Meu caracol

scriptu em Penso? by Djabal Monday October 1, 2007

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À Francis Ponge e Robert Musil

Descobri recentemente que temos muito a aprender com os caracóis. Sentado na beira daquele rio, vi que ele habita a terra úmida. Ele não só habita, mas carrega, come, nutre e a expele. A terra ao passar pelo caracol e ao voltar ao seu ambiente jamais voltará a mesma, ela se transforma e ele se transformou. Com uma voluptuosidade de extremo bom gosto; deixando atrás de si uma trilha prateada; finalmente, carrega a sua obra de arte que é a sua casa expondo seus limites.

Não seria tempo perdido pensarmos que os nossos sentimentos têm as mesmas características daquela terra. São as sensações que nos alimentam, elas passam por nós e saem transformadas como se fossem integralmente nossas.

 

Não o são.

 

Cada uma é um outro fruto, filha daquele pai e daquela mãe. Essa é a nossa trilha prateada. Trilha que poderá nos denunciar para algum predador, que poderá nos tornar presa fácil.

Ando conversando bastante sobre indivíduo, individualidade e individualismo e preliminarmente, posso concluir que estamos fadados a viver nessa constante comunhão, portanto tudo que nos leva ao indivíduo, que não seja roupa, alimento, habitação, é falso, melhor dizendo, é fútil, destrutível e fadado ao extermínio.

Devemos cultivar a convivência, aprendendo que os nossos sentimentos são despertados de dentro de nós, por tudo que nos cerca; geralmente, não o percebemos, por impaciência ou intolerância, por não conseguir ver a terra como alimento.

Depois de alguma experiência posso acrescentar: todas as vezes que alguma ave de rapina me aprisionou, saí mais rico da experiência, tudo que me foi devorado, se regenerou e se reconstruiu.

A nossa obra de arte é a cabeça. Carrega nosso mundo, é materialmente delimitada e interiormente infinita, uma mirada ao infinito. Creia.

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