Poesia e palavra

scriptu em Penso? by Djabal Thursday October 25, 2007

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Ana; 

O homem coloca em palavras seus sentimentos, pensamentos, ações e lugares para que ele próprio exista. A primeira forma de expressão do homem foi o murmúrio, expressando medo, raiva, fome. A nossa primeira melodia foi um murmúrio. A última será um suspiro.

A partir do momento que precisou comunicar algo além, como bem-querer, por exemplo, notou que precisava de mais refinado; uma canção talvez?  Da canção para a palavra - como se fosse uma partícula da música - foi um passo.  

Hoje cada um de nós escolhe as palavras que utiliza como uma música individual, ela nos torna reconhecível, para quem nos ouve; assim como ao míope basta o andar para reconhecer quem se aproxima.

As palavras tomadas da canção formaram a poesia, passada boca a boca durante milhares de anos, como depositária do conhecimento do passado, da inteligência dos nossos pais.

A nossa razão fez a prosa da poesia. Aos poucos separamos o que era música do que era informação, guia ou reflexão. Hoje temos uns e outros poetas, a grande maioria proseia. O descuido com música é uma outra forma de melodia. Expressão dos dias modernos. A pressa, a rapidez, o medo da morte.

 Da garganta saiu o murmúrio e a palavra, através da canção; assim como das pernas saíram o movimento e o passo, através da dança. Tanto uma como outra nos torna únicos e passageiros.

A escrita? É uma bobagem, uma forma de dominarmos o tempo, que nos é e sempre será insubmisso. Apenas nos servirá pelo curto espaço de uma vida, seja homem, seja caracol.

Somente um ou outro tomado por um sopro poderá reunir a mais perfeita forma de comunicação que envolva: palavra, música, dança, pintura, volume e espaço.  Esse será único e incompleto. Lembrado por ser uma síntese de uma época. A era resumida numa pessoa ou objeto.

Somos todos ansiosos por saber do nosso caminho. A palavra, seja poesia ou prosa, não discorrerá sobre ele, irá apenas percorrê-lo; ela não fala, ela faz.

 “Há tantos caminhos quanto corações” lembra Farid Ud-Din Attar 

 

Distraído

scriptu em Escrito pelas estrelas by Djabal Thursday October 25, 2007

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Tudo quanto tenho buscado na vida, eu mesmo o deixei por buscar. Sou como alguém que procure distraidamente o que, no sonho entre a busca esqueceu já o que era. Torna-se mais real que a coisa buscada ausente o gesto real das mãoes visíveis que buscam, revolvendo, deslocando, assentando, e existem brancas e longas, com cinco desdes cada uma , exactamente.

Fernando Pessoa in “O livro do desassossego”, através de Bernardo Soares

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