Osrevni

Pensava sobre a memória fútil. Escolhi um trecho que descreveu com muita precisão a minha sensação sobre a vida. Uma espécie de aula que já havia começado quando chegamos, ou ainda uma festa, uma viagem a Paris, cuja festa já estava em ebulição quando já nos despedíamos delas.
Essas sensações também impressionaram ao Osrevni que hoje mora em Paris e freqüenta cotidianamente a torre Eiffel. Sabe da predominância dela sobre a cidade.
Enfrentei um feriado prolongado fora da cidade, na parte negra da serra da Mantiqueira, levei alguns livros para ler, a começar por Armadilha para Lamartine, com ótima recomendação.
Sempre tenho problemas com a escolha dos livros; já os relatei por aqui. Nesse final de semana ele se agravou a ponto de levar mais de oito volumes para simplesmente passar três dias. Talvez isso seja um exemplo da minha necessidade de isolamento, da ânsia de não encontrar ninguém, de me deixar levar pela leitura, pelos sonhos, pela festa.
Fiquei num lugar agradável, no coração da pequena cidade, com pessoas ansiosas demais para nos tornarem felizes.
Não me passou pela cabeça que, geralmente, as férias são uma transferência da vida cotidiana para o final de semana sem as gravatas. Férias verdadeiras são aquelas que se passa em casa.
São pessoas mais velhas formando casais extravagantes, homens cuidando das esposas, pagando culpas passadas e remoendo pecados futuros. Como cartão de crédito. Pessoas solitárias com filhos mimados. Vendo nas demais crianças uma ameaça à pureza. Jovens que não estão aí com nada, dando uma amostra da crueldade e injustiça infanto-juvenil; apenas preocupados consigo mesmos.
Outras parecendo que estão num aquário olhando, tirando conclusões inúteis.
Outro ainda, lendo.
Como dizia: as pessoas saem em férias e seguem trabalhando, com agendas de passeio. Horários. Sinos, campainhas, chamadas, caminhadas. Não sei o porquê. Outras ficam emburradas por não ter o que comprar. Assistir TV. É uma grande atividade.
Grandes senhores sírios e sérios. Mulheres caçadoras. Homens também. Existe uma grande solidão embutida em todos.
Meninas núbeis. Fúteis. Sorrisos escondidos. Mãos que alisam cabelos virgens buscando homens gentis e rápidos. Gripes embutidas que resolveram mostrar suas garras. Inundações em banheiros antiquados. Esse é o cenário.
Quase me esqueço dos pães de queijos. Esses sim, ficaram modernos: pequenos, uniformes, ruins, sem o gosto do imprevisto. Uma simples e monótona repetição. Como tudo o mais.
Tudo isso foi esquecido. Escolheu para ser ler primeiro “O poste de vapor” de Ferenc Molnár. Sem nenhum motivo aparente, esse livro saltou para minhas mãos da prateleira onde estava.
E foi lá que descobri um Eiffel morador por algum tempo na cidade. No tempo em que construiu entre outras coisas, a Ponte Margarida. Que foi a sua torre deitada ao longo das margens do Rio Danúbio. E foi lá – deitado também na maior parte do tempo - que descobri o maravilhoso personagem título. Capitão da cavalaria, hussardo, bebedor do törköly, romântico incorrigível.
Personagem com o qual me identifiquei, fechando assim o ciclo das minhas inúteis memórias, memórias que me remetem ao ponto inicial, ao inverso; autor intelectual dessas linhas, talvez, inúteis.
Moral da história: Não escolha seus livros, deixe a escolha por conta deles. Eles sabem o que fazem.
