Glomma

scriptu em Existo: talvez. by Djabal Saturday September 29, 2007

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Fui desafiado por uma Rainha; quem é você?

Sou alguém que apesar de possuir forma fixa e definida não sabe quem é, isoladamente. Sou um perneta, ou um maneta, uma mentira só.

Tenho como principal característica ser uma diferente pessoa para cada diferente pessoa. Não consegui jamais me definir sem essa dependência satélite. Sou um conjunto em movimento em busca do caminho, da trilha prateada que o caracol deixou quando saiu de um poço.

Eu sou um ser solitário buscando uma parte sua que se perdeu na noite dos tempos.

Sou um obstinado pelo movimento. Tudo é movimento. Nada é fixo. Nada está parado, tudo é ilusão de nossa ótica. Somos todos nós,  um fazer e um desfazer contínuo, perpétuo e incessante. As relações são movimentos.

Eu nego constantemente a minha individualidade. Só sou completo com o outro. Na fusão. Esse que está escrevendo agora ao terminar a página já será um outro, diferente daquele que lhe deu a resposta. Ela só é válida para a sua pergunta, minha rainha.

A sua curiosidade poderia ser satisfeita da seguinte forma: todos os seus gestos, pensamentos e palavras têm um correspondente dentro de mim, e somente após algum tempo de conversa, convivência, teríamos conhecimento do conjunto que formamos perante nós mesmos. Da mesma maneira que todos os meus gestos, pensamentos e palavras terão o correspondente dentro de você. Um dá o movimento e o caminho do outro. De forma simultânea e complementar. E só com esse conjunto à vista é que você poderia me definir em relação a você mesma e vice-versa. É do seu agrado ou não? É do meu agrado, ou não?

Somos o fruto  dessa resposta conjunta e coincidente. Ou seja, somos  uma junção de movimentos que dá um momento de êxtase. Esse poderia ser o meu sobrenome: Êxtase. Movimentos, deslumbramentos e tempos coincidentes são coisas indefiníveis em palavras.

Pasmo é  inimigo da duração.

Vivemos numa época da individualidade. Isso acabou comigo. Busquei de todas as formas e de todas as maneiras equilibrar-me nesse constante desequilíbrio. Não consegui achar o caminho.

Você me disse que gosta de pessoas e de suas mazelas. Não sei se estaria preparada para negar sua individualidade e se tornar simultaneamente rainha e súdita?  Ou se existirá alguém que concorde em ser rei e escravo alternadamente? Eu percorri muito da trilha e não encontrei. Encontrei pessoas que gostam de posições fixas e irremovíveis, que não conseguem conviver muito tempo numa cápsula espacial sem o efeito da gravidade. A gravidade nos pregou uma peça. De tanto agir sob seu domínio, perdemos a oportunidade de raciocinar sem amarras. Ficamos tontos com essa troca constante e nos aferramos à lógica. Perdemos pouco a pouco a nossa leveza. Seremos brevemente Napoleões de Hospício em busca do seu filho.  Bem, posso acrescentar que sou neto de Josefine.

 

A terceira margem do rio

scriptu em Acaso Sinto? by Djabal Friday September 28, 2007

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O meu comportamento com você é exatamente igual ao comportamento que tenho com todos, portanto, por absoluta incapacidade de ser claro, direto, e de demonstrar com alguma sabedoria meus sentimentos sempre me sentirei afastado, excluído.

A idéia do sêmen como condutor de meu código de conduta e de seu decodificador; como o verdadeiro legado dos citas, fenícios, árabes, portugueses, visigodos, suevos, francos, suecos, holandeses, alemães, nobres e vassalos, emigrados e bandeirantes, é a prova da minha maior incompetência, a incompetência de comunicar o vasto emaranhado de emoções que ficarão deslizando em minha mente sinuosamente, como a terceira margem do rio,  a procura do pescador.

