Botrytis

scriptu em Acaso Sinto? by Djabal Friday October 26, 2007

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Joguei fora um envelope hoje. Grande e pardo com revestimento de bolhas para não danificar um CD contido no seu interior. Enviado de Londres, após uma mensagem incompreensível por e-mail. Nela o destinatário se apresentava com um nome desconhecido para mim, porém com algumas senhas, fatos e chaves que chamavam pela minha memória. 

A primeira senha era um xerox de um escrito-índice com a minha letra. Dando nome às músicas; entre elas: Jethro Tull, New York Dolls, Rolling Stones,Mozart, Liszt, Beethoven, Brahms, Aaron Copland e Stravinsky. 

 A segunda chave era o nome de uma colega do curso de direito: Silvana. E de fato, eu me sentava ao lado dela. Durante três quartas partes do curso. Ela sempre quietinha, miudinha, parecia ter muito medo de ocupar ou preocupar alguém, muito tímida, e de apurado gosto musical. Aos poucos, fui me lembrando do seu pedido de sugestões de músicas para ouvir e aprender.   

“Aprender?“

“Sim, aprender a dominar e entender as minhas emoções quando as escuto, se elas não aparecem, significa que a música não me pertence, não conheço a pessoa que as escreveu.”

 “!!??” 

Essa história completa me veio à memória hoje ao ler um amigo polonês ensinando, recomendando: devemos anotar os fatos e momentos que passam por nós, se temos o estímulo e o gosto de escrever. Se houver valor literário, ele será como a sumo da uva que fica depositada no barril de carvalho; ficará.

Depois de um tempo ao vermos o que ficou escrito, ele sairá do recipiente integralmente pronto para ser bebido como se fosse um vinho. A qualidade do vinho depende muito do gosto daquele que o bebe. Precisa haver, como na música, uma afinidade entre os sabores que ele oferece e o que gostaríamos de obter, naquele momento. 

Lembrei-me de todo o passado naqueles anos, sem ter nada anotado; portanto, a recomendação para se tomar esse vinho, deve vir seguida do alerta: ele não foi envelhecido em tonel ou barril.

 Envelheceu-se a uva no tempo e foi recolhida após ter sido atacado pela botrytis, e por isso sem o devido preparo deve ser tomado somente na sobremesa.  Mesmo uma uva estragada pode dar vinho. 

Creio que devo acrescentar uma terceira chave: o bilhete que acompanhava o CD pedia ajuda para que ele pudesse continuar e terminar o seu curso - como irmão dela - de literatura latino-americana.  

Poesia e palavra

scriptu em Penso? by Djabal Thursday October 25, 2007

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Ana; 

O homem coloca em palavras seus sentimentos, pensamentos, ações e lugares para que ele próprio exista. A primeira forma de expressão do homem foi o murmúrio, expressando medo, raiva, fome. A nossa primeira melodia foi um murmúrio. A última será um suspiro.

A partir do momento que precisou comunicar algo além, como bem-querer, por exemplo, notou que precisava de mais refinado; uma canção talvez?  Da canção para a palavra - como se fosse uma partícula da música - foi um passo.  

Hoje cada um de nós escolhe as palavras que utiliza como uma música individual, ela nos torna reconhecível, para quem nos ouve; assim como ao míope basta o andar para reconhecer quem se aproxima.

As palavras tomadas da canção formaram a poesia, passada boca a boca durante milhares de anos, como depositária do conhecimento do passado, da inteligência dos nossos pais.

A nossa razão fez a prosa da poesia. Aos poucos separamos o que era música do que era informação, guia ou reflexão. Hoje temos uns e outros poetas, a grande maioria proseia. O descuido com música é uma outra forma de melodia. Expressão dos dias modernos. A pressa, a rapidez, o medo da morte.

 Da garganta saiu o murmúrio e a palavra, através da canção; assim como das pernas saíram o movimento e o passo, através da dança. Tanto uma como outra nos torna únicos e passageiros.

A escrita? É uma bobagem, uma forma de dominarmos o tempo, que nos é e sempre será insubmisso. Apenas nos servirá pelo curto espaço de uma vida, seja homem, seja caracol.

Somente um ou outro tomado por um sopro poderá reunir a mais perfeita forma de comunicação que envolva: palavra, música, dança, pintura, volume e espaço.  Esse será único e incompleto. Lembrado por ser uma síntese de uma época. A era resumida numa pessoa ou objeto.

Somos todos ansiosos por saber do nosso caminho. A palavra, seja poesia ou prosa, não discorrerá sobre ele, irá apenas percorrê-lo; ela não fala, ela faz.

