A dor de cada um.
“I hate that sadness in your eyes.” (Richards & Jagger)
Eu busco numa velha canção a lembrança de uma época.
Depois de tanto tempo lutando, disputando, o que é fazer uma viagem ao passado?
As coisas mudam de perspectiva, você sobe ao alto e de lá fica observando tudo o que se passou durante toda sua vida. Agora que o final de aproxima.(E o final não é trágico, não é cômico, é apenas o final. Disse um poeta que o final virá com um suspiro, Você sabe que será a laranja. O seu final é uma laranja que foi inteiramente chupada e dela restará o desconto na passagem, a fila alternativa, que aparenta dignidade. Temos dois finais a sorte os fará coincidentes.)
Vou ignorar a dificuldade de ver as coisas do alto. Como é que se pode ver as coisas do alto dentro de um aquário? Que sensação mais estranha que a metrópole obriga você a sentir. Por mais que seu pensamento divague e busque o passado, o presente se torna insuportavelmente real, físico, palpável e impregna. Emprenha.
Mas não, você conseguirá, claro que conseguirá, afinal de contas a sua virtude e o seu vício são idênticos, eles se aproximam perigosamente do mesmo lugar, a força de vontade é muito parecida com a forca da vontade. Aos poucos vou me distanciando, pego o meu caminho procurando o ar fresco da cidade, aumento a velocidade no caminho para respirar alguma coisa melhor do que o ar carbônico.
A música vai tomando o seu lugar vai dominando o seu pensamento, e as coisas correm melhores, o caminho para o passado vai sendo pavimentado de recordações. Dos seus amores. Dos seus grandes amores. O melhor do seu grande amor. O melhor do seu amor. O melhor. O.
A lembrança de uma conversa ao telefone, a lembrança da palpitação que a perspectiva da ligação gerava. Da saudade doída que invadia o seu peito sempre. Que o fazia estourar de emoção apenas na conversa. Entre nós uma distância tão infinitamente pequena, mas infinitamente difícil de ser vencida. A cidade não deixava. Ela não permitia.
Você sente a pressão daqueles compromissos, sente a opressão de uma forma que tudo o que você precisa naquele momento há que ser deixado de lado. De que forma a cidade conseguiu passar para lá dentro essa necessidade estúpida de cumprir compromissos? O que é que existe de mais importante do que isso? Vamos deixar de lado essa coisa de amor. Amor é complicado. Amor é sonho. Sonhar é amar.
Mas continuemos homem, deixe de ir, volte um pouco, mais um pouco, procure um pouco mais, que você achará, certamente, achará. Onde está o carinho, como se pode viver sem ele? Ele é a matéria prima da convivência humana. O carinho não se confunde com a polidez; o olhar, felizmente não permite que isso ocorra. O carinho se transmite por um simples olhar.
Visto que não poderíamos imaginar que a cidade permitisse uma tamanha exposição de vida interior. A castração dos sentimentos carinhosos é a norma. Numa cidade não podemos nos dar a esse luxo, tudo é negócio, tudo é ambição.
E a sua família? Os meus? Os meus, se assim posso chamar, não são meus são da cidade, dos negócios, da angústia de ter e de não ter. Angústia que também tenho, como valor residual, por anos e anos de prática, de repetição ao infinito dessa regra, dessa lição, dessa obrigação.
Por mais que busque não consigo ver um olhar carinhoso; consegui lembrar daquele beijo materno antes de dormir? Não, não consegui, sinto muito.
Sou aquele catador de papel amassado pela vergonha, em alguma lata de lixo e sou livre o bastante para parar e ler.
Não, eu não posso fazer isso com você. Não é justo deixar esse legado, desculpe-me, antepassado, não deixarei um legado miserável.
Tenho outro para deixar, sem peso, diáfano e inútil, saboroso de ingenuidade, saboroso de juventude, e quem sabe com algum amor? Apesar dos olhares de censura do passado remoto, dos olhares de desinteresse do passado, e dos olhares vagos que encontro agora nessa viagem, tudo isso deixou em mim muitas marcas.
Portanto, odeie meu olhar triste, faça-me esse favor, odeie esse olhar. Não deixe que ele apareça. Continuo na viagem até o passado mais recente, aquele passado feito de passagens rápidas, de sofreguidão infinita. Infinita como a busca da perfeição. Perfeição que é feita de repetidas entregas.
Entregar-se repetidamente é a mesma coisa que não se entregar nunca. Nunca se tem tempo para entrega. A entrega é uma revista na sua gaveta mais íntima, uma busca frenética de um tesouro. Que ao ser descoberto desaparece, alia-se a uma fuga rápida antes da chegada da polícia, deixando tudo aberto, à mostra. Recolha seus restos, coisas que somente importam para aquele que as recolhe.
O sofrimento do desengano, da busca frustrada arde em meu peito, assim como já ardeu em outros todos os dias, uma ardência insuportável que sobe aos olhos fulminando uma lágrima também ela ardida, pode ser a semente do meu abraço. Abraço com o meu rancor. Rancor causado pelo andar amarrado da taturana do trânsito. Taturana que queima todos que a tocam. Rancor pelos milhares de olhares indeterminados, inúteis, inexpressivos. Rancor pela ausência até de um olhar de ódio. Rancor que não vem da só da cidade, mas do sua consequência: o sistema. Vem da alegria dos sociólogos. Sociólogos e sociedades se merecem.
O que? Essa viagem se torna circular, volto ao mesmo ponto de onde parti. Espero que a dor passe deixo tudo de lado, até que isso se afaste, e se o olhar não apareceu nesta viagem, um dia ele aparecerá, servirá como resposta para minha indagação, perene como é perene a beleza. Solto-me da taturana e me encaminho para uma clareira obscura num canto qualquer e fico ali, esperando passar o rancor, percebo que sou observado, calma e ingenuamente.
Uma cadela. Uma miserável cadela recém-parida olha-me. Deitada num muro. Fatigada e com medo. Olha-me com todo carinho que jamais pensei obter em algum olhar. E dizem que apenas têm instinto. Deixem que digam.