Quem sabe um dia existirá um pescador? Que saberá empunhar a vara, calçar os chinelos, e esperar à margem a sua hora. Que tenha paciência para ver o fluir do tempo ? Para encontrar as respostas daquilo que seu antepassado tanto buscou, confundindo a tudo e a todos como um simples curioso à toa?

Quem sabe…? 

Algures

scriptu em Escrito pelas estrelas by Djabal Thursday September 27, 2007

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As minhas emoções de constantemente, os meus hábitos regularmente irregulares, as minhas falas com outros, as minhas adaptações à constituição social do mundo - tudo isto me parecia coisas lidas algures, páginas inertes de uma biografia impressa, pormenores de um romance qualquer, naqueles capítulos intervalares que lemos pensando em outra coisa, e o fio da narrativa se esbambeia até cobrejar pelo chão.

Fernando Pessoa in Livro do Desassossego através de Bernardo Soares

Alfândega, o retorno

scriptu em Penso? by Djabal Wednesday September 26, 2007

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Pensando que o mundo acabaria não numa explosão, mas num gemido. Descobri que o gemido era o meu. Dirigindo-me para a saída do aeroporto, só; relembrei a nossa viagem do nosso roteiro de compras, nas visitas que fizemos, nos lugares que conhecemos, submeti-me placidamente ao programa.

Não fiz nada do meu interesse, para conhecer outras paragens, outras pessoas. Tudo me parece plácido, flácido, com planos superficiais. Muita gente em pouco tempo. Mas o fiz para agradar, cimentar e pavimentar uma amizade. Não consegui entender nada direito. Pressa misturada à água e ao fogo. Inimigas entre si. Ora queimava a boca, ora comia cru, ora me afogava, ora não tomava banho.

Descobri que esse não é o caminho. Submeter-se para agradar é egoísmo. Egoísmo meu. Quero enganar o outro para que ele quebre as resistências e a partir desse momento possa instruí-lo a fazer o que bem entendo, por ter criado uma espécie de hábito de convivência; para acostumar o outro. É um dos caminhos da dominação.

Não sabia que esse comportamento é visto e sentido pelo ‘amigo’ e da mesma forma e com as mesmas armas ele combate.  Descobri que é um tédio viver sem divergências, sem discussões, sem divergências de pontos de vista. Descobri que não brigar por uma mulher que se ama,  é covardia ou falta de amor. Não é amizade.

Descobri que eles estavam certos em me abandonar pelo caminho. Eles não tinham amigo para proteger.  Não estávamos tornando sólido o que se desmancha no ar. Estávamos num teatro de variedades onde não faltou nada; tive até a companhia de uma dançarina egípcia. Que dançou para mim, exclusivamente, e quase sem nenhuma roupa, não compreendeu o porquê suas mãos me fascinaram tanto.

 Terminando essas reflexões, me vi voltando para a minha casa pela via expressa. Recebi uma ligação do mais velho dos companheiros de viagem perguntando por onde eu andava. Expliquei. E descobri que naquela correria toda, acabaram por esquecer umas das malas no aeroporto.  Pensei se isso não seria uma estratégia da aduana para cobrar mais impostos. 

Sarah

scriptu em Escrito pelas estrelas, Penso? by Djabal Wednesday September 26, 2007

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“His Grace returned from the wars today and pleasured me twice in his top boots”

Sarah Churchill (1660-1744), Duchess of Marlborough, diary entry.

Tudo

scriptu em Escrito pelas estrelas by Djabal Tuesday September 25, 2007

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O espírito humano é capaz de tudo – porque ele contém tudo, não só o passado como o futuro. 

