Botrytis

Joguei fora um envelope hoje. Grande e pardo com revestimento de bolhas para não danificar um CD contido no seu interior. Enviado de Londres, após uma mensagem incompreensível por e-mail. Nela o destinatário se apresentava com um nome desconhecido para mim, porém com algumas senhas, fatos e chaves que chamavam pela minha memória.
A primeira senha era um xerox de um escrito-índice com a minha letra. Dando nome às músicas; entre elas: Jethro Tull,
A segunda chave era o nome de uma colega do curso de direito: Silvana. E de fato, eu me sentava ao lado dela. Durante três quartas partes do curso. Ela sempre quietinha, miudinha, parecia ter muito medo de ocupar ou preocupar alguém, muito tímida, e de apurado gosto musical. Aos poucos, fui me lembrando do seu pedido de sugestões de músicas para ouvir e aprender.
“Aprender?“
“Sim, aprender a dominar e entender as minhas emoções quando as escuto, se elas não aparecem, significa que a música não me pertence, não conheço a pessoa que as escreveu.”
“!!??”
Essa história completa me veio à memória hoje ao ler um amigo polonês ensinando, recomendando: devemos anotar os fatos e momentos que passam por nós, se temos o estímulo e o gosto de escrever. Se houver valor literário, ele será como a sumo da uva que fica depositada no barril de carvalho; ficará.
Depois de um tempo ao vermos o que ficou escrito, ele sairá do recipiente integralmente pronto para ser bebido como se fosse um vinho. A qualidade do vinho depende muito do gosto daquele que o bebe. Precisa haver, como na música, uma afinidade entre os sabores que ele oferece e o que gostaríamos de obter, naquele momento.
Lembrei-me de todo o passado naqueles anos, sem ter nada anotado; portanto, a recomendação para se tomar esse vinho, deve vir seguida do alerta: ele não foi envelhecido em tonel ou barril.
Envelheceu-se a uva no tempo e foi recolhida após ter sido atacado pela botrytis, e por isso sem o devido preparo deve ser tomado somente na sobremesa. Mesmo uma uva estragada pode dar vinho.
Creio que devo acrescentar uma terceira chave: o bilhete que acompanhava o CD pedia ajuda para que ele pudesse continuar e terminar o seu curso - como irmão dela - de literatura latino-americana.