William Blake

scriptu em Escrito pelas estrelas by Djabal Wednesday November 28, 2007

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Principle 3d

No man can think, write, or

speak from his heart, but he

must intend truth. Thus all sects

of Philosophy are from the Poe

tic Genius adapted to the weak-

nesses of every individual.

 

Princípio 3o.

Nenhum homem é capaz de

pensar, escrever ou falar do

coração sem intentar a verdade.

Por isso todas as seitas da Filo-

sofia resultam do Gênio Poético

adaptado às fraquezas de cada

indivíduo.

William Blake, in Sete Livros Iluminados, através de Manuel Portela.

e-bope

scriptu em Acaso Sinto? by Djabal Tuesday November 27, 2007

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Assisti ontem ‘Tropa de Elite’, um sucesso de público dos últimos tempos. Gostaria de ter visto um grande filme. Não consegui. Uma história bem contada, num ritmo frenético, uma descrição do inferno, com atuações impecáveis, dignas de filme americano.Estamos sensibilizados por tudo que estamos passando (assaltos, homicídios, acidentes, roubos, e um marasmo de dar medo); ficaremos ainda mais assistindo ao filme. A quantidade de injustiças e agressões diárias cometidas é imensa. E por tudo isso que sofremos sem nenhuma alternativa de solução é que nos sentimos aliviados e vingados.Só não é exatamente um filme dantesco por nos dar uma esperança. Ainda que ilusória. Saímos deles com ela no coração. Temos um anjo vingador. Viva o Capitão Nascimento.O cotidiano mostra que essa história é irreal. Nos últimos anos, já perdi a conta, o final quase nunca é feliz. O bandido mata o mocinho sempre, quando isso não ocorre é notícia e acaba virando novela, filme ou romance.Quem financia o tráfico é o consumidor. Bem, qual a novidade? Escolhemos o estudante maconheiro como um dos maiores responsáveis? Será? A classe média, a classe baixa, a classe rica? Ou todos nós.Todos nós somos responsáveis para encontrar alguma solução viável, consumidores ou não. Por mim, posso declarar que a droga que consumo é o vinho de qualidade inferior, aliás, que não falta por aqui. A solução proposta pela história é a da especialização e profissionalização da polícia. Com polícia melhor, teríamos um grande passo adiante. Creio que sim, mas a solução para isso deve prever um longo, longuíssimo caminho, planos para os próximos anos. Devemos pensar seriamente em legalizar as drogas. Tirar o caráter clandestino delas. Não eliminar essa possibilidade antes de estudá-la, profunda e longamente.Mas não acredito que estejamos preparados para isso ainda. O período a que estamos sendo submetidos a essa guerra civil ignóbil é muito grande, as chagas causadas estão abertas. E enquanto isso perdurar justiça é vingança. Não é razoável esperar algo mais que vingança.  

Mira, alvo ou instrumento?

scriptu em Penso? by Djabal Monday November 26, 2007

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Sexta feira passada Bernardo Soares explicou a vantagem da prosa sobre a poesia, ligou a palavra à sintática e à sintaxe. No mesmo dia, li as suas palavras que para mim diziam o mesmo. Respondi-lhe algo assim, e de acaso em acaso estamos aqui,agora.


A palavra como expressão do raciocínio serve de mira ou alvo. Com ela ora miramos algo, ora o atingimos, ora não. O uso do raciocínio é um tiro curto. Prático, rápido e para uso limitado. É um prazer o seu uso, o alvo é a vaidade que ela estimula na gente. A vaidade do reconhecimento da nossa razão.  Razão que não serve para profundas indagações.


Já a palavra como expressão do sentimento serve de instrumento. Um de vários. Desvenda um outro Universo.  Mostra a nossa sintática dentro daquela sintaxe do texto onde ela foi expressa. Tem um alcance maior, mais complexo.  Apenas vai desvendando e ampliando seu significado com uma boa conversa. Um bom questionário esclarecedor. Gosto de pensar que ela é uma espécie de caminho para encontrar a beleza que nos foi reservada neste mundo. E é com ela que a mostramos ao nosso próximo.


Voltando ao Fernando, lembro que ele precisou de várias ‘personas’; precisou da prosa e da poesia para expor as belezas que encontrou;  a sua forma de as exprimir foi através da sintaxe do verso e a sua sintática particular.
  Se trocar essa última por harmonia a compreensão ficará mais fácil.
Palavra é o nosso caminho para a harmonia entre a nossa vida e tudo que nos cerca. Jamais será a busca da verdade.
 

