Poesia e palavra
Ana;
O homem coloca em palavras seus sentimentos, pensamentos, ações e lugares para que ele próprio exista. A primeira forma de expressão do homem foi o murmúrio, expressando medo, raiva, fome. A nossa primeira melodia foi um murmúrio. A última será um suspiro.
A partir do momento que precisou comunicar algo além, como bem-querer, por exemplo, notou que precisava de mais refinado; uma canção talvez? Da canção para a palavra - como se fosse uma partícula da música - foi um passo.
Hoje cada um de nós escolhe as palavras que utiliza como uma música individual, ela nos torna reconhecível, para quem nos ouve; assim como ao míope basta o andar para reconhecer quem se aproxima.
As palavras tomadas da canção formaram a poesia, passada boca a boca durante milhares de anos, como depositária do conhecimento do passado, da inteligência dos nossos pais.
A nossa razão fez a prosa da poesia. Aos poucos separamos o que era música do que era informação, guia ou reflexão. Hoje temos uns e outros poetas, a grande maioria proseia. O descuido com música é uma outra forma de melodia. Expressão dos dias modernos. A pressa, a rapidez, o medo da morte.
Da garganta saiu o murmúrio e a palavra, através da canção; assim como das pernas saíram o movimento e o passo, através da dança. Tanto uma como outra nos torna únicos e passageiros.
A escrita? É uma bobagem, uma forma de dominarmos o tempo, que nos é e sempre será insubmisso. Apenas nos servirá pelo curto espaço de uma vida, seja homem, seja caracol.
Somente um ou outro tomado por um sopro poderá reunir a mais perfeita forma de comunicação que envolva: palavra, música, dança, pintura, volume e espaço. Esse será único e incompleto. Lembrado por ser uma síntese de uma época. A era resumida numa pessoa ou objeto.
Somos todos ansiosos por saber do nosso caminho. A palavra, seja poesia ou prosa, não discorrerá sobre ele, irá apenas percorrê-lo; ela não fala, ela faz.
“Há tantos caminhos quanto corações” lembra Farid Ud-Din Attar