 “Há tantos caminhos quanto corações” lembra Farid Ud-Din Attar 

 

Distraído

scriptu em Escrito pelas estrelas by Djabal Thursday October 25, 2007

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Tudo quanto tenho buscado na vida, eu mesmo o deixei por buscar. Sou como alguém que procure distraidamente o que, no sonho entre a busca esqueceu já o que era. Torna-se mais real que a coisa buscada ausente o gesto real das mãoes visíveis que buscam, revolvendo, deslocando, assentando, e existem brancas e longas, com cinco desdes cada uma , exactamente.

Fernando Pessoa in “O livro do desassossego”, através de Bernardo Soares

Teorema da cadela

scriptu em Existo: talvez. by Djabal Wednesday October 24, 2007

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Ele provara a elegância da teoria; restou a imagem do olhar daquela cadela recém parida no canto do portão solitário amamentando sua prole.

Epifania

scriptu em Acaso Sinto? by Djabal Tuesday October 23, 2007

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Etimologia da palavra, segundo nos ensina Antonio Houaiss em seu dicionário:”gr. epipháneia,as ‘aparição, manifestação’, pelo lat. epiphanía,ae ‘aparição…” 

Ouvi uma cantata catalogada com  o número duzentos e dois na obra de Bach. Tornei-me leve como uma pluma; tirou-me com a sua mão doce e sutil tudo me cerca e transtorna. Levitei no curto espaço de tempo em que ouvi: “Dissipai-vos ó sombras tristes”. A voz dança por sobre o pentagrama dando-me de beber, saciou-me. Uma gota tão diáfana aplaca minha sede de trinta anos. Razão não existe para esse efeito.

Logo em seguida lendo sobre Conselheiro Acácio encontro o mesmo número - 202. Como o número de sua residência nos Campos Elíseos. Número que não existe  em Paris, entretanto;  vejo esta obra de Olivier Culmann e com ela recebo a aparição do conhecimento inútil  acumulado em nossa massa cinzenta, o pequeno espaço que destinamos às nossas emoções, tudo regado pelo tempo que descasca a nossa pele e indica a nossa ruína. 

 

Celular

scriptu em Penso? by Djabal Monday October 22, 2007

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Acabei de sair do prédio. Mole de pedra formando um quadrilátero. Saio dele que ocupa o terço final do terreno. Na frente, um largo, neste uma estátua de um poeta que morreu aos vinte anos. Não teve tempo, como eu, para ficar descrente das revoluções. O piso é de pequenas lajotas de cerâmica que juntas deveriam formar um desenho geométrico e regular, não fosse a ausência de grande parte delas. Uma cena urbana, totalmente cinza não fosse um casal de palmeiras.

Demorei muito para sair e me encontro só. Estou sem carro, o meu carona deve ter ido embora.  Encosto-me num que está estacionado e espero, coloco minhas muletas ao lado.

 Depois de muito tempo esperando, não passou viva alma, nenhum táxi, nenhum carro. O centro está degradado, de tanto se falar disso, ninguém mais o freqüenta. Resolvi chamar alguém  para me buscar.

Tenho um novo modelo de aparelho celular fino como uma folha de papel. O aparelho não tem memória.

Só consigo chamar se souber o número. Assim fico um tempão conversando com o computador do auxílio à lista. Uma voz digital tornada semi-humana. Não consigo nada. Finalmente uma  operadora se identifica dizendo um nome que não compreendo, numa melodia estranha. Digo que preciso do telefone de um ponto de táxi.

 “Só se o senhor souber o endereço.” – foi a resposta.

“Estou no Largo de São Francisco.”

“Não existe nenhuma ocorrência na lista.”

“Obrigado.”

Não tenho ninguém em casa, o escritório está fechado.Continuo de pé. Esperando. Só.Estou diante de um abismo. Sem conseguir dar o próximo passo. Esperando que alguém me jogue uma corda salvadora. Percebo que a memória é uma corda, uma pequena plataforma, como aquela lajota. Aquele pedaço de barro cozido é a nossa memória,   memória que emprestamos ao celular para que armazene. Aguardarei.  

Onde estás ?

scriptu em Escrito pelas estrelas, Penso? by Djabal Friday October 19, 2007

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Para chegares onde estás, para saíres de onde não estás,

Deves seguir por um caminho onde o êxtase não medra,

Para chegares ao que não sabes

Deves seguir por um caminho que é o caminho da ignorância.

Para possuíres o que não possuis

Deves seguir pelo caminho do despojamento.

Para chegares ao que não és

Deves cruzar pelo caminho que não és.

E o que não sabes é apenas o que sabes

E o que possuis é o que não possuis

E onde estás é onde não estás.