 Soube de um amigo que encontrou um livro com uma propriedade singular. Cada vez que é aberto ele oferece um texto diferente do anterior. Com o seu manuseio constante ele perderá a sua propriedade e se tornará como os outros, com sentido único. Ele tratou de guardar seu exemplar. Com medo de ler aquela verdade destruidora, após o qual o mundo deixará de ser múltiplo e, portanto, de existir.
Somos uma espécie de sacerdotes delas e fazemos alguns sacrifícios em sua homenagem, sem datas fixas e horários certos.
 Cada um tem sua liturgia própria.

Gaveta

scriptu em Acaso Sinto? by Djabal Saturday November 24, 2007

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Um agente estatístico perguntou para Carlos, ao fazer uma pesquisa sobre os hábitos sexuais dos brasileiros:

- Quantas mulheres passaram pela sua vida?

- Nenhuma. Eu passei na vida de algumas mulheres.

 

Nesse mesmo movimento, outro fez a mesma pergunta para Hilda e anotou:

 

- Nunca me casei. Hoje se vendesse algum dos meus livros, teria a companhia de um belo moço.

 

Dentre milhares de respostas convencionais, esses dois relatórios ficaram na mesa do analista supervisor. Ele estava em dúvida na classificação dessas respostas. Depois de pensar, cravou em ambos:

 

Solitário.

 

A partir dos seus pensamentos percebeu que cada palavra é uma gaveta entreaberta, com muitos significados embutidos, organizados, catalogados; nenhum deles separadamente, ou em conjunto, dá a idéia exata da realidade que o cerca. Riscou a resposta e aguarda instruções superiores.

Hápax

scriptu em Acaso Sinto? by Djabal Wednesday November 21, 2007

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“Jamais conseguiremos alcançar o verdadeiro valor da palavra. Quem chegou mais próximo disso foi Poe; paradoxalmente, mesmo sem sabermos ainda o seu poder, o ultrapassamos.  A luta que travamos para vencer o meu medo e a sua desconfiança alcançou o apogeu na declaração - Eu te amo. Depois disso o silêncio.

Todas as vezes que um ou outro aparecia, combatíamos bravamente. Atingimos o vazio. Aquilo que é superior à palavra. Não consegue mais ser descrito. Apenas sentido.

Falamos sobre a música, sobre a maneira ignorada com que ela apela aos nossos sentimentos. Lembra?  Agora posso dizer ‘nossos’, não? Conseguimos inalar o perfume de uma orquídea, ouvir o som do silêncio, sentir-se parte da natureza.

Diante da batalha travada pela conquista dos territórios afastados da nossa interioridade conseguimos um êxtase. Uma harmonia.

O desejo se tornou algo banal, indispensável, cotidiano. Um certo deslocamento do eixo da luta.  A primeira fase foi aquela em que queríamos saber quem é o outro.  Vencida a primeira, veio o inebriar.

A terceira fase deverá ser a construção de algo que seja comum aos dois. E o caminho não é suave. Tomará todo o tempo que nos resta. É o caminho só.

Ao invés de desconfiança: desejo. Ao invés de medo: desejo. Ao invés da poesia: desejo. Ao invés da cerveja: o desejo.

Essa é a equação para construir algo que é totalmente ignorado. Todas as formas de sinceridade serão usadas para incentivar a construção de um dique que nos proteja de tudo o mais. Todas as formas do medo serão usadas para proteger os passos seguintes.

Não há mais hipóteses a serem refutadas ou confirmadas.  Todas serão as nossas. O desafio que temos pela frente é não perder o foco, não travar batalhas inúteis que serão sempre um passo atrás.

O grande desafio é conseguir ver que seremos doravante sempre diferentes; conseguimos chegar ao ponto de concordar que o nosso raciocínio é vago, inútil e sem serventia nessa questão. A questão é sentir, trocar, dar, receber e …. pensar; apenas para organizar isso tudo nessa folha de papel inútil, agora.

 Não escreverei mais.” 

 Trecho imaginário de um múltiplo desabafo de Tom Waits, Charles Bukoswski, e Bruce Chatwin, encontrado em caracteres cuneiformes, numa caverna rupreste de sítio arqueológico na Patagônia. Temperatura ambiente: sete graus celsius. Ventos: oitenta quilômetros horários. Estação do ano: Primavera. Não é possível o uso de cartão de crédito, por problemas de comunicação. 

