Zelig

scriptu em Existo: talvez. by Djabal Monday October 15, 2007

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Sou uma espécie de zelador de um clube. O clube dos desconfiados. Foi apresentado nele por Carlos, e obtive o emprego. Um clube com um número enorme de associados e com uma freqüência baixíssima.  E pela maciça ausência acabei por criar um emprego que completasse as minhas parcas moedas. Eu vivo de contar histórias aqui.

As histórias mais contadas são aquelas referentes aos bens materiais. São essas as mais procuradas e as mais repetidas, rendem as melhores gorjetas.  Afinal de contas temos a sina de nos repetir e de acumular. Isso não é novidade para ninguém. Entretanto, as que mais gosto de contar são aquelas das coisas imateriais. Eu as acumulo,  elas acabam puxando as umas às outras. Ficam se enovelando.

Ontem à noite sonhei que havia encontrado uma amiga desconhecida que mora em Northumberland e no sonho fui indagado do significado de alguns números, o dois, o cinco, no que me saí bem, até encontrar o número dez.  Ele foi o  motivo do meu despertar.  Não sabia dar a nenhuma resposta e envergonhado, acordei.

Acordei, dia de folga, sentei-me e comecei a ler uma história de outro zelador, e ele me contou que jogou durante muitos anos pôquer com cinco parceiros, e dentre eles o mais próximo faleceu em onze de setembro. Chamava-se Rumsey e tinha o hábito de ver os pés descobertos das mulheres enquanto andava, e sempre os via contando até o número dez.  Encontrava repetidamente o mesmo resultado e disse que buscava o número onze, não queria o seis. Naquele momento pediria a moça do número onze em casamento.

Falando em onze.Parece que o barro que me construiu foi feito de pó enamorado. Um pó que serve para o ofício de zelador e de homem-bomba.O terrorista ao explodir deixa naqueles que sobrevivem pequenos pedaços de si no corpo dos outros, descobertos dias depois, quando aparecerem os primeiros calombos nos corpos. São os chamados estilhaços orgânicos.

Não foi a alternativa de emprego que me atraiu, foi a história desses estilhaços; o verdadeiro contador de histórias espalha seus estilhaços orgânicos nas mentes dos ouvintes, sem nenhuma violência,  sem nenhum calombo ou rejeição. Pena que a minha profissão de zelador de um clube sem presenças, não me dará muito chance de espalhar grande coisa. Mas o acúmulo não é algo que se deve buscar incessantemente. 

 

Sabedoria

scriptu em Escrito pelas estrelas by Djabal Thursday October 11, 2007

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Risking enchantment. Do not let me hear

Of the wisdom of old men, but rather of their folly,

Their fear of fear and frenzy, their fear of possession,

Of belonging to another, or to others, or to God.

The only wisdom we can hope to acquire

Is the wisdom of humility: humility is endless.

T.S.Eliot in Four Quartets 

Na perigosa fímbria do encantamento.Que não me falem

Da sabedoria dos velhos, mas antes de seu delírio,

De seu medo do medo e do frenesi, do medo de serem possuídos,

De pertencerem a outro,ou  a outros, ou a Deus.

A única sabedoria a que podemos aspirar

É a sabedoria da humildade: a humildade infinita

T.S.Eliot in Quatro Quartetos através de Ivan Junqueira

Amusia

scriptu em Existo: talvez. by Djabal Tuesday October 9, 2007

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João conversava animadamente com Gaspar, saíam para cumprir um compromisso de negócios. Este último o convidara para um encontro com Madame Boyer, viúva de um grande amigo e sócio de seu pai. Esse sócio descobriu uma doença que o exterminaria dentro de pouco tempo. E, por isso mesmo, planejou uma  viagem de seis meses ao redor do mundo, para poder aproveitar, pela última vez, das coisas boas da vida. Gaspar foi escolhido para acompanhá-lo, à época, jovem e médico. Seria  além intérprete, conselheiro nas consultas que pretendia fazer nos melhores especialistas e estudiosos ao redor do mundo.  João ouvia atento aos  conceitos das boas coisas  e como se deve viver a vida sob a pressão do prazo de validade se vencendo. Soube também das dificuldades de se marcar consulta com médicos famosos; como  fazer para não perder uma consulta marcada com anos de antecedência, com corridas dignas de filmes de aventura. Em resumo, morreu no Crillon de Paris, tomando seu querido champanhe: Rosé, ao chegar da temporada no “Palais Garnier”.