Joseph Conrad in Coração das Trevas através de Juliana L. Freitas

Alfândega

scriptu em Existo: talvez. by Djabal Tuesday September 25, 2007

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Depois da temporada de compras seguimos para o hotel. Arrumar as malas é um ritual a ser cumprido. Todos os pacotes e caixas são desfeitos. As roupas, utensílios e objetos são colocados rigorosamente, de forma a ocupar o menor espaço possível, nas malas que vieram praticamente vazias. As meias são colocadas dentro dos sapatos. Jamais vi uma organização tão rigorosa e tão metódica. Cálculos sobre preços e notas. Mínimos e máximos.  Tantos anos se passaram desde o primeiro negócio, e eu continuava aprendendo sobre o comportamento. Parecíamos irmãos, íamos sempre aos mesmos lugares, tínhamos as mesmas idéias e reflexões. Nem mulher nos separou. Tornar-se-iam tolerantes pela proximidade? Indagados sobre a arrumação e os cálculos, fui esclarecido: possibilidade de ser pego pelo sorteio da alfândega.  Seguimos num carro alugado para comportar seis pessoas. Éramos três e tralhas. Ao chegar fui convencido a sentar-me numa cadeira de rodas. A fim de irmos mais rápidos. Percorremos a trilha até chegarmos à aduana. O sinal tocou. Os outros dois se entreolharam; olhos indagando  se o aviso era para eles. Escapuliram diante daquele  ror. Suspirei e fiquei lendo T.S.Eliot.

Diálogo

scriptu em Penso? by Djabal Monday September 24, 2007

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Outro dia ouvi ou li de alguém (Alberto Manguel?) que a escrita á um diálogo. Os escritores nunca têm,  a rigor, nada de novo para comunicar, apenas tem uma outra maneira, mais agradável, mais instigante, mais original de encarar o mesmo problema. E para esse diálogo utiliza as suas referências, suas leituras e reflexões cruzadas. 

“A suprema questão sobre uma obra de arte é saber  qual a profundidade de vida de onde emerge”  J.Joyce 

Referências que podem ser extraordinárias, majestosas e clarividentes, portanto, exigindo do humilde e desavisado leitor uma capacidade de resposta e conhecimento que não teve tempo ainda de adquirir, ou de uma profundidade que ele ainda não habitou. Talvez esse seja o maior problema dos autores como Proust e Joyce, ou mesmo Borges. Eles são além de criativos, dotados de um conhecimento tão vasto que nós nos perdemos nessas referências. Elas nos remetem à galáxias distantes daquelas que já conhecemos.  

Assim a leitura é sempre essa tentativa de diálogo, às vezes, por conta da forma, ora por conta do conteúdo, ora pelos dois;  fica a fama de difícil. Mas não o é. Asseguro-lhes. Ela exige paciência e tempo. Coisas que os tempos de hoje não prestigiam muito.  

Joyce sabia disso: “Quero ser um enigma para os próximos mil anos.” Conseguiu?  

Surreal

scriptu em Escrito pelas estrelas by Djabal Monday September 24, 2007

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O fim do meu fôlego é o começo do seu.

 

Se você quisesse, eu não seria nada, ou apenas um traço para você.

 

A garra do leão estreita o seio da vinha.

 

O rosa é melhor que o negro, mas os dois combinam.

 

Diante do mistério. Homem de pedra, compreende-me.

 

Você é meu mestre. Não passo de um átomo que respira no canto de seus lábios ou que expira. Quero tocar a serenidade com o dedo molhado de lágrimas.

 

Por que essa balança que oscilava na obscuridade de um buraco cheio de bolas de carvão?

 

Não sobrecarregar os pensamentos com o peso dos sapatos.

 

Eu sabia de tudo, de tanto que buscava ler nos meus riachos de lágrimas.

 

 

André Breton in Nadja através de Ivan Barroso

Linhas

scriptu em Penso? by Djabal Friday September 21, 2007

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A Natureza não tem linhas retas, essas são uma criação humana. Eu gosto de pensar em linhas curvas e suaves, como ela faz. Porém, tudo tem uma lógica, não nos é jamais dado perceber isso, em muitos casos, mas que existe, ah, isso existe. Gosto do humor, do bom humor, de encontrar e entender sempre o lado bom das coisas, por piores que elas sejam e me apetece imaginar um caminho. O caminho é o que importa e é a síntese de nossa passagem neste breve despertar.

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