Casa
Sempre morei em casa e tinha uma atração pelos cantos solitários, da janela do meu quarto via um panorama degradado, dos fundos de outras casas, terreno de um pequeno sítio urbano com galinhas d’angola e fábricas. Preferia ficar deitado e olhar para o céu. O sossego e o céu foram as molduras visuais e auditivas dos meus devaneios.
Fiquei fechado nele durante quarenta dias, sem sair para nada, absolutamente nada. Estava estudando para atingir o meu objetivo. Cursar uma boa escola, uma que fosse imbatível na opinião de todos. Sempre gostei de ser desafiado, o fracasso das minhas tentativas apenas me deixava com mais interesse de vencer o obstáculo. Nenhum deles conseguiu me vencer. Todos que coloquei pela frente foram demolidos.
O que não sabia era o que fazer com a vitória? Cursei a universidade e daí? Sou gerente de clube. Tenho um amigo que fez o mesmo para conseguir se graduar, e cursou todo o curso de direito em poucos meses de clausura. Conseguiu? Não sei, parece que sim, porém conseguiu mais do que isso, escreveu a sua experiência e a transformou num livro.
Soube o que fazer com o que tinha acumulado. Eu, entretanto, sou fadado a consumir todo o acumulado porque tenho uma visão de pardal das coisas. Não sei o que fazer com as vitórias, qualquer resultado me satisfaz.
Esse meu amigo bebia. Bebia muito, aprendeu a beber com cinco anos de idade, e tomava pileques homéricos. Homérico por quebrar pratos, garrafas e urinar na lareira em dias de festas que dava em sua casa, como uma forma de homenagem aos seus convidados.
Eu, também, claro. Sempre fui um bêbado da abstenção. Jamais bebi nada a não ser água. As minhas bebedeiras sempre foram as bebedeiras brancas. Aquelas que nos fazem perder o controle sem nenhuma artimanha que as justifique a não ser o próprio descontrole emocional. Nasci para ser bêbado. Nunca soube.
Tinha um belo porão na casa da minha avó, onde passava a maior parte do meu tempo, e ele não possuía altura suficiente para um homem ficar de pé só um menino. Eu passava grande parte do meu tempo, na porta, sem entrar até o fundo, brincando com velhas carteiras, objetos e dejetos familiares cheios de pó. Pó do qual fui contaminado, como já contei pra vocês.
Jamais saí de dentro da minha casa, a minha primeira janela com horizonte foi na serra gaúcha, uma vista deslumbrante para o cânion, verde, mavioso, intenso, próximo e sensual. Ela ficou repercutindo dentro de mim.
Falando do branco. A bebedeira branca vocês já conhecem. A lógica branca decorre dela, seja fisiológica ou espiritual. É do branco que falo agora.
E a cor branca sempre foi algo que provocou em mim arrepios. Apesar de ser considerada e bem considerada por muita gente, ela sempre me representou o nada. O infinito que não se consegue mirar. Aquela absurda falta de apoio que o homem normalmente se vê e enfrenta. Ou não.
A natureza vista sem nenhuma cor, sem nenhum enfeite, pois o branco é ausência visível da cor ou a soma de todas. Não sei bem. A Antártida representa bem o universo paralisado.
E para minha alegria encontrei uma narrativa de uma viagem ao pólo sul onde na última vila habitada tudo era negro, até os dentes dos indígenas, e à medida que se avançava para o sul, tudo ficava branco, os animais, as aves, e o próprio mar.
Paradoxalmente a temperatura da região não caiu, pelo contrário, subiu, causando um vapor muito denso. O diário de bordo acusava a data de nove de março quando atravessou uma imensa cortina sem nenhum som. O próximo registro é o do dia vinte e um, registrando uma espessa escuridão.
Informo que nasci aos quinze de março, esclareço: não sei se foi nessa viagem.