 

Chegaram à residência do encontro marcado.

 

Foram conduzidos a uma ampla sala de estar com uma janela balcão que dava para um jardim inglês. Havia uma luminosidade como uma segunda moldura duma tela dominante em todo ambiente. Nela havia uma nova Lady Agnew de John Sargent. Era a Madame quando jovem.

 

Homens maduros, vividos, habituados a tudo, trocaram impressões sobre a qualidade da obra e a beleza da retratada, quando foram interrompidos pela sua chegada. Alta, esguia, amena, clara, serenidade nos passos e falando com acentuado sotaque, estendeu a mão para Gaspar e para João.  Fora amavelmente entrando pelas eras, contornando os abismos,  até aquele momento; fazia-se acompanhar por uma jovem que era muito parecida com ela. Morena, entretanto, pele trigueira, cabelos arrepanhados num rabo-de-cavalo preso muito alto e mostrava a linha sinuosa e elegante do seu colo, fazendo um sinuoso contraponto com a linha dos seios. Arrogantemente aprisionados numa blusa branca e finíssima. Um rosto simétrico, testa alta, com olhos grandes, negros, delineados naturalmente,  sobre um nariz delgado, arrebitado,  uma boca desenhada a cinzel. Um conjunto perfeito. Uma manifestação acabada da inteligência da natureza.

 

A conversa agora girou em torno de Genebra, onde ela vivia durante certo período do ano, e sobre a violência no Brasil, e na alegria que era passar o inverno de lá, aqui. E o inverno daqui, lá.

 

A presença da jovem exerceu tremenda agitação em João, principalmente percebendo que a sua também não havia lhe ficado indiferente. Ele não conseguia despregar o seu olhar dela. Ela não olhava diretamente para ele, apenas olhava perifericamente, mas sempre, todo o tempo. Com aquele olhar de soslaio da Capitu. Mas insistentemente, furtivamente, timidamente.  Após aqueles minutos de alta voltagem no ambiente, elas pediram licença para providenciar um café para os visitantes.

 

João nem precisou contar a Gaspar. Ele percebera tudo. E segredou, a propósito,  que estava apaixonado pela sua professora de dança. Perdidamente apaixonado. Ao ponto de quase não conseguir dançar mais com ela. Os toques de suas mãos os deixavam perturbados como se tivessem levado um choque elétrico, ele sabia disso e havia conseguido sair para jantar com ela. Nada mais. E conversaram durante horas sobre os seus interesses, descobertos mútuos. Estava com um drama de consciência pelo fato da religião dela ser outra. Tinha receio de ofender a memória de seu pai. Apesar de dizer: “Meu pai sempre me disse que o importante não é a religião, sim o caráter.” Não conseguia agir assim. Estava desnorteado, em conflito profundo entre sua razão e sua sensação. Estava cansado de relações frias; como talheres de mesa sem uso. Queria emoção. Essa emoção também para si.

 

Tomaram o seu café, João gostaria de ter prolongado o café por muito mais tempo, mais que a educação permitia. Não conseguiu.  Mas conseguiu acertar todas as condições contratuais do negócio que lhe foi sugerido inicialmente por Gaspar e aceito pela Mme. Boyer para poder voltar mais e mais vezes àquela casa.

 

E saiu com a impressão de que saia de uma bolha em cujo interior se executava uma música que não seria compreendida fora dali. Havia saído de dentro da história de Dorian Gray.

 

Quisera

scriptu em Acaso Sinto? by Djabal Monday October 8, 2007

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Quisera ter a palavra. A palavra que a tirasse do lugar, a levasse criar coragem, não dependesse de mais nada nem de ninguém, perdesse o medo.

Tomasse do sol o resto da força que elas não deram, mudasse de rumo completamente, antes que a lua chegasse e tirasse a sua coragem.

No começo de tudo era palavra autora; hoje não mais.