Ruud

scriptu em Existo: talvez. by Djabal Saturday November 17, 2007

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Ruud nasceu destinado ao silêncio. Falava pouco, o indispensável, sabia que nada de útil pode ser ensinado. Seus pais fugiram da pobreza européia, do darwinismo social que imperava, chegaram separadamente; um da Holanda outro da Alemanha. Casaram-se aqui. A família de sua mãe voltou; a de seu pai se aclimatou, criou raízes.

Acreditava tremendamente na palavra. Sua diversão preferida era procurar palavras que se encaixavam completamente na definição pedida. Sem dúvidas, sem outros sentidos. Conhecia as mais estranhas palavras e as mais exóticas ações. Zorro para ele significava andar de gatinhas; aquele período que sucede o despertar pela manhã, misto de sonho e a realidade, se chama hipnopômpico. Tinha facilidades com línguas estrangeiras, aprendia a música  do idioma rapidamente, e falava várias línguas e dialetos.

Acreditava no trabalho por herança familiar e social. Tudo girava em torno do trabalho. De outro lado, ao sair para a rua, sentia muita dificuldade em compreender o lugar onde havia nascido. Tudo era mais solto, leve, não tão comprometido com a eficiência, com a rigidez. Cresceu e viveu nessa contradição entre a casa e a rua. Ambos eram antagônicos em princípios e comportamento.

Sua mãe era fervorosa devota de Lutero. Sentia saudades de algo que não sabia bem o que era, ao ver um filme, um documentário da sua terra. Matavam as saudades através da língua. Conversavam apenas em alemão em casa, traziam muito de perto a cultura e os hábitos da terra natal. Sua casa era um pequeno estado alemão. Tinham constituição, direitos, deveres, horários, escalas e tudo mais, um completo sistema legal paralelo.

Casou-se contra a vontade de todos com uma nativa. Brasileirinha da Silva. Filha de imigrantes árabes e colonizadores portugueses, uma reminiscência da invasão árabe na península. Logo após o casamento viajou para o Rio de Janeiro para trabalhar numa empresa do seu pai.

Sua mulher era completamente despreparada para a casa. Emancipada, moderna ou pobre, trabalhava fora, preferiu aprender tudo com a família que adotou, para atender aos não ditos desejos do marido. Essa inexperiência foi lida, vista e entendida como ignorância.

Tiveram o primeiro fruto, filho parecido com o avô paterno, loiro, forte, olho azul; parecia que tudo caminhava para uma acomodação dos costumes quando a cidade e o casal enfrentaram uma epidemia silenciosa de poliomielite, a maior conhecida até então. Não saíram ilesos; o filho contraiu o vírus. Sobreviveu à febre intensa. Sobraram as seqüelas físicas, emocionais e conjugais.Fizeram de tudo que a emoção pedia e podia sugerir para voltar no tempo. Nada o vírus veio para ficar.

O filho cresceu, claudicou muitas vezes, olhava para o pai que, por sua vez, observava o carinho inestimável da mãe;  e ele parecia sempre insatisfeito, aliás, a palavra correta é preocupado.

Sobre os seus sentimentos falou algumas vezes, duas marcantes. Foi com o filho assistir a uma partida de futebol. Uma paixão de ambos. O filho caiu, numa tentativa de sentar-se na arquibancada. Todos correram para acudi-lo, e o pai disse severamente:

- Pode deixar, obrigado; ele caiu, ele levanta.

- Mas ele pode ter se machucado – retrucou alguém.

- Creio que não, ele precisa aprender a se defender sozinho.  A vida seguiu normalmente, o filho começou a trabalhar ao precisar do primeiro dinheiro; aprendeu a ganhar sua vida, ter uma vida regular, alegre, saudável e prosperou ao lado do pai. Quieto, sério, sempre fazendo suas palavras cruzadas.Passado o tempo, a família enfrentou uma segunda grande crise. Enfisema. O pai adquiriu, e mesmo assim jamais perdeu o hábito de fumar. Foi aconselhado pelo médico para deixar o vício. Respondeu:

- Prefiro viver meu tempo com alegria, seja ele quanto for; não quero passar anos que me foram reservados, tristes como os carneiros.

Após vários pneumotóraces, já exausto; numa das visitas do filho, disse:

- Não quero trabalhar mais, meu filho.

- Claro pai, considere-se desempregado e feliz.

