uma pedra pome. Eu não sabia o que era. Perguntei e ela me esclareceu: “Em caso de cortar o rosto com a lâmina; use.”

Ela exigia muito do meu caráter, quebrou meus medos no túnel “Dois irmãos”, ensinou-me a rir e a confiar.

O Dario dormia, contava os casos e dormia. O Campos namorava com a Lúcia. Tínhamos uma vida inteiramente diferente. Eram duas existências São Paulo e Rio. Esse conjunto formava um equilíbrio perfeito; todas as nossas ambições, anseios e necessidades estavam mutuamente atendidas; o mundo se tornou inofensivo para mim, estava inteiramente integrado nele.

Precisava trazê-la para São Paulo. Queria mostrá-la para os meus. Queria fundir as duas existências numa só.

Ela compreendia que meu pensamento não era cálculo. Não se prendia àquela forma de violência institucional que era o dinheiro. Era apenas um hábito adquirido pela literatura. Ela sabia.

Assim fiz. Consegui convencê-la, com muito custo. Fui com meu pai receber a Suca. Passamos em casa todo o final de semana. Aquilo tudo era muito bom, mas algo diferente. Estava sem o meu portal. Tinha mais, tinha a impressão que ficara aberto. E lembrei-me da história da queda de Constantinopla , ocasionada por uma porta aberta.

Deixei isso de lado.

Chegou à noite; a levamos de volta para o terminal.

Voltei meu rosto para meu pai, aflito e curioso pela sua opinião, não precisei dizer nada:

“Ela não serve pra você.”

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