O princípio é a atitude. Uma  maneira covarde de manifestar o pensamento. Mas é apropriada aos dias de agora: rápida, incerta, medrosa; agrada a todos, incluindo os dessentidos e sonolentos.

Talvez esteja ébrio de infelicidade, mas certo da incerteza do nosso destino.

Infeliz e soturno.

scriptu em Escrito pelas estrelas by Djabal Sunday October 7, 2007

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Não fui, na infância, como os outros.
E nunca vi como os outros viam
minhas paixões eu não podia
tirar de fonte igual à deles;
e era outra a origem da tristeza,
e era outro o canto que acordava
o coração para a alegria.
Tudo o que amei, amei sozinho.
Assim, na minha infância,
na alba da tormentosa vida, ergue-se,
no bem, no mal de cada abismo,
a encadear-me, o meu mistério.
Veio dos rios, veio da fonte,
da rubra escarpa da montanha,
do sol, que todos envolvia
em outonais clarões dourados;
e dos relâmpagos vermelhos
que o céu inteiro incendiavam;
e do trovão, da tempestade,
daquela nuvem que se alteava,
só, no amplo azul do céu puríssimo,
como um demônio, ante meus olhos.
Edgar Allan Poe através de Oscar Mendes

Nu

scriptu em Existo: talvez. by Djabal Friday October 5, 2007

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Essa pintura chamou minha atenção. Foi uma obra do acaso, do mais belo acaso. Uma obra de arte tenta nos mostrar a vida como ela é. Explicando. Funcionando  como um rasgo na cortina que tampa o cenário do teatro que freqüentamos enquanto estamos por aqui. E ela fez isso.Mostrando que todas as tentativas serão sem êxito. Essa pintura é perfeita. Justamente essa perfeição denuncia algo de maravilhosamente falso, que apenas existe na imaginação da moça que está deitada.Ela está pensando em sua nudez que jamais será vestida, por mais enfeites que use; ela é frágil e solitária neste mundo, como disse um príncipe, ela é o intervalo entre o que é o que não é, entre o sonho e o que a vida fez dela.Deitada olhando as nuvens, o melhor espelho de sua alma fluida, impermanente, tendo a velocidade das mudanças contínuas, ela é essa pessoa com milhares de rostos que mudam como aqueles leves farrapos brancos de uma esperança apenas humana.  

mania a potu

scriptu em Acaso Sinto? by Djabal Thursday October 4, 2007

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“Sim, passaremos todos, passaremos tudo. Nada ficará do que usou sentimentos e luvas, do que falou da morte e da política local“.  Fernando Pessoa. 

Saída de um conto plausível a palma folhuda e carnosa foi instalada num jardim e pode presenciar um almoço de três amigos. Duas mulheres e um homem. Com tempo disponível para aproveitar o dia azul claro da fresca  primavera. O clima era cordial, a comida era farta e o vinho soltava paulatinamente as línguas. Num determinado momento uma contou do seu casamento de vinte anos com um homem mais velho outro tanto. Namorou muito tempo, cinco anos, e como não teve nenhuma outra oportunidade, casou. Aliás, houve uma proposta na época da faculdade. Proposta de se juntar o que se ganhava para lutar por vida melhor. Autor e proposta ambos recusados imediatamente. Indagada se fora feliz, respondeu: “ele acabou de me criar, não suportava mais viver em casa.”Enlevado pelo momento o homem tomou a palavra para dizer que: “algo semelhante ocorreu comigo, casei com uma mulher inteligente e brilhante” Você a amava?“Casei tomado pela angústia da rejeição, a que amei dormia comigo.” “Qual o problema?”  Interrogaram as mulheres.“A questão é que dormia comigo enquanto eu falava ao telefone. Sempre falei muito.” – respondeu envergonhado.

A terceira que parecia a mais tímida, tomou coragem para dizer do seu casamento: “Casei com o homem que escolhi.” Não conseguiu disfarçar um ar de superioridade, florescendo num sorriso suave.“Escolheu por amor?” disse a outra.“Escolhi por estar cansada de viver sozinha.”

O almoço transcorreu até o final entre sorrisos e demonstrações de afeto mútuo. Descobriram-se admiradores de Marylin Manson,  da dança e da filosofia, não nessa ordem, e sim sem nenhuma.