T.S.Eliot in East Coker, através de Ivan Junqueira

Casa

scriptu em Existo: talvez. by Djabal Wednesday October 17, 2007

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Sempre morei em casa e tinha uma atração pelos cantos solitários, da janela do meu quarto via um panorama degradado, dos fundos de outras casas, terreno de um pequeno sítio urbano com galinhas d’angola e fábricas. Preferia ficar deitado e olhar para o céu. O sossego e o céu foram as molduras visuais e auditivas dos meus devaneios.

 

Fiquei fechado nele durante quarenta dias, sem sair para nada, absolutamente nada. Estava estudando para atingir o meu objetivo. Cursar uma boa escola, uma que fosse imbatível na opinião de todos. Sempre gostei de ser desafiado, o fracasso das minhas tentativas apenas me deixava com mais interesse de vencer o obstáculo. Nenhum deles conseguiu me vencer. Todos que coloquei pela frente foram demolidos.

 

O que não sabia era o que fazer com a vitória? Cursei a universidade e daí? Sou gerente de clube. Tenho um amigo que fez o mesmo para conseguir se graduar, e cursou todo o curso de direito em poucos meses de clausura. Conseguiu? Não sei, parece que sim, porém conseguiu mais do que isso, escreveu a sua experiência e a transformou num livro.

 

Soube o que fazer com o que tinha acumulado. Eu, entretanto, sou fadado a consumir todo o acumulado porque tenho uma visão de pardal das coisas. Não sei o que fazer com as vitórias, qualquer resultado me satisfaz.

 

Esse meu amigo bebia. Bebia muito, aprendeu a beber com cinco anos de idade, e tomava pileques homéricos. Homérico por quebrar pratos, garrafas e urinar na lareira em dias de festas que dava em sua casa, como uma forma de homenagem aos seus convidados.

 

Eu, também, claro.  Sempre fui um bêbado da abstenção. Jamais bebi nada a não ser água. As minhas bebedeiras sempre foram as bebedeiras brancas. Aquelas que nos fazem perder o controle sem nenhuma artimanha que as justifique a não ser o próprio descontrole emocional. Nasci para ser bêbado. Nunca soube.

 

Tinha um belo porão na casa da minha avó, onde passava a maior parte do meu tempo, e ele não possuía altura suficiente para um homem ficar de pé só um menino. Eu passava grande parte do meu tempo, na porta, sem entrar até o fundo, brincando com velhas carteiras, objetos e dejetos familiares cheios de pó. Pó do qual fui contaminado, como já contei pra vocês.

 

Jamais saí de dentro da minha casa, a minha primeira janela com horizonte foi na serra gaúcha, uma vista deslumbrante para o cânion, verde, mavioso, intenso, próximo e sensual. Ela ficou repercutindo dentro de mim.

 

Falando do branco. A bebedeira branca vocês já conhecem. A lógica branca decorre dela, seja fisiológica ou espiritual. É do branco que falo agora.

E a cor branca sempre foi algo que provocou em mim arrepios. Apesar de ser considerada e bem considerada por muita gente, ela sempre me representou o nada. O infinito que não se consegue mirar. Aquela absurda falta de apoio que o homem normalmente se vê e enfrenta. Ou não.

 

A natureza vista sem nenhuma cor, sem nenhum enfeite, pois o branco é ausência visível da cor ou a soma de todas. Não sei bem. A Antártida representa bem o universo paralisado.

 

E para minha alegria encontrei uma narrativa de uma viagem ao pólo sul onde na última vila habitada tudo era negro, até os dentes dos indígenas, e à medida que se avançava para o sul, tudo ficava branco, os animais, as aves, e o próprio mar.

 

Paradoxalmente a temperatura da região não caiu, pelo contrário, subiu, causando um vapor muito denso. O diário de bordo acusava a data de nove de março quando atravessou uma imensa cortina sem nenhum som. O próximo registro é o do dia vinte e um, registrando uma espessa escuridão.

 

Informo que nasci aos quinze de março, esclareço: não sei se foi nessa viagem.

Sincero

scriptu em Escrito pelas estrelas by Djabal Wednesday October 17, 2007

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“Nunca sabemos quando somos sinceros. Talvez nunca o sejamos. E mesmo que sejamos sinceros hoje, amanhã podemos sê-lo por coisa contrária.”

Fernando Pessoa in Livro do Desassossego através de Bernando Soares

Porta

scriptu em Escrito pelas estrelas by Djabal Tuesday October 16, 2007

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À porta quem virá bater?

Em uma porta aberta se entra

Uma porta fechada um antro

O mundo bate do outro lado de minha porta.

Pierre Albert-Birot, Les amusements naturels, apud Poética do Espaço de Gaston Bachelar através de Antonio de Padua Danesi

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