Medo
Você não consegue acreditar em nada a não ser em seus medos. Ou melhor, você acredita em algumas coisas, não o suficiente para que possa avançar naquela direção. Teme a entrega como se estivesse à beira, diante, de um abismo. É o fim, o sinal de alerta, o farol do fim do mundo que acende o pânico pela falta de alternativas.
Procura abrigo na família, na casa, em outro, para amainar a sua dor, confundi-la com outros pensamentos, problemas e convivências, é o seu narcótico. Pensa que estando aparentemente no mesmo lugar, o seu risco diminui. Não. Creio que ele aumenta e muito. Com isso adquiriu um prazer ao sentir medo. Precisa de alguém mais para afastar a solidão. O medo enfrentado junto não muda ou diminui nada mais. Acrescenta ao seu, o rol de medos daquele, até então desconhecidos. Sofre confortado tendo alguém para se agarrar física ou mentalmente? Tanta tristeza o faz um sonâmbulo, uma pessoa que vê fantasmas em tudo. Totalmente afastado do mundo sem se conhecer, sem sentir-se parte integrante dele; e por isso mesmo nada há para ser temido.
A busca real é a da harmonia. A complexidade do nosso interior é igual ao do exterior. Não existe a barreira física entre você e o que o cerca. Essa pele – fina e frágil - servirá como sensor, órgão recebedor, da ressonância do que ocorre lá fora; e como órgão emissor da sua ressonância ao mundo exterior. A solidão é também um desconhecimento disso tudo, um desperdício da experiência de Thoreau: “eu fui à Floresta porque queria viver livre. Eu queria viver profundamente, e sugar a própria essência da vida… expurgar tudo o que não fosse vida; e não, ao morrer, descobrir que não havia vivido”.
Um amigo disse-me: ‘Devemos viver como se estivéssemos num bote, apenas usando o leme para corrigir levemente a rota, usando a força natural da corrente. Fazer muita força ao remar é sinal de que algo está errado, estamos em desarmonia pelo curso que tomamos. Não culpe o barco, a corrente, apenas o rumo. Não sei se consigo ajudá-lo em algo. Peço que se entregue ao seu medo completamente, mas esqueça-o logo após ele fazer todo o efeito; depois saia do seu lugar. Seja um vagabundo. Um louco. Um desvairado. Conviva com outros e principalmente consigo mesmo e com o que está ao seu redor, deixe a pressa de lado, dê valor ao que realmente tem valor, para que possa dizer no seu dia:
“Tive uma boa função.”
