Celular
Acabei de sair do prédio. Mole de pedra formando um quadrilátero. Saio dele que ocupa o terço final do terreno. Na frente, um largo, neste uma estátua de um poeta que morreu aos vinte anos. Não teve tempo, como eu, para ficar descrente das revoluções. O piso é de pequenas lajotas de cerâmica que juntas deveriam formar um desenho geométrico e regular, não fosse a ausência de grande parte delas. Uma cena urbana, totalmente cinza não fosse um casal de palmeiras.
Demorei muito para sair e me encontro só. Estou sem carro, o meu carona deve ter ido embora. Encosto-me num que está estacionado e espero, coloco minhas muletas ao lado.
Depois de muito tempo esperando, não passou viva alma, nenhum táxi, nenhum carro. O centro está degradado, de tanto se falar disso, ninguém mais o freqüenta. Resolvi chamar alguém para me buscar.
Tenho um novo modelo de aparelho celular fino como uma folha de papel. O aparelho não tem memória.
Só consigo chamar se souber o número. Assim fico um tempão conversando com o computador do auxílio à lista. Uma voz digital tornada semi-humana. Não consigo nada. Finalmente uma operadora se identifica dizendo um nome que não compreendo, numa melodia estranha. Digo que preciso do telefone de um ponto de táxi.
“Só se o senhor souber o endereço.” – foi a resposta.
“Estou no Largo de São Francisco.”
“Não existe nenhuma ocorrência na lista.”
“Obrigado.”
Não tenho ninguém em casa, o escritório está fechado.Continuo de pé. Esperando. Só.Estou diante de um abismo. Sem conseguir dar o próximo passo. Esperando que alguém me jogue uma corda salvadora. Percebo que a memória é uma corda, uma pequena plataforma, como aquela lajota. Aquele pedaço de barro cozido é a nossa memória, memória que emprestamos ao celular para que armazene. Aguardarei.