O filho saiu feliz dessa conversa, pela intimidade com que foi tratado, com o fato de poder pela primeira vez, ajudar ao seu pai; que parecia ter recomeçado outra vida no hospital, assistindo às mais incríveis partidas pela TV, relembrando a várzea, adorava a gelatina que lhe era servida. Um homem forte, após tantos anos de trabalho, começou a gozar a vida como sempre vira acontecer nas ruas em que andava.

Algumas noites depois, no meio de uma, o filho recebeu um telefonema do hospital pedindo sua presença. Saiu rapidamente, talvez seu pai houvesse esquecido algo, talvez precisasse de algo mais, chegou rapidamente, encontrou sua mãe, sua irmã e foi informado de que ele não suportara a doença. Descansou. Sem minha ajuda 

O Navio

scriptu em Escrito pelas estrelas by Djabal Friday November 16, 2007

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“Só deixei no cais a multidão,

a terra dos mortais,

a confusão,

Navego sem farol,

 sem agonia…distante;

E vou nesta corrente,

na maré,

 no escuro da menor consolação

Acordo a meio do mar que me arrepia,

e foge…. 

A minha paixão é a loucura. 

Ando…

Numa viagem perdida,

o navio anda a deriva,

Sozinho.

Não é grande o mal,

bem pouco dura;

e quando…

Afundar a minha vida,

se calhar sou prometida…do Mundo.”

 Pedro Ayres Magalhães

O homem

scriptu em Escrito pelas estrelas by Djabal Wednesday November 14, 2007

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O que acontece com os homens por vezes é que um dia, de uma só vez, eles se dão conta do quanto amam os filhos, do mesmo modo absoluto como a criança dá seu amor, e das implicações terríveis desse fato, - e é demais para que eles suportem, eles não querem nada disso, nem um pouco, e recuam apavorados. E é assim que se configuram essas situações infelizes, - em particular entre filhos e pais. O Pai tem muito medo, o Filho é muito inocente. No entanto, pudesse ele resistir à primeira onda de medo, e ter por sorte Tempo bastante para pensar, encontraria talvez uma saída.

 

Thomas Pynchon in Mason & Dixon, através de Paulo Henriques Britto

Música

scriptu em Penso? by Djabal Tuesday November 13, 2007

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Aprendi que na civilização grega a música era entendida de uma forma diferente da nossa. E que a educação musical era a mais completa que o homem poderia ter acesso. Compreendia a harmonia entre os sons, entre as palavras, entre a inspiração e a expiração, entre o homem e a natureza, cujo conteúdo sai dos limites da palavra. Era a busca do entendimento direto, sem intermediários, e nem todos conseguiam, portanto, atender esse requisito.

Hoje a nossa compreensão da música muda da natureza estará melhor?

Creio que temos tanta pressa, tanta coisa para fazer antes de terminar o nosso período, que nada disso tem mais a importância que deveria ter.  Se o conceito  música melhorou por ter sido, partido, contado e dividido, perdeu paralelamente a relevância.  Não temos mais ouvido musical, ou o silêncio para ouví-la, ou sabedoria para compreender a outra música, aquela que fala em voz diferente da nossa.

Caminho Suave

scriptu em Escrito pelas estrelas by Djabal Monday November 12, 2007

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O povo antigo, que aspirava à clara harmonia moral do mundo, punha primeiro em ordem a sua vida nacional; os que desejavam ordenar sua vida nacional regulavam primeiro sua vida familiar; os que desejavam regular sua vida familiar cultivavam suas vidas pessoais; os que desejavam cultivar suas vidas pessoas arranjavam primeiro seus corações; os que desejavam concertar seus corações tornavam primeiro sincera a sua vontade; os que desejavam tornar sincera a sua vontade chegavam primeiro à compreensão; a compreensão provém da exploração do conhecimento das coisas. Quando se alcança o conhecimento das coisas, atinge-se a compreensão; quando se atinge a compreensão, a vontade é sincera o coração se concerta; quando o coração se concerta, cultiva-se a vida pessoal; quando se cultiva a vida pessoal, regula-se a vida familiar; quando se regular a vida familiar, a vida nacional é ordenada; e, quando a vida nacional é ordenada, o  mundo está em paz.    

Ensinamento confucionista aplicado desde a dinastia Sung (Song) – século X – como base para o início do conhecimento, apud Lin Yutang in a Importância de Viver, através de Mário Quintana.

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