E a planta que costumava conversar com as outras, disse para sua vizinha, ao ver que a reunião se findava: “ Dessa vez  não seremos regadas.” 

Carnal

scriptu em Escrito pelas estrelas by Djabal Wednesday October 3, 2007

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Projetar a alma sob uma forma graciosa, deixá-la um instante repousar e ouvir em seguida as próprias idéias repetidas como por um eco, com toda a música da paixão e da mocidade; infiltrar o próprio temperamento em um outro, assim como um fluido sutil ou um estranho perfume: havia nisso um verdadeiro gozo, talvez o mais completo dos nossos gozos em um tempo tão limitado e vulgar como o nosso, tempo grosseiramente carnal em seus prazeres, comum e baixo em suas aspirações… 

Oscar Fingall O’Flahertie Wills Wilde in Retrato de Dorian Gray através de João do Rio (Paulo Barreto) 

Indivíduo

scriptu em Existo: talvez. by Djabal Tuesday October 2, 2007

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Renego esse indivíduo. Consigo compreender o desespero que se instalou nele, a falta de perspectiva e o medo do fracasso. Esse é o ser acumulador. Se for para acumular, que acumulemos experiências, vivências, sensações, sentimentos para tornar o nosso caminho, esse pequeno trecho em que participamos quando vivos, mais agradável, menos agressivo,  mais fácil de manejar, de viver enfim. Acumulemos, em termos de matéria, apenas aquilo que podemos carregar ou digerir como o simplório caracol. Esse tipo de pensamento, geralmente, é tido como ingênuo, estúpido, moralista ou apenas fora - completamente - da realidade. Talvez por isso escreva dessa maneira, confusa. Talvez por medo da crítica violenta. Não sei dizer ainda. Talvez: vaidade? Sim, creio que é isso. Ninguém gosta de ser considerado dessa forma. Superarei isso através da convivência.

 Vamos acumular convivências. Conviver é uma arte. Tolerar faz parte desta mesma arte. Não temos tempo para considerar o outro. Vamos levá-lo em consideração. Encontrar os seus motivos. Deixar de amar apenas a si mesmo, vamor amar o outro, o diferente.

Sou fã da pizza de baleia que se come no Alaska. E você ?

Meu caracol

scriptu em Penso? by Djabal Monday October 1, 2007

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À Francis Ponge e Robert Musil

Descobri recentemente que temos muito a aprender com os caracóis. Sentado na beira daquele rio, vi que ele habita a terra úmida. Ele não só habita, mas carrega, come, nutre e a expele. A terra ao passar pelo caracol e ao voltar ao seu ambiente jamais voltará a mesma, ela se transforma e ele se transformou. Com uma voluptuosidade de extremo bom gosto; deixando atrás de si uma trilha prateada; finalmente, carrega a sua obra de arte que é a sua casa expondo seus limites.

Não seria tempo perdido pensarmos que os nossos sentimentos têm as mesmas características daquela terra. São as sensações que nos alimentam, elas passam por nós e saem transformadas como se fossem integralmente nossas.

 

Não o são.

 

Cada uma é um outro fruto, filha daquele pai e daquela mãe. Essa é a nossa trilha prateada. Trilha que poderá nos denunciar para algum predador, que poderá nos tornar presa fácil.

Ando conversando bastante sobre indivíduo, individualidade e individualismo e preliminarmente, posso concluir que estamos fadados a viver nessa constante comunhão, portanto tudo que nos leva ao indivíduo, que não seja roupa, alimento, habitação, é falso, melhor dizendo, é fútil, destrutível e fadado ao extermínio.

Devemos cultivar a convivência, aprendendo que os nossos sentimentos são despertados de dentro de nós, por tudo que nos cerca; geralmente, não o percebemos, por impaciência ou intolerância, por não conseguir ver a terra como alimento.

Depois de alguma experiência posso acrescentar: todas as vezes que alguma ave de rapina me aprisionou, saí mais rico da experiência, tudo que me foi devorado, se regenerou e se reconstruiu.

A nossa obra de arte é a cabeça. Carrega nosso mundo, é materialmente delimitada e interiormente infinita, uma mirada ao infinito. Creia.